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Iniquidades tributárias

17 de maio de 2012

Cláudio Conz*

Como membro do CDES, Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, tenho acompanhado e discutido uma série de temas no que diz respeito às iniquidades sociais brasileiras.

Dentro deste órgão, temos o “Observatório da Equidade” que é uma das estruturas do conselho e que tem por objetivo gerar instrumentos aos conselheiros e à sociedade, para enfrentar o problema das desigualdades.

O órgão tem avaliado o país sob diversos aspectos. Uma das iniquidades de maior gravidade tem sido, sem dúvida, a de ordem tributária. O que vemos é que a distribuição da nossa carga tributária não respeita o princípio da justiça fiscal, que propõe que quem possui maior renda seja mais onerado do que quem ganha menos.

Segundo estudo do CDES, em 2004, quem ganhava até dois salários mínimos, pagava 48,8% desta renda em impostos, enquanto quem ganhava mais de 30 salários mínimos tinha apenas 26,3% de sua renda comprometida com o fisco. Em 2002 e 2003, enquanto os 10% mais pobres da população comprometiam 32,8% de seus salários com tributos, os 10% mais abastados sofriam com uma carga de 22,7%. Vemos que, quanto mais a renda aumenta, a porcentagem de tributação tende a diminuir.

É importante entendermos como funciona nossa tributação. Grande parte dos impostos incidentes sobre as camadas mais baixas da população são indiretos. Dados das Contas Nacionais mostram, por exemplo, que, em 2008, nossa carga tributária ficou em 34,9% do PIB – Produto Interno Bruto.

Os impostos incidentes sobre a produção e importação de bens e serviços (aí podemos incluir ICMS, IPI, ISS e COFINS) somaram 16,3% do PIB e responderam por 46,8% do que foi arrecadado com impostos naquele ano. Por outro lado, os impostos incidentes sobre a renda e a propriedade, associados ao princípio da progressividade responderam por 8,9% do PIB, ou 25,6% do total da carga tributária.

Outro ponto a se destacar é que, embora nosso sistema tributário se proponha como equitativo, o que deveria abarcar uma distribuição equilibrada pelos vários setores da nossa economia, vemos que as entidades financeiras vêm realizando ao longo das últimas décadas uma série de inovações que permitem a geração e a apropriação de renda que, em muitos casos, não são captadas pelo sistema.

Estima-se que, entre 2000 e 2006, enquanto os lucros cresceram 5,5 vezes, a tributação das instituições financeiras aumentou em ritmo bem menor — apenas 2,7 vezes. Os lucros cresceram 446,3%, enquanto o IR sobre o resultado dessas instituições não acompanhou esse desempenho, e teve um aumento de 196,6%.

Além disso tudo, vemos que nossa carga tributária é semelhante à de países de alta renda, mas os serviços oferecidos pelo Estado à população ficam muito aquém do que poderia ser feito. Para se ter uma ideia, dos 34,9% do PIB auferidos em 2008 apenas 10,4% do produto retornaram à sociedade na forma de investimentos públicos em educação (4,7%), saúde (3,7%), segurança pública (1,4%) e habitação e saneamento (0,6%).

Os dados estão aí. Temos muitos diagnósticos do que precisa ser feito em nosso país para diminuirmos as desigualdades. Agora, precisamos sair do papel e colocar em prática.

*Cláudio Conz é presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco)

Publicado por:  Brasil Econômico

Fábricas digitais da Terceira Revolução Industrial

7 de maio de 2012

Ethevaldo Siqueira

Há pouco mais de um ano, visitei uma fábrica inteiramente robotizada, sem operários, na Coreia do Sul. Dedicada à produção dos mais modernos displays e monitores de televisores, essa unidade fabril não emprega nenhum trabalhador na área de manufatura: conta apenas com uma dúzia de supervisores de qualidade e software.

Essa terceira revolução industrial, aliás, foi tema de magnífica reportagem de capa da revista britânica The Economist, há pouco mais de uma semana. Ao longo de 14 páginas, o jornalista Paul Markillie nos mostra com rara precisão o que são hoje as mais modernas indústrias manufatureiras.

Na fábrica de 2012, quase tudo é automatizado e digital, graças à convergência de poderosas tecnologias, de software inteligente, novos materiais, milhares de computadores, robôs habilidosos, impressoras 3D, processos de realidade virtual e até simuladores de voo. É claro que, vez ou outra, podemos encontrar, como espécies em extinção, máquinas e ferramentas típicas da segunda revolução industrial, como furadeiras, prensas, lixadeiras, tornos e fresas convencionais.

Para quem não tenha visitado fábricas modernas nos últimos anos, visão de uma dessas indústrias do século 21 produz verdadeiro choque, em particular, na indústria automotiva e na aeronáutica. Reflitamos um pouco mais sobre esse cenário.

Informatização

Muitas fábricas modernas se assemelham a laboratórios de informática, pois, como diz a revista, “a maioria dos operadores, homem e mulheres, sentam-se diante de telas de computadores. Em lugar nenhum você encontrará um martelo”.

Um exemplo desse avanço são as impressoras 3D, máquinas que reproduzem peças de alta complexidade, apenas por deposição de material sobre um modelo virtual, controlado por computador. Como cidadão comum, contemplo, incrédulo, o trabalho dessas máquinas capazes de reproduzir com precisão, peças, objetos ou réplicas de esculturas célebres.

A impressão 3D, entretanto, ainda está na infância e não serve para fabricar equipamentos mais complexos. Mas, com ela já se fazem, por exemplo, joias, sapatos e fones de ouvido, um a um, sob medida.

Novos paradigmas

Novas técnicas permitem que a indústria produza objetos minúsculos com muito maior precisão e segurança. A nanotecnologia começa a participar do dia a dia da produção dos dispositivos mais avançados. Como diz a revista inglesa, os novos materiais são mais leves, mais fortes e mais duráveis do que os antigos. A fibra de carbono está substituindo o aço e o alumínio numa gama de produtos que vai do avião às mountain bikes.

Mas a redução da mão de obra é inexorável nas indústrias manufatureiras modernas. No exemplo dado pela Economist, a fábrica britânica da Nissan em Sunderland, produzia 271 mil carros com 4.600 pessoas em 1999. No ano passado, a mesma fábrica produziu 480 mil veículos com apenas 5.462 empregados.

Para onde vão os empregos eliminados nesse processo? Vão para as áreas de serviços, começando pelos mais sofisticados, como os de educação, pesquisa, projetos, controle de qualidade, saúde, entretenimento, artes, comunicações e os de cuidados pessoais. Por isso, a fábrica sem operários não traz, necessariamente, o pesadelo do desemprego inexorável e epidêmico.

Marx e Engels

Quase dois séculos nos separam da primeira revolução industrial. Neste ponto, não resisto à tentação de especular: “Como reagiriam Karl Marx e Friedrich Engels se ressuscitassem e vissem de perto as transformações a que chamamos de terceira revolução industrial?”

Meu grande desejo seria entrevistá-los, em especial, depois de uma visita àquela fábrica coreana robotizada, sem operários, a que me refiro na abertura deste artigo.

Relembremos que a primeira revolução industrial começou na Inglaterra poucos anos depois da invenção da máquina a vapor, por James Watt, em 1760, com a mecanização da indústria têxtil e das bombas que retiravam água das minas de carvão. Já a segunda revolução industrial, no começo do século 20, foi marcada pela produção em massa, como na linha móvel de montagem de Henry Ford.

Marx e Engels analisaram em profundidade a maior transformação econômica, social e tecnológica da humanidade ocorrida até então com o nascimento do capitalismo. Uma de suas obras mais populares foi, sem dúvida, o Manifesto Comunista, de 1848.

As semelhanças

Há aspectos ainda atuais do Manifesto. Note este trecho, leitor: “Pelo rápido desenvolvimento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, a burguesia impele todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a torrente da civilização”.

Como panfleto político-ideológico, o documento sugere algo muito parecido com a globalização de nossos tempos e com o “mundo plano” de Thomas Friedman. E, embora exalte o poder de transformação do trabalho humano, das forças de produção e da revolução científico-tecnológica, o Manifesto focaliza com muito mais ênfase o poder da burguesia, a classe que concentrava em suas mãos o capital e a técnica.

Imagino aqui como seria uma versão 2012 do Capital, de Marx, reescrita depois do desmoronamento do comunismo soviético, da ascensão da China e, principalmente, da revolução digital. Será que ele ainda faria uma proposta socialista?

Publicado por:  Estadão

As células-tronco e a ilusão chinesa

4 de maio de 2012

Cristiane Segatto*

Uma investigação revela que nem o governo consegue acabar com esse engodo. Como os brasileiros podem se proteger.

É possível enxergar a realidade de várias formas, mas uma doença grave na família quase sempre canaliza os olhares para um foco único: o da esperança. A confiança em uma coisa boa é apenas uma das definições de esperança, segundo o Dicionário Houaiss. Há uma outra. Ela quase sempre escapa pela janela quando a moléstia avança pela porta: esperança é algo que não passa de uma ilusão.

Nos últimos anos, famílias de brasileiros que enfrentam graves doenças foram atraídos pelas promessas de cura feitas por empresas instaladas na China. As células-tronco chinesas viraram a panaceia do novo milênio. Em apenas um site da internet, é possível receber a oferta de soluções para problemas que nem as melhores cabeças do mundo, somadas, foram capazes de encontrar.

Autismo, ataxia, esclerose lateral amiotrófica (a doença do famoso físico britânico Stephen Hawking), paralisia cerebral, derrame, lesão medular, distrofia muscular, epilepsia, Parkinson, doença de Huntington. A lista é ainda maior.

Por milhares de dólares, as empresas oferecem injeções de células-tronco que ninguém sabe de onde vêm. Os cientistas mais respeitados do mundo nessa área não sabem se os chineses usam células-tronco embrionárias (aquelas que tem o potencial de gerar qualquer tecido do organismo) ou células de tecidos específicos extraídas de fetos abortados. Ninguém sabe o que os chineses fazem porque eles simplesmente não publicam seus “achados” em revistas científicas.

O que se sabe é que eles cobram caro para submeter os pacientes a experiências que, além de não curar, podem piorar a condição dos doentes. As empresas atraem novos clientes por meio de sites que exibem depoimentos de pessoas que receberam as injeções e dizem ter observado melhorias.

Pode ser efeito placebo. Pode ser um ganho momentâneo provocado por remédios ou fisioterapia. Pode ser qualquer coisa. Inclusive, não ser verdade. É impossível afirmar que essas injeções sejam seguras e eficazes sem acompanhar os pacientes por um longo período, com método científico, e publicar os achados (satisfatórios e insatisfatórios) em revistas científicas. É assim que a ciência caminha. Enquanto isso não é feito, o que os chineses estão fazendo tem nome: charlatanismo.

É compreensível que os brasileiros se comovam com a história de crianças e adultos que enxergam nas promessas chinesas uma única chance. Brasileiro, felizmente, tem coração grande. Mas o altruísmo não pode embotar o conhecimento e a capacidade de reflexão.

Campanhas são feitas em todo o Brasil por famílias que tentam arrecadar dinheiro para a viagem e o falso tratamento. Digo falso porque nas condições em que são oferecidas essas experiências jamais poderiam ser chamadas de tratamento. Carros são doados, municípios inteiros se mobilizam, comunicadores divulgam os apelos.

Melhor seria se a energia e o dinheiro reunidos fossem aplicados na assistência a esses pacientes aqui mesmo no Brasil. Com os recursos terapêuticos que já existem e que foram submetidos ao crivo da ciência. Eles não curam, eles melhoram a qualidade de vida do paciente de forma limitada…Tudo isso é verdade mas, infelizmente, é o que a ciência e a medicina podem oferecer no momento.

“Ir atrás desses tratamentos na China é uma temeridade”, diz Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Laboratório Nacional de Células-Tronco (Lance). “Não só pelo dinheiro desperdiçado, mas pelo risco envolvido. É difícil transmitir isso a uma família desesperada, mas o fato é que os doentes podem piorar em vez de melhorar.”

Para ficar em apenas dois exemplos, essas experiências podem provocar câncer e doenças autoimunes. Se as células-tronco embrionárias têm o potencial de se transformar em qualquer tecido, elas podem dar origem a um tumor em vez de corrigir o defeito que se pretende corrigir.

As injeções também podem confundir o sistema imune. “Temos uma biblioteca de anticorpos. A injeção de células estranhas pode fazer o organismo atacar aquelas novas células e também as do próprio paciente”, diz Rehen.

Na semana passada, a revista científica Nature publicou uma investigação sobre esse triste turismo médico na China. Segundo a publicação, o Ministério da Saúde chinês classificou essas experiências como altamente arriscadas e determinou uma auditoria nas empresas antes que elas pudessem oferecer esses serviços. Nenhuma delas recebeu aprovação das autoridades sanitárias da China para funcionar.

A medida não teve nenhum efeito prático.

“Em 2009, havia cerca de cem empresas oferecendo experiências com células-tronco na China”, disse à Nature Doug Sipp, pesquisador do Riken Center for Developmental Biology, em Kobe, no Japão. “Mesmo depois da reforma proposta pelo Ministério da Saúde, essa indústria continua crescendo.”

Em janeiro, o governo chinês anunciou um pacote para moralizar o setor. Qualquer organização que trabalhe com células-tronco deve registrar as pesquisas em andamento e possíveis atividades clínicas, declarar de onde vêm as células-tronco e quais são seus procedimentos em relação à ética em pesquisa.

O Ministério da Saúde chinês pediu às autoridades locais que interrompam qualquer uso clínico de células-tronco que não tenham recebido aprovação prévia. E lançou uma moratória nacional para barrar qualquer novo estudo clínico com células-tronco. Determinou também que não seja cobrado nenhum valor dos pacientes inscritos nessas experiências.

Cobrar milhares de dólares para submeter um paciente a uma experiência, sem nenhuma garantia de segurança e eficácia, é uma das mais sórdidas atividades econômicas desses novos tempos. É muito difícil fazer uma família perceber isso no momento em que se apega a toda e qualquer esperança. Alertar é a obrigação de quem tem distanciamento suficiente para enxergar a cena completa.

Como bem lembra o editorial da Nature, nas décadas de 30 e 40 do século passado, os médicos se convenceram de que o acesso à lobotomia (intervenção cirúrgica radical no cérebro para tratar esquizofrenia e outros males) era tão ugente que não seria possível aguardar o processo de comprovação de segurança e eficácia. Os cérebros de milhares de pacientes foram mutilados antes que os críticos conseguissem reunir argumentos e evidências suficientes para banir o uso da lobotomia.

É grande a semelhança com o que acontece hoje na China.

Infelizmente, a ciência não avança na velocidade esperada pela sociedade. Mas cautela é fundamental. Nesta semana, o Brasil deu mais um passo ao anunciar a liberação de R$ 15 milhões para estimular as pesquisas com células-tronco em oito centros de tecnologia celular.

Todo dinheiro é bem-vindo, mas é preciso ir além. Não é de hoje que os pesquisadores lutam contra a burocracia da Anvisa para conseguir importar reagentes e material biológico. As células não chegam ou chegam mortas aos laboratórios. São desperdiçados tempo, energia e dinheiro.

Os centros também precisam de novas regras para conseguir contratar pessoal com rapidez e com salários atraentes. No laboratório de Rehen, os profissionais são contratados por meio de bolsas. É difícil, quase impossível, reter um bom pesquisador com salários entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil.

“Acabei de perder um ótimo profissional. Vai trabalhar na L’Oréal, em Paris”, diz Rehen.

Sorte do garoto. Azar o nosso.

*Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 17 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo. Entre em contato: Email: cristianes@edglobo.com.br Twitter: @crissegatto

Publicado por:  Época

Vamos e venhamos outra vez

1 de maio de 2012

João Ubaldo RibeiroO Estado de S.Paulo / O Globo  

Volta e meia, toco no assunto de hoje, sempre com as mesmas opiniões. Não adianta nada, mas sei que há muita gente que pensa parecido e gosta de ver estas observações expostas novamente, com outras palavras. Não há de ser em minha geração, mas virá o dia em que nos tocaremos de vez. Morrerei cético, mas na torcida e com o fio de esperança que todos precisam carregar. Refiro-me a nós mesmos, o tão falado povo brasileiro. 

Quando eu era um jovem metido a várias coisas (aliás, tão metido que, se hoje encontrasse um fedelho opinioso como eu era aos 20, desapareceria do recinto assim que ele falasse e me manteria à distância, no mínimo em outro município), os brasileiros não tinham culpa pelo atraso do País, mais tarde adornado com a designação, então em uso chique, de “subdesenvolvimento”. 

A culpa era do imperialismo norte-americano, tudo o que de ruim nos acontecia era culpa do imperialismo norte-americano. Até quando a moça não queria nada com a gente, a culpa era do imperialismo, que impunha padrões de beleza masculina humilhantes e ainda obrigava a gente a usar blusão James Dean no calor de Salvador, afetar ares entediados e besuntar o cabelo com as banhas e cremes fedentinosos que inventavam para nossos penteados serem iguais, por exemplo, ao do Farley Granger. Elas, as coroas do meu tempo, hoje ficam com vergonha e fingem que esqueceram, mas caíam até em sussurrinhos indecorosos, quando esse tal Farley Granger e seu famoso penteado apareciam na tela. Legiões de compatriotas foram assim ultrajados pelo imperialismo. 

Para vencer esse poderoso inimigo, mobilizaríamos as massas e faríamos a Revolução. Mas, como já assinalava o bom juízo dos antigos, ser revoltado é fácil, difícil é ser revoltoso. A maior parte dos revolucionários era mais para a revoltada e debatia temas palpitantes, tais como a existência de uma burguesia nacional ou a vigência de regimes feudalistas no Nordeste, e só dois ou três gatos-pingados eram revoltosos e tentavam ir além do debate, geralmente com resultados péssimos para a saúde. A Revolução se foi, o negócio passou a ser as grandiosas Reformas de Base, que ninguém nunca soube direito de que se trataria e que agora todo mundo esqueceu de vez. 

Poupando-nos um retrospecto que não traria nenhuma novidade, o que temos é o que está aí. Todo mundo sabe como é ruim a situação do Brasil em carga tributária, em saúde, em educação, em transportes, em segurança pública, em trânsito urbano, em aplicação da justiça, em saneamento básico e, enfim, em praticamente todas as categorias concebíveis. Não lembro um só dia, nos anos recentes, em que uma grande tramoia, um desvio de dinheiro espetacular ou um roubo sem precedentes não seja matéria dos noticiários. Ninguém mais presta atenção direito, confunde tudo e o resultado final é uma espécie de monturo na cabeça da gente, que se amontoa espantosamente a cada dia. 

Os partidos políticos não são nada, nem em matéria de crenças e princípios, nem de qualquer outra coisa; não há ideais, há interesses. Não são partidos, são bandos ou, sem esticar demais a metáfora, quadrilhas rapineiras, que não pensam nos interesses do País, mas na aquisição de poder e influência geradora de riqueza. Os homens públicos, dentro ou fora dos parlamentos, em todos os níveis, parecem não conseguir escapar à malha corruptora que abafa o Estado em todas as esferas. E, de qualquer forma, injustiça ou não, a palavra “político” é hoje quase sinônima de ladrão. 

Mesmo quando não há ilegalidade, há indecência, há recursos a eufemismos cínicos e trapaças engenhosamente maquiladas de manobras legítimas e o fato é que o Estado, sustentado pelos impostos mais altos do mundo, continua a ser sugado de todas as maneiras, fraudado de todas as formas. Roubam parlamentares, roubam administradores, roubam funcionários, roubam todos. Para lembrar somente um exemplo mais recente, a verba liberada para a reconstrução de Teresópolis, não deve ter sido suficiente, já que nada se fez. Aliás, li que instalaram algumas sirenes. Mas deviam ser de qualidade inferior, porque várias falharam. Isso é o que dá, quando se libera verba sem prever a taxa de corrupção aplicável por praxe. 

É pensando nessas coisas que vem uma saudadezinha do imperialismo, era bem melhor, pensem aí. Agora a gente matuta, matuta, e chega à desagradável conclusão de que sempre quisemos botar a culpa do nosso atraso, do subdesenvolvimento ou que outros males nossos citemos, em alguém diferente de nós. 

A mania vem diminuindo um pouco, mas até hoje é comum um cidadão indignado discursar no boteco, espinafrando o brasileiro – o brasileiro não obedece à lei, o brasileiro é malandro, o brasileiro não tem educação, o brasileiro isso e aquilo. Brasileiro, quem? Ele não, e os outros sim? 

Parece sempre necessário lembrar que somos todos brasileiros e envolvidos na vida brasileira. Há quase 200 anos, somos donos exclusivos disto aqui e nunca fizemos por onde honrar a imensa riqueza que herdamos, mas, ao contrário, instauramos desigualdades monstruosas, assaltamos a fazenda pública e fomentamos o atraso à custa do prejuízo geral e do ganho dos privilegiados. 

Somos nós os responsáveis pelo que está aí, nada disso se fez, ou se faz, por geração espontânea, fomos nós. 

Cabe repetir a verdade, já cediça, de que os corruptos não são marcianos, são também brasileiros como nós, aqui paridos e criados. Portanto, vamos e venhamos, pode ser chato, mas a evidência se impõe, não é possível fugir dela. Toda árvore boa produz frutos bons, e toda árvore má produz frutos maus. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, nem uma árvore má dar frutos bons. O autor destes dois últimos pensamentos foi até um pouco lembrado nesta Páscoa, embora bem menos que o coelho.

Publicado por:  Ternuma

Os animais chamados racionais

13 de abril de 2012

João Bosco Leal

Historicamente as maiores lutas do homem, até por instinto de sobrevivência, foram e são contra suas enfermidades, fragilidades e a consequente extinção da raça.

Com pesquisas sobre climas, intoxicações diversas ou ataques de animais, muito já foi descoberto sobre nossas fragilidades e com roupas, calçados, moradias e remédios, criamos proteções contra a maioria delas.

A evolução na área de medicamentos foi espetacular e possibilitou a criação de milhares de drogas capazes de curar doenças que no passado mataram milhões.

Porém, ao mesmo tempo em que luta pela vida, o homem promove disputas, lutas e guerras que também dizimam milhões e permite que outros milhões morram de fome ou sede, enquanto poucos usufruem de superficialidades até inimagináveis aos bilhões de habitantes do planeta.

Sem encontrar qualquer lógica em algumas atitudes, muitas vezes questiono algo como: o que leva uma pessoa a querer utilizar um veículo já bastante exclusivo e caro como um Porsche, mas que para ela foi especialmente construído com a carroceria toda banhada em ouro branco, como o de um príncipe árabe? Existiria alguma explicação para uma insanidade dessas enquanto seus próximos passam fome? Pessoas como esta gastam milhões simplesmente para ser vistas, admiradas, uma imbecilidade delas e dos que as admiram.

Por outro lado, gênios como Einstein, Thomaz Edison, Louis Braille, Santos Dumont, Da Vinci, Michelangelo, Van Gogh, Beethoven, Mozart, Shakespeare, Albert Sabin, Oswaldo Cruz, Steve Jobs e tantos outros, aproveitaram sua inteligência e especialidade nas mais diversas áreas para criar algo que beneficiasse toda a humanidade.

Existem questionamentos muito importantes ainda não respondidos, como uma prova científica que determine com exatidão quando o homem começou a raciocinar, mas seja quando for, desde então três perguntas continuam sem respostas claras e definitivas: O que somos? De onde viemos? Para onde vamos?

Se fôssemos realmente racionais, como explicar tanta corrupção no país, principalmente as envolvendo verbas destinadas à saúde pública como recentemente divulgadas? E a demora do julgamento dos envolvidos no que ficou conhecido como “Mensalão do PT”? E ninguém na cadeia? E nenhuma devolução das verbas roubadas?

Ou a existências de homens como Adolf Hitler, Josef Stálin, Mao Tsé-tung, Muanmar Kadafi, os irmãos Castro, Idi Amin Dada, Osama Bin Laden e tantos outros governantes ou terroristas, responsáveis pela morte de milhões?

Os corruptos, as pessoas como a do carro de ouro e muitos governantes dos mais diversos países estão longe de poderem ser chamados de animais racionais, como comumente somos definidos, pois como homem do campo, já presenciei milhares de comportamentos dos chamados animais irracionais que são muito mais dignos ou racionais, que os tomados por dezenas de membros do atual governo brasileiro ou de outros países.

Os cientistas e religiosos podem explicar mais detalhadamente de onde viemos, mas sei que ambos concordam em um ponto: tivemos a mesma origem dos animais chamados irracionais e não se justifica sermos chamados de racionais se o comportamento deles diante de sua comunidade e do meio ambiente é mais racional que o nosso.

Nosso destino, entretanto, parece estar muito claro. Tratando o meio ambiente como estamos, permitindo que milhões morram de fome, analfabetos ou sem tratamento médico decente, promovendo guerras e permitindo que criminosos governem em qualquer parte do mundo, caminhamos a passos largos para a autodestruição.

Os animais chamados racionais viveriam melhor espelhando-se nos irracionais.

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Novos velhos

11 de abril de 2012

Walcyr Carrasco*

Quando eu era criança, considerava-se velho um homem de 60 anos. Velho só, não. Velhíssimo. Lembro meus avós de cabelos brancos, gestos cautelosos. Tinham essa idade. Ou até menos. Hoje, surgiu uma geração de “novos velhos”. Não estou falando da baboseira de “melhor idade” e do lixo ideológico do politicamente correto, que tenta maquiar a realidade com palavras delicadas. Há alguns anos, um ator nessa faixa etária jamais seria galã de novela. Se restringiria ao papel de pai, tio, avô. Mas galã? Atualmente, o ator Antônio Fagundes, de 62, é disputado pelos autores. (Eu, que também escrevo novelas, sou testemunha disso.) No ano passado, em Insensato coração, fez par com a bela Camila Pitanga.

José Mayer, de 63, acaba de atuar em Fina estampa. Tony Ramos, de 64, será um dos protagonistas de Guerra dos sexos, ao lado de Irene Ravache, de 67. Natália do Vale, presença constante nas novelas, está com 58. Suzana Vieira tem 68. Todos protagonizam histórias de amor, são aplaudidos pelo público e lideram as audiências. Às vezes, como no caso da própria Suzana Vieira, revelam também a vida pessoal, sem medo de mostrar que podem amar e ser amados, com a mesma intensidade dos jovens.

Fiz 60 no fim do ano passado. Absolutamente aterrorizado. “Vou me aposentar emocionalmente”, pensei. Aconteceu o contrário. Entrei numa fase que lembra minha adolescência. Tenho vontade de fazer mil coisas. Comecei a malhar todo dia. Quero voltar a pintar. Voltei a ler os clássicos e cozinho sempre. Vejo as novelas de meus colegas e todas as séries americanas de TV que consigo. Mais surpreendente, as pessoas não se comportam comigo como se eu fosse um idoso. Boa parte dos meus amigos tem metade da minha idade.

Os que permanecem do passado são tão animados quanto eu. Meu colega de colegial Eduardo, divorciado e com um filho adulto, apaixonou-se novamente. Ela? Tem a idade dele e continua tão linda como na nossa adolescência. Sim, esta é uma outra característica dos novos velhos: reencontram-se depois de décadas e iniciam relacionamentos. Já vi vários amigos do passado que nunca namoraram antes se apaixonar agora.

Conversei com o professor de educação física especializado em saúde e envelhecimento Igor Yole, da Academia Bioritmo, em São Paulo. Ele conta que o número de alunos acima de 60 anos aumenta ano a ano. “Nessa faixa etária as pessoas procuram saúde. Preferem esteira e bicicletas. Também querem socializar”, diz ele. “E o fato de conseguirem malhar faz com que se sintam mais capazes em tudo: sexo, relacionamentos, viagens!”

A medicina também ajuda. Digo por mim mesmo. Há anos faço um tratamento ortomolecular com o doutor Eduardo Gomes de Azevedo, que exerce uma “pré-geriatria”. Ou seja, antecipa tratamentos para curar os males da velhice. Tomo muitas pílulas por dia. Tantas que para engoli-las poderia usar uma pá. Nas refeições, costumo avisar a quem não me conhece:

– Desculpe, mas não sou um paciente terminal. Isso é para ficar bem.

Fiz 60 anos e pensei que me aposentaria emocionalmente. Aconteceu o contrário: uma nova adolescência.

Em geral, me olham de um jeito muito desconfiado. Lecitina de soja, clorofila, cápsulas de ômega 3, mando ver. Há produtos variados, contra o envelhecimento. O mais venerado de todos é o hormônio do crescimento (GH). Ele engana o corpo, que aumenta o metabolismo, cria massa muscular. Quando surgiu há alguns anos, não se conhecia a dose ideal. Fez crescer o nariz, as orelhas e a ponta dos dedos de alguns pioneiros no uso. É tomado em doses altas por quem quer um corpo tipo armário.

Muitos médicos o usam como reposição hormonal, em doses mínimas, diárias. Eu tomo. Há pessoas famosas que fazem o mesmo. Meus cabelos não deixaram de ser brancos por causa do GH. Isso aconteceu, mas devido à tintura que Mário Nunes, meu cabeleireiro, me aplica mensalmente. Sinto mais disposição, sem dúvida. Viagra e produtos do gênero também são importantes, mas não vou falar deles. É muito íntimo. Só vamos reconhecer que ajudam a superar alguns dos momentos mais traumatizantes da velhice.

Reconheço: para ser um “novo velho” é preciso vaidade. Mas não só. Também não são só os remédios. O segredo é encarar a vida de maneira positiva. Antes, chegar à terceira idade era sinônimo de aposentadoria. Avôs e avós descobriram os valores da velhice. Como os astros e estrelas nas novelas de TV, também podem se apaixonar, reinventar o cotidiano e entrar numa gloriosa etapa da existência.

Afinal, a vida está só começando.

Publicado por:  Época

Civilidade

11 de abril de 2012

Arthur Virgílio*

Quando FHC visitou Lula no hospital, houve um encontro que marcou o respeito à vida e a solidariedade que deve pairar acima de tudo.

Foi um belo gesto de Fernando Henrique visitar Lula para lhe desejar plena e rápida recuperação. São adversários que já foram aliados: o senador teve inúmeras ocasiões de apoiar o líder sindical inovador que surgia no ABC; este foi figura relevante na primeira campanha eleitoral, em 1978, do seu antecessor na Presidência da República.

A atitude de Fernando não reduz em nada as discordâncias que se acumularam entre ambos. Houve, isto sim, encontro que marcou o respeito à vida e a solidariedade que deve pairar acima de tudo.

Presenciei sessões da Assembleia Nacional portuguesa, para acompanhar o debate quinzenal entre o Primeiro Ministro Passos Coelho e os deputados, com ênfase para a participação dos oposicionistas do Partido Socialista. Diálogos duros que, em nenhum momento, deixam de ser elegantes. É amostra da beleza e da maturidade do sistema parlamentarista de governo.

A campanha eleitoral na França, igualmente, se desenrola em torno de propostas de enfrentamento à crise da Zona Euro, que tem nesse país, a um tempo, um dos seus sustentáculos e um dos pontos mais sensíveis dessa mesma crise. Nicolas Sarkozy e François Hollande disputam, ponto a ponto, a preferência dos cidadãos. A marca, claro, é o nível elevado em que se ferem as discordâncias.

Nos EUA, que se marcam por disputas combativas, percebemos os dois planos da eleição que se aproxima (as primárias do Partido Republicano e a competição entre Barack Obama e o nome que venha a ser ungido por esse partido) caracterizados pela apresentação de propostas que completem o soerguimento da economia, definam ou redefinam a política de defesa e mantenham ou alterem, no que possível seja, a política externa ora praticada.

Entristece-me constatar as chicanas do kirchnerismo, na Argentina, ou a truculência do chavismo, na Venezuela. É contraste evidente entre estágios políticos avançados e práticas da Idade da Pedra.

Aqui mesmo, o pré-candidato petista à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, vem protagonizando cenas entre bizarras e cruéis. Bizarro, por exemplo, é ter acusado o Prefeito Gilberto Kassab de ter colocado em prática determinada ideia “apenas” para lhe tirar uma bandeira e lhe dificultar a caminhada. Cruel é haver declarado que “tem muita gente que torce contra a recuperação do ex-Presidente Lula”.

Opinando assim transmite a impressão de que ele próprio seria capaz de se regozijar com a infelicidade pessoal de um adversário e de que “torce” pela saúde de seu patrono menos por razões humanas e mais para não perder valioso cabo eleitoral.

Nosso processo político, desgraçadamente, ainda permite fraudes, abuso do poder econômico, desrespeito às leis. Assim como ainda convive com primarismos tipo tirar proveito da doença de figuras públicas relevantes.

Que a atitude de Fernando Henrique encontre eco bem amplo e caminhe para se tornar condição sine qua para o exercício da vida pública. O Brasil, que padece de agudos problemas de distribuição de renda, segurança, saúde, educação, infraestrutura, inegavelmente, experimentou avanços econômicos significativos, nas últimas duas décadas.

É, portanto, injusto e desproporcional que certos agentes políticos, à falta de programas factíveis e inteligentes de governo, ainda tentem transformar a luta pelo poder em briga de vizinhos que acaba na delegacia.

*Arthur Virgílio é diplomata e foi líder do PSDB no Senado

Publicado por:  Brasil 247

Desmandos dominam o País

7 de abril de 2012

Paulo Saab*

Os desmandos e falcatruas da era Lula/PT no poder começaram a vir a publico e se tornaram fato relevante na vida nacional a partir da divulgação publica do mesmo Carlinhos Cachoeira de agora filmado com a mão na botija entregando dinheiro vivo ao então assessor do então Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu. É, reitere-se, o mesmo Carlinhos Cachoeira envolvido agora até o pescoço com um senador da República, Demóstenes Torres, do DEM de Goiás (tido como paladino da moralidade pública no Congresso) e alguns deputados, inclusive um artista de televisão do Partido Comunista, Stepan Nercessian, mostrando que corrupção não tem ideologia.

Se desde 2002, há dez anos, a fita original mostrou a ação de bastidores de um cidadão notoriamente criminoso junto ao poder publico, a pergunta é como e porque ainda não o haviam tirado de circulação. 

Nada muda? Só piora? Defendo, há anos, não o incitamento à violência, mas a mobilização popular, à base de vaias públicas, contra os corruptos. Por que podem os maus políticos, governantes desonestos, maus empresários, criminosos, agirem sem punição? Enquanto isso, o noticiário mostra diariamente brasileiros morrendo ou mofando em corredores imundos de hospitais onde também campeia a corrupção. 

E os “manifestantes” que se organizam para protestar, com viés partidário/ideológico, contra moinhos de vento do passado? Por que não vão às ruas protestar – pacificamente –, contra o estado de calamidade que o conluio de governantes e políticos corruptos com o crime criou na saúde pública, nos transportes e na educação no Brasil? 

Enquanto a massa não ocupar as ruas e exigir a volta da moralidade pública, nada vai melhorar. Diante da ignorância e da bondade natural da população, os maus ocuparam os espaços e transformaram a gestão pública num câncer que corroi as entranhas do País. Neste pântano de infrações, de “malfeitos” (quanta ingenuidade…) criminosos se tornaram os financiadores e manipuladores dos detentores de mandatos populares. Falei em ingenuidade por ainda não acreditar que a presidente da República faça parte desse conluio do mal. (Serei eu o ingênuo?). 

Os Miros, os Dirceus, os Demóstenes, os Valérios, os Cachoeiras da vida, para mencionar só alguns, existem aos milhares, incrustados nos escaninhos do poder público brasileiro. São ervas daninhas que se esparramaram e detêm o controle, com governantes e representantes do Estado trabalhando contra o Brasil e a favor de seus interesses escusos. 

Para reverter isso, só há duas chances. A primeira seriam investimentos maciços em educação para elevar o discernimento da população. A segunda é que aqueles que pensam consigam levar às ruas a massa para protestar e exigir a punição dos criminosos travestidos de políticos ou a eles associados. Ou eles vencerão, dominarão Estado, a sociedade, e nos tornaremos vassalos de novos senhores feudais do século 21. O que chegará primeiro, só o tempo dirá.

Tão rico e tão pobre Brasil. 

*Paulo Saab é jornalista e escritor

Publicado por:  Diário do Comércio

Parceria e investimentos

4 de abril de 2012

Marcos Cintra*

A carência de recursos não se limita apenas às necessidades infraestruturais; a deterioração dos serviços públicos, sobretudo nas áreas de educação, saúde e segurança, atinge níveis alarmantes.

A combinação entre o endividamento público, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e as metas de superávits primários, associadas às despesas legais vinculadas à educação e saúde, gerou um quadro financeiro crítico para o poder público. A disponibilidade de recursos orçamentários para investimentos secou dramaticamente.

A retomada do crescimento da economia despertou para a necessidade de investimentos na expansão e recuperação da base produtiva do País. A carência e a deterioração das matrizes de energia e de transporte colocam em jogo a expansão econômica.

Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), a necessidade de recursos para investimentos em infraestrutura no País é estimada em R$ 800 bilhões em um período de cinco anos. São R$ 376 bilhões em petróleo e gás, R$ 141 bilhões em energia elétrica, R$ 120 bilhões em transporte e logística, R$ 98,5 bilhões em telecomunicações e R$ 67,5 bilhões em saneamento.

A carência de recursos não se limita apenas às necessidades infraestruturais. A deterioração dos serviços públicos, sobretudo nas áreas de educação, saúde e segurança, atinge níveis alarmantes, capazes de corroer de modo acelerado a sociedade organizada.

Em suma, o País vive um estágio caracterizado por uma enorme demanda por investimentos em infraestrutura e serviços públicos frente a orçamentos dramaticamente restritivos. Não há mais espaço para impor maior carga de impostos ao contribuinte e a margem para expansão do endividamento é pequena.

Portanto, a questão que se coloca é: como equacionar esse angustiante cenário? Como o País poderia eliminar os gargalos que impedem a economia de crescer e de que forma a crise social poderia ser minimizada?

Mais do que qualquer debate envolvendo aspectos ideológicos, o encaminhamento dessa questão passa pela emergência de um novo padrão de relacionamento entre os poderes público e privado. A saída é a implementação de parcerias entre os governos, em seus três níveis, e as empresas.

Ao setor privado as evidências apontam não apenas para a capacidade técnica, administrativa e gerencial para sua incorporação na produção de bens e serviços a cargo do Estado. Há capacidade produtiva ociosa em busca de realização e liquidez que poderiam ser canalizada para financiar investimentos sob responsabilidade dos governos.

Pelo lado do setor público, desenvolver formas cooperativas de atuação com a iniciativa privada é a saída para a realização dos investimentos necessários. Essa interação se apresenta com enorme potencial para a implementação de projetos voltados à qualificação de serviços prestados pelo Estado e para a provisão de equipamentos sociais.

A convergência de interesses legítimos dos setores governamental e privado se faz necessária para o Brasil implementar os investimentos necessários para qualificar os serviços públicos e expandir a infraestrutura. Vale a tese do economista Vilfredo Pareto, segundo a qual as transações entre dois agentes econômicos ocorrem quando ambos satisfazem seus interesses. Essa ideia precisa ser difundida e deve nortear as ações relacionadas ao desenvolvimento sócio-econômico no País.

*Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas

Publicado por:  Brasil 247

A ficha do Brasil

28 de março de 2012

Cristovam Buarque*

O Brasil comemora com razão uma regra que permite impedir candidaturas de pessoas com ficha suja no passado, mas não fazemos um exercício para saber se merecemos ficha limpa por nossa história.

Não merece ficha limpa um país que durante 124 anos após a Abolição, ainda tem no Congresso, a espera de votação, um texto que pune os que usam trabalho escravo; e que, em 123 anos de República, tem 12 milhões de adultos que não reconhecem a própria bandeira porque não sabem ler o texto escrito nela. Duas vezes mais pessoas privadas de saber ler do que no ano da Proclamação da República.

A primeira condição para dar ficha limpa a um país é atestar o bom tratamento destinado a suas crianças. Não merece ficha limpa um país que tolera crianças submetidas à exploração sexual; que trabalhem ao invés de estudar; e com um número de assassinatos de meninos e meninas maior do que em todos os demais países, incluindo àqueles em guerra. Não merece ficha limpa, país com crianças abandonadas, trabalho infantil e prostituição.

Não merece ficha limpa o país que nega ensino médio a dois terços de sua população e condena a outra parcela a uma educação sem condições de competição no mundo moderno.

Não é possível dar ficha limpa a uma sociedade que escolhe, desde o nascimento da pessoa, se ela vai ou não ter educação, conforme sua classe social e a renda dos pais; e que assegura mais ou menos anos de vida conforme o poder de compra dos serviços médicos.

Não é ficha limpa país que tem a 6ª economia mais rica, com R$ 4,14 trilhões e não consegue pagar um piso salarial de R$ 1.451 aos professores de suas crianças.

A ficha limpa de um país exige que ele cuide bem de seus recursos naturais para servir às gerações futuras, e não se pode dizer que o Brasil cumpriu ou está cumprindo esta condição. Vemos uma nação ficha suja por devastação de florestas, sujeira nas águas, usinas nucleares em solo precário, vastas áreas cobertas por lagos artificiais e o ar poluído. O Brasil não merece a ficha limpa ecológica.

Também temos a ficha suja pela desigualdade. Nossa ficha social é suja por causa da brutal desigualdade de renda, uma das piores do mundo, quando não a pior de todas.

Nossa ficha é suja também por causa da desigualdade nos serviços públicos: alguns brasileiros têm um sistema de saúde igual aos melhores do mundo, enquanto a maioria está submetida a um sistema igual aos piores do mundo.

Temos ficha suja na segurança, com cerca de 40 mil assassinatos por ano e mais de um milhão de pessoas mortas nos últimos 30 anos; e no trânsito, com mais de 50 mil pessoas mortas por ano no asfalto.

Somos também ficha suja nas condições urbanas descontroladas pelo lixo, pela poluição visual, degradação habitacional e trânsito estrangulado.

Não merecem fichas limpas cidades onde as pessoas perdem quase mil horas por ano, mais de mil dias de vida adulta por causa de engarrafamentos no trânsito.

Não teremos ficha limpa enquanto escondermos recantos de nossa história, por causa de acordos políticos ou por medo de enfrentar a verdade; e enquanto a Justiça não for eficiente e respeitada, independente da influência do dinheiro e das relações pessoais; nem enquanto houver dúvida se quem dá a ficha suja merece ter ficha limpa.

O país que por falta de educação das suas crianças e de investimentos em ciência e tecnologia perde competitividade internacional e mantém suas exportações baseadas em produtos primários, e que se não se transformar em produtor de bens derivados da inteligência e do conhecimento não terá ficha limpa no futuro.

Como vamos dar ficha limpa a uma sociedade que tenta corretamente exigir ficha limpa de seus candidatos, mas no dia a dia tolera a corrupção nas prioridades da política? Para um político receber ficha limpa, basta não ter roubado no passado, mesmo que continue com prioridades descomprometidas com o futuro do país.

A ficha limpa pode melhorar a ética dos políticos, mas não vai necessariamente mudar a ética nas políticas, fazê-la definidora de prioridades éticas. Não merece ficha limpa o país que tiver seus políticos com ficha limpa, não roubam para si, mas continuam mantendo privilégios, inclusive para si, e investindo o dinheiro público nas mesmas prioridades de políticas em benefício das classes privilegiadas no presente, ao invés de beneficiar todo o povo e as futuras gerações.

Devemos comemorar que o Brasil, finalmente, tem uma Lei da Ficha Suja para eliminar políticos corruptos, mas precisamos fazer o Brasil ser um país ficha limpa. 

*Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF

Publicado por:  Blog do Noblat – O Globo