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O conto do espanto

2 de maio de 2012

Dora KramerO Estado de S.Paulo

Quanto mais informações vão sendo reveladas a respeito dos serviços prestados por Demóstenes Torres às organizações Cachoeira de armações ilimitadas, mais esquisito parece o fato de que ele tenha durante tanto tempo podido atuar como o sujeito oculto na defesa dos interesses do contraventor Carlos Augusto Ramos sem despertar suspeitas.

Que o senador tenha conseguido enganar a plateia e parte considerável do elenco da República com o personagem que encarnava em público, compreende-se. Dificilmente alguém que age com tanto vigor e destemor é alvo de desconfiança.

Sempre existe o risco de ser confrontado por um adversário no meio de um discurso, levar um troco na base do bateu levou. Eleito senador pela primeira vez em 2002, notabilizou-se por bater. Nunca levou e, entretanto, vê-se agora como era vulnerável.

Os grampos da Operação Monte Carlo revelaram as conversas com o contraventor, mas suas atividades como praticamente um procurador do bicheiro eram exercidas com boa dose de desinibição.

Pelo divulgado até agora, movimentava-se para todo lado, falava com muita gente, pedia, solicitava, defendia interdição de depoimentos no Congresso e até um episódio em tese menor – o pedido de emprego no governo de Minas Gerais para uma prima de Cachoeira – não se coadunava com a atitude de um defensor intransigente dos pressupostos constitucionais de impessoalidade, probidade e transparência na administração pública.

A julgar pelo conteúdo das conversas telefônicas – e, note-se, não são conhecidas as do senador com personagens outros que não o contraventor – Demóstenes Torres fazia lobby por Cachoeira nos três Poderes, abria portas para negócios comerciais para além da Região Centro-Oeste, interferia na transferência de policiais presos, obtinha informações de bastidores na Polícia Federal e no Ministério Público, atuava aqui e ali como facilitador para a construtora Delta, circulava com desenvoltura entre deputados, senadores, governadores, magistrados.

Será possível que só ao amigo bicheiro revelasse seu lado eticamente permissivo? Apenas ao telefone com Cachoeira deixava-se desvendar? Nas abordagens em prol do contraventor não precisava “abrir” aos interlocutores a natureza dos pleitos pretendidos?

Fica cada vez mais inverossímil a possibilidade de que o senador tenha atuado nesse diapasão por tanto tempo sem que ninguém, entre as pessoas experimentadas com quem o senador convivia, tivesse notado algo de anormal ou de inadequado no comportamento dele.

Mais não seja pela discrepância entre o discurso e as ações. O mais provável, chega-se à conclusão por pura lógica, é que a surpresa manifestada na dimensão de unanimidade não seja de verdade tão unânime assim.

Pelo visto, boa parte dos que se mostraram surpresos depois da eclosão do escândalo considerava perfeitamente normal o uso privado que o senador dava a seu mandato e talvez até admirasse sua capacidade de mimetização.

Só uma hipótese não é crível: a de que o senador tenha enganado completamente a todos os ditos tão espantados.

Contenção. Noves fora o imprevisto absoluto, as versões de que Carlos Augusto Ramos poderia queimar caravelas na CPI guardam mais relação com prevenção de danos do que com chances reais de o bicheiro representar o papel de homem-bomba.

O advogado dele, Márcio Thomaz Bastos, não é exatamente um construtor de explosivos. Ao contrário: como ministro da Justiça do primeiro governo Lula e depois como conselheiro desarmou vários deles.

Cacoete. Publicamente a presidente Dilma Rousseff não fala no assunto, muito menos teria condições de fazer algo parecido. Privada e ideologicamente, no entanto, deixa muito claro que viu com bons olhos na nacionalização da petroleira espanhola YPF pela colega argentina Cristina Kirchner.

Publicado por:  Estadão

Os cegos, os surdos

2 de maio de 2012

Carlos Brickmann

Desde que estourou o escândalo do Mensalão, este colunista sabia da existência de um empresário zoológico conhecido como Carlinhos Cachoeira, que entre outras atividades se dedicava ao ramo da contravenção penal. Tantos anos depois, descobre-se que Carlinhos Cachoeira atuava em diversos outros ramos, alguns dos quais legítimos; que os jornalistas sabiam disso; e que, apesar deste conhecimento, foram todos surpreendidos quando a Polícia Federal mostrou o relacionamento do cavalheiro com políticos importantes, entre eles o mais feroz oposicionista defensor da moral e dos bons costumes, senador Demóstenes Torres.

Goiânia é uma cidade agradável, ajardinada, bonita, com cerca de 1 milhão de habitantes; jornalistas, políticos, empresários frequentam os mesmos lugares, e todos se conhecem. Há jornais e emissoras de rádio e TV de muito boa qualidade. Não é possível imaginar que ninguém soubesse do relacionamento tão próximo do senador Demóstenes Torres com Carlinhos Cachoeira; nem se admite que a estranha proximidade entre um promotor público, fiscal da lei, e um, na melhor das hipóteses, contraventor penal, não provocasse nenhuma estranheza. Jornalistas, pelas características da profissão, precisam transitar com desenvoltura pelos mais diversos setores da sociedade, inclusive os menos recomendáveis (afinal de contas, de onde sairão as informações sobre o baixo-mundo?). Promotores e procuradores, como também os magistrados, não: têm de ser imaculados, têm de parecer imaculados.

Em determinado momento, o senador Demóstenes Torres muda de aparência, perde algumas dezenas de quilos, passa a usar roupas mais bem talhadas. Seu casamento foi discreto, mas é muito improvável que ninguém soubesse que o amigo Carlinhos Cachoeira lhes havia dado fogão e geladeira importados, iguais aos existentes na Casa Branca, em Washington.

Cadê as notícias? Notícia só existe depois que alguma autoridade vaza as investigações? Sem que a informação seja distribuída por alguma fonte oficial os meios de comunicação não comunicam?

Empresários, jornalistas, políticos, todos se relacionam bem, todos se conhecem, todos comem a boa feijoada do restaurante Pequi. E ninguém sabia de nada? O senador não sabia nem que o amigo era contraventor? Então, tá.

Afoitos amigos

Como não disse a comediante Kate Lyra, a imprensa brasileira é tão boazinha! Pois, tão logo surgiram as primeiras notícias sobre o envolvimento do senador Demóstenes Torres com o contraventor Carlinhos Cachoeira, 44 senadores de todos os partidos se apressaram em hipotecar-lhe solidariedade. A notícia foi publicada na ocasião; depois, foi convenientemente esquecida pelos meios de comunicação. Os senadores foram afoitos – mas cá entre nós, num país em que se sabe nome e sobrenome de amantes de pessoas importantes, em que se acompanha o crescimento dos filhos resultantes desses relacionamentos, em que se sabe o país em que vivem e as escolas que cursam, alguém acredita que ninguém soubesse do relacionamento Demóstenes – Cachoeira, ou desconhecesse a origem do império econômico montado pelo contraventor?

Enfim, para que os fatos sejam sempre lembrados (e, homenageando a cultura jurídica do senador Demóstenes Torres, a frase vai em latim: ad perpetuam rei memoriam), segue-se a lista de nomes de Suas Excelências que se solidarizaram com ele antes de saber direito do que é que se tratava, e que preferiram fugir à análise das acusações pelo caminho fácil da solidariedade corporativa:

Eduardo Suplicy (PT-SP); Luiz Henrique (PMDB-SC); Ana Amélia (PP-RS); Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE); Pedro Simon (PMDB-RS); Antonio Carlos Valadares (PSB-SE); Eduardo Braga (PMDB-AM); Lobão Filho (PMDB-MA); Randolfe Rodrigues (PSOL-AP); Vital do Rêgo (PMDB-PB); Álvaro Dias (PSDB-PR);Waldemir Moka (PMDB-MS); Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP); Cristovam Buarque (PDT-DF); Alfredo Nascimento (PR-AM); Romero Jucá (PMDB-RR); Cyro Miranda (PSDB-GO); Lúcia Vânia (PSDB-GO); Jayme Campos (DEM-MT); Blairo Maggi (PR-MT); Pedro Taques (PDT-MT); Inácio Arruda (PCdoB-CE); Vicentinho Alves (PR-TO); Aécio Neves (PSDB-MG); Roberto Requião (PMDB-PR); Mário Couto (PSDB-PA); Eunício Oliveira (PMDB-CE); Rodrigo Rollemberg (PSB-DF); Cássio Cunha Lima (PSDB-PB); João Ribeiro (PR-TO); Benedito de Lira (PP-AL); Casildo Maldaner (PMDB-SC); Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR); Flexa Ribeiro (PSDB-PA); Francisco Dornelles (PP-RJ); Paulo Paim (PT-RS; Jorge Viana (PT-AC); Marta Suplicy (PT-SP); Kátia Abreu (PSD-TO); Ricardo Ferraço (PMDB-ES); Armando Monteiro (PTB-PE); Antonio Russo (PR-MS); José Agripino (DEM-RN); e Ivo Cassol (PP-RO).

Publicado por: Observatório da Imprensa

Às favas todos os escrúpulos!

29 de abril de 2012

Ernesto Marques

O que o Ministério Público e a Polícia Federal só podem fazer com autorização da Justiça, Carlinhos Cachoeira fazia despudoradamente, e Veja disso se serviu em banquete.

A história registrou a célebre frase do então ministro do trabalho da ditadura, Jarbas Passarinho, no nascimento do AI-5: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.” Com a mesma licença reivindicada pela revista Veja e pelos colegas jornalistas que assinam o texto relacionado à capa, qualquer um pode se sentir à vontade para escrever, por exemplo, que a frase de Passarinho fora lembrada entre gargalhadas nas conversas dos editores, no fechamento da edição que está nas bancas. Então, às favas todos os escrúpulos de consciência? Isso pode ser qualquer coisa, menos jornalismo.

Fundamental que a ordem estabelecida garanta a qualquer pessoa a liberdade de pensar, se expressar e se manifestar sem restrições. Mas no que se refere à liberdade de imprensa, em respeito à memória de colegas como Vladimir Herzog, cabe aos jornalistas um zelo especial por um princípio basilar de qualquer democracia que se respeite. O êxito coletivo dos jornalistas no cumprimento de seu papel social depende do uso equilibrado da liberdade de imprensa. Talvez possamos dispensar códigos escritos, mas é fundamental termos alguma clareza sobre padrões de conduta. Os excessos eventualmente cometidos, em última análise se convertem em atentados contra a liberdade de imprensa.

A referência à fatídica reunião que institucionalizou a censura e a repressão política não é mera provocação. Nem toda agressão à imprensa livre vem de governos ou de qualquer agente externo ao meio da comunicação social. Nesse caso o golpe vem de uma das maiores redações do país. Preceitos constitucionais estavam a ser violados pela ação de arapongas contratados por um sujeito acusado de comandar atividades ilegais, e o resultado dessas violações abasteceu páginas e mais páginas da revista. O que o Ministério Público e a Polícia Federal só podem fazer com autorização da Justiça, Carlinhos Cachoeira fazia despudoradamente, e Veja disso se serviu em banquete.

Razoável que a revista do Dr. Roberto Civita defenda seus métodos nada ortodoxos – diria murdochianos – de obter informações. Risível que tente fazer isso e, ao mesmo tempo, negar ao país a verdade inteira sobre a dimensão de um grande e tentacular esquema de corrupção. Veja tenta convencer o Brasil de que é nada mais que uma manobra diversionista do governo, subestimando a inteligência do mais anti-petista de seus leitores.

Defendo até a morte o direito de a revista do Dr. Roberto Civita dizer o que quiser e bem entender, mas tratar “aquilo” como reportagem ofende a profissão. Liberdade de imprensa não é uma panaceia a justificar qualquer coisa.

Publicado por:  Brasil 247

Turbulências

26 de abril de 2012

Merval Pereira

Foi dada a partida para a CPI do Submundo, uma nova versão da CPI do Fim do Mundo, e o bicheiro Carlinhos Cachoeira passa de coadjuvante a protagonista de mais este espetáculo de política genuinamente brasileiro.

A indicação de deputado petista Odair Cunha para a relatoria da CPI mostra que o Palácio do Planalto, e não Lula, está no comando das ações, pelo menos inicialmente.

O ex-presidente negociou nos bastidores a indicação do ex-líder petista Candido Vacarezza, que foi afastado das funções pela presidente Dilma e novamente vetado agora. Representante petista na CPI, Vacarezza é, portanto, um pote até aqui de mágoa com o Palácio do Planalto e seguirá a orientação de Lula.

Pela vontade da presidente Dilma, a CPI não existiria, mas já que existe, a intenção é restringi-la, idealmente apanhando apenas os partidos da oposição.

Mas é difícil controlar uma CPI, mesmo tendo uma maioria teórica bastante folgada. Especialmente esta, que é completamente diferente das que se conhece até hoje.

Nunca dantes neste país uma CPI foi estimulada pelos governistas e, incongruência total, começa com todo o trabalho já concluído.

Normalmente as CPIs fazem as investigações e encaminham seu relatório para o Ministério Público e Polícia Federal para que os processos sejam abertos.

Desta vez, o Ministério Público e a Polícia Federal, através das Operações Vegas e Monte Carlo, já fizeram todo o trabalho investigativo, e já existe um resultado desse trabalho, com as acusações contra cada um dos investigados.

A CPI vai apenas tornar público oficialmente o que era privado, embora muitas das informações tenham vazado.

Por isso já existe um movimento suprapartidário entre parlamentares indicados para a CPI no sentido de aprofundar as investigações já existentes, ampliando, e não restringindo, o foco da sua atuação.

Este é um primeiro conflito de muitos que devem ocorrer durante essa CPI. Governistas e blogueiros chapa-branca já estão preparando o ambiente para tentar evitar uma investigação sobre a empreiteira Delta, alegando que ela não faz parte do foco da CPI.

Ao contrário, a minoria oposicionista e os “independentes” estão justamente querendo investigar a fundo a Delta, como parte de um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro e financiamento de campanhas eleitorais com dinheiro do jogo, tentando mostrar as conexões entre o bicheiro Cachoeira e a Delta, a tal ponto interligados, como mostram as conversas telefônicas gravadas com autorização judicial, que alguns consideram provável que o próprio Carlinhos Cachoeira seja sócio oculto da Delta, ou até mesmo que o empresário Fernando Cavendish não passe de um teste de ferro do bicheiro.

Seja qual for a disposição da maioria governista, nada garante que “sua excelência os fatos”, como dizia Ulysses Guimarães, não se imponha aos interesses deste ou daquele grupo.

Foi assim nas CPIs anteriores. O bicheiro Carlinhos Cachoeira foi personagem, entre 2005 e 2006, de três CPIs: a dos Bingos, no Senado, também conhecida como do Fim do Mundo, e as dos Correios e do Mensalão.

A “CPI do Fim do Mundo” começou investigando o jogo eletrônico e entrou por temas tão diversos como os assassinatos dos prefeitos petistas de Campinas, Toninho do PT, e de Santo André, Celso Daniel e dólares vindos supostamente de Cuba para a campanha de Lula à Presidência.

Foi nela que surgiu o depoimento do caseiro Francenildo que confirmou que o então ministro da Fazenda Antonio Palocci frequentava uma mansão em Brasília usada por lobistas de Ribeirão Preto, seus antigos companheiros quando foi Prefeito.

A partir desse depoimento que aconteceu a quebra do sigilo bancário do caseiro na Caixa Econômica Federal, em busca do que parecia um suborno para que ele incriminasse o ministro da Fazenda, que resultou na saída de Palocci do governo.

A CPI dos Correios foi criada com o objetivo de investigar as denúncias de corrupção nas empresas estatais, e acabou se transformando na CPI do Mensalão.

O resultado foi a acusação a 40 pessoas envolvidas num esquema montado a partir da Casa Civil da Presidência da República para comprar apoios políticos ao governo.

Esses resultados justificam o clichê político que diz que uma CPI sabe-se como começa e não se sabe como acaba. Esta, que está começando pelo final, tem resultado mais imprevisível ainda, pois está sendo instalada contra a vontade de todos, e mesmo assim tornou-se realidade política inevitável.

O PT divide-se entre os que acham uma loucura colocar em risco a estabilidade política de um governo tão bem avaliado quanto o da Presidente Dilma, e os que, seguindo a liderança do ex-presidente Lula, vêm nela uma boa oportunidade para pegar alguns oposicionistas bem posicionados, como o governador de Goiás Marcone Perillo, e tentar atrapalhar o julgamento do mensalão, que deve acontecer ainda neste primeiro semestre.

Tudo indica que os que imaginaram colocar o mensalão na conta do bicheiro Cachoeira erraram a estratégia. Não apenas essa versão parece inverossímil, como se criou no país um ambiente de cobrança de punição dos corruptos, sejam eles os envolvidos nas tramas de Cachoeira, sejam os acusados pelo mensalão.

O julgamento do mensalão passou a ser exigido pela cidadania diante da ameaça de prescrição de penas. Essa, por sinal, é uma discussão que ainda se desenvolverá nos meios jurídicos.

Há quem considere que a maioria dos crimes prescreveu no ano passado, no caso da aplicação da pena mínima. Sendo assim, não faria diferença se o julgamento ocorresse no segundo semestre ou até mesmo no próximo ano.

Mas há interpretações segundo as quais o prazo para a prescrição é contado a partir do momento em que cessa a associação, o que teria acontecido apenas em 2005, quando o então deputado Roberto Jefferson denunciou a existência do mensalão. As prescrições dos crimes punidos pela pena mínima seria então em 2013.

Como se vê, viveremos nos próximos meses um ambiente político tenso, cheio de turbulências e revelações, como definiu na sua experiência política o presidente do Senado José Sarney.

Publicado por:  O Globo – Blogs

Operação Abafa já me abafou

26 de abril de 2012

Neil sem grampo Ferreira*

A Operação Abafa é para me prejudicar; querem me impedir de aparecer nas listas de grampos, não sei o motivo, não sou da base alugada tentando fugir da confusão. 

Cachoeira e Dadá não telefonam, não mandam e-mail e nem passam fax – eu que sou um homem fácil, ao alcance de todos os rolos , aceito até aquelas coisas obsoletas, como telegrama e dinheiro cash. 

Antiguidades como telegrama, dinheiro cash e talvez o telefone preto não deixam rabos presos. Não são grampeados pelos Federais e vazados para a imprensa. O que é vazado, é vazado dentro dos conformes do vazador. Quando me deparo com um vazamento, não sei para qual lado o vazamento está vazando, se o de lá ou o de cá. “Vaza a favor do lado que vazou”, você afirmaria, montado no seu “horse sense”. Engano. 

Cachoeira: muitos vazamentos e respingos para todo lado. – Renata Vilanova

Você nunca sabe se quem vazou quer que você pense que está vazando a favor de um lado, quando pode estar vazando a favor do outro. Você tem que saber o mal que se esconde nos corações humanos, se o Sombra sabe ou se quem sabe ali na batatolina é o Zé Dirceu. 

Por falar no Dirceu, desconfio que o Cachoeira é o Dirceu por outros meios, ou que ambos são a mesma face da mesma moeda. 

Um lado: O Cara tacou fogo nos rabos do seu partido e da base alugada para sair a CPI do Cachoeira, com a intenção de jogar fumaça no mensalão e sujar os desafetos Demóstenes e o governador Marcondes Perillo/PSDB. Outro lado: a CPI do Cachoeira fedeu porque, ainda nem constituida, respingaram da cachoeira telefonemas grampeados, trocados nas duas mãos de direção, ida e volta, entre o lullo-petismo e a base alugada, com o Dadá e o Chefe. 

O lulo-petismo, que exigia a CPI, passou a exigir sua melação, daí a Operação Abafa. “O Cara pisou feio na bola”. Você jura ? Eu não. 

O Cara é o Garrincha. Ameaça sair pela direita, todo mundo sabe que vai sair pela direita e para suprema surpresa geral, sai pela direita; o Garrincha e O Cara são os maiores direitistas do planeta. 

Celular pode ser grampeado e talvez por isso seja o mais impressionante sucesso de vendas, como nunca antes visto neçepaíz. Dizem que chegamos a absurdos 250 milhões, resultantes da privataria do FHC. 

Todo mundo fala no celular porque quer ser grampeado, bombar na imprensa e ganhar seus quinze segundos de glória. Todas as brasileiras e brasileiros com quem você cruza estão falando no celular. Andar sem falar no celular é como andar a pé em Los Angeles: você é suspeito de crime hediondo. Sair na Coluna de Vazamento do Cachoeira ou do Dadá dá mais prestígio do que sair na Coluna Social ou na de Economia. 

Eu uso o celular mas nunca fui grampeado; já passei para o Dadá todos os meus telefones – fixo, celulares, e-mails, e nada. Parece que não foram encaminhados ao Chefe, querem que eu seja um fracassado. 

Até o Zero Um, Agnelo Queiroz/PT, governador do Distrito Federal, já teve seu apelido grampeado. 

Eu só quero uma brechinha, brothers, não vou pedir nada como todo mundo faz; só quero ser grampeado, vazado e sair na imprensa, perto da empreiteira Delta – o boato é que já é a maior do PAC, além de ter florescente plantação de “laranjas”. 

Torço para o Dadá me aparecer com a solucionática para essa minha problemática; garanto 5% para ele, 25% para o Chefe, 20% para o partido, 50% pra mim e veja bem, cumpanhero, essa é a primeira vez que o Chefe é quem recebe e não quem paga. 5%, 25%, 20% e 50% do quê? Sei lá, cara; de qualquer coisa, é a tabela em vigor hoje, amanhã sobe. 

O Chefe é um democrata, fala com qualquer um, até com o Zero Um e o Demóstenes ele falou. 

Os jornais dizem (outro vazamento) que os grampos do Chefe revelam um movimento de 400 Milhões de Reais com a turma de deputados, senadores, governadores, assessores, compradores de influência, empreiteiras – e nada pra mim… 

Querem me condenar à vida honesta no “país dos mais de 80%”. Sabe-se que “mais de 80%” não são somente a parte da população que aprova O Cara; agora essa é a nova taxa da propina. 

PS: Perguntado quando “liberaria” o processo do Mensalão, o Ministro Lewandowski, do STF, respondeu: “Essa é a pergunta de 1 Milhão de Dólares”. Seria o preço do seu voto? E continuou Lewandowski a sua vidinha. 

EI CACHOEIRA AÍ, ME DÁ UM TELEFONEMA AÍ. 

* Neil Ferreira é publicitário

Publicado por:  Diário do Comércio

Controle remoto

23 de abril de 2012

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

No oficial, o governo nega intenção de interferir na CPI. Longe no Palácio do Planalto qualquer ideia longínqua que seja de influir em atividade exclusiva do Legislativo, dizem e continuarão a dizer ministros e auxiliares da presidente Dilma Rousseff que, se possível, gostaria de não dar uma palavra em público sobre o assunto.

No paralelo, o governo já tem definida a linha de atuação para tentar manter sob estreita vigilância os trabalhos da comissão mista de inquérito: restringir o objeto das investigações ao universo da Operação Monte Carlo e usar a maioria parlamentar para controlar requerimentos, depoimentos, quebras de sigilo, cruzamentos de dados, vazamento de informações e demais variantes desse tipo de evento.

A Monte Carlo é a operação na qual a Polícia Federal flagrou transações entre um bicheiro de primeira, empresários de segunda e políticos de quinta.

Não há possibilidade de o Planalto deixar as coisas correrem frouxas ao sabor dos acontecimentos no Congresso. Mas não há também a hipótese de o governo – muito menos a presidente – entrar na briga de peito e boca abertos como gostava de fazer Lula quando na Presidência.

O plano é dar as diretrizes por controle remoto, mantendo uma distância regulamentar da fogueira em que pode, ou não, se transformar a CPI. Para isso, serão usados os líderes partidários que para todos os efeitos tomarão as decisões de maneira independente.

Isso em tese, porque na prática as orientações serão dadas passo a passo. Aliás, já estão sendo transmitidas em relação à escolha dos integrantes da comissão, notadamente presidente e relator. O restante do roteiro será escrito de acordo com as circunstâncias em reuniões cuja motivação será sempre qualificada como “de rotina”.

Normalíssimo, por exemplo, os partidos aliados reunirem seus líderes no Palácio para discutir o andamento de votações de interesse do governo. A ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, mesmo já avisou que só tratará da “agenda normal”.

Considerando que em períodos de CPI de potencial explosivo não há outra pauta possível no Parlamento, a normalidade daqui em diante será tratar do assunto nas reuniões ditas institucionais.

A dificuldade será fazer isso em segredo. Há dois obstáculos concretos ao êxito do estratagema. Um, o traçado de digitais que por si se dão a conhecer e deixarão patente a interferência do Executivo no Legislativo. O outro, parafraseando Nelson Rodrigues, o “Imponderável de Almeida”.

No caso representado pelo grau de tolerância da sociedade para com faxinas de fachada.

Aos fatos. Autor da denúncia do mensalão, o ex-procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza envia mensagem acerca do artigo Denúncia revisitada e aproveita para comentar a tentativa de se qualificar a peça apresentada em 2006 como produto de uma fantasia conspiratória.

“Confesso meu desconforto quando leio que algumas pessoas querem que a sociedade considere como ‘farsa’ os fatos denominados pela imprensa como ‘mensalão’ e que foram objeto de denúncia já recebida pelo Supremo Tribunal Federal.

“A coluna de modo direto recomenda àqueles que manifestam tal propósito que façam a leitura da denúncia então oferecida. Eu acrescentaria que também apreciem as provas em que se apoia cada uma das imputações.

“O texto, além de conter a referida recomendação, tem o condão de revelar que a suposta ‘farsa’ é na verdade um acontecimento real, cuja existência histórica não pode ser apagada, de modo que não se trata de uma criação da imprensa ou do Ministério Público.

“Lembro que a denúncia foi apresentada antes da aprovação do relatório final da CPMI dos Correios, circunstância que a torna despida de qualquer influência de considerações ditadas por interesses político-partidários que, além de atingir pessoas de outro espectro partidário, jamais pautaram minha atuação profissional.”

Publicado por:  Estadão

CPI do carro vazio, trancado, ladeira abaixo

21 de abril de 2012

Rudolfo Lago*

“Diante da amplitude da rede montada por Cachoeira, é tarefa impossível querer selecionar quem a CPI irá atingir”

Imagine um carro parado. Trancado. Desengrenado. Com o freio de mão solto. Estacionado no alto de uma longa e íngreme ladeira. Então, um grupo se junta e resolve empurrar o carro ladeira abaixo, acreditando piamente na avaliação de um deles, de que consegue controlar a direção do carro durante a descida. Quando o carro começa a ganhar velocidade, o grupo constata que, ao contrário do que imaginava, querer guiar o carro naquelas circunstâncias é impossível. Então, inicia um esforço para tentar pará-lo. O que se revela, também, uma tarefa igualmente impossível. Na noite de terça-feira (17), os deputados e senadores colocaram esse carro em movimento no Congresso Nacional. Ele atende pelo nome de CPI do Cachoeira. Começa agora a descer desembestado pela ladeira. Onde vai parar, só Deus sabe.

Desde o segundo momento do caso Cachoeira – quando começaram a surgir informações além das relações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o bicheiro – começou a ficar claro que não havia ali algo que pudesse vir a ser limitado para atingir apenas a um dos lados na disputa política. Demolida a imagem de Demóstenes, dando um tiro de morte em alguém que era uma das principais apostas da oposição para o futuro, rápido chamuscou-se a imagem do governador de Goiás, Marconi Perillo, que começou a ter de dar explicações. Ainda estávamos só no campo das oposições. Mas eis que surgem as denúncias que envolvem o governo petista de Agnelo Queiroz no Distrito Federal. Entre os deputados, há oposicionistas como Carlos Alberto Lereia (PSDB-GO) e Stepan Nercessian (PPS-RJ), mas há deputados da base governista como Jovair Arantes (PTB-GO) e Rubens Otoni (PT-GO). Há até um vereador do Psol citado: Elias Vaz, de Goiânia.

Nos corredores do Congresso, o caminho dos vazamentos de informações das Operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, que detalham a rede política montada por Cachoeira, tem sido tema das principais conversas. A primeira coisa que chama a atenção de muitos foi o fato de o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, ter ficado desde 2009 com as informações das investigações sem oferecer denúncia contra Demóstenes. Aí, os vazamentos surgem, inicialmente apenas com as informações sobre Demóstenes.

Então, surgidos os dados contra Demóstenes, Gurgel oferece a denúncia contra ele, aceita pelo Supremo Tribunal Federal. Os advogados do senador goiano passam, então, a ter acesso ao inquérito. E é na sequência disso que começam a surgir as denúncias contra outros políticos envolvidos. Terá havido um esforço inicial de vazamento seletivo? Terá sido o próprio Demóstenes quem resolveu jogar o restante da sujeira no ventilador?

O fato é que querer selecionar aqueles que vai se atingir na investigação da CPI é tarefa quase tão impossível quanto controlar um carro desgovernado pelo lado de fora. Se a rede de Cachoeira era bem mais ampla que apenas Demóstenes, por que imaginar que ele aceitaria cair sozinho? Se vai além dos políticos de oposição, por que imaginar que os políticos governistas não acabariam aparecendo? Se alcança os demais poderes além do Legislativo, pode apostar que quem não tiver compromisso com eles, assim que obtiver a informação, vai repassá-la adiante.

Se era intenção do PT, diante do depoimento gravado por seu presidente, Rui Falcão, fazer a CPI do Cachoeira para denunciar que o mensalão era uma farsa, o tiro pode sair totalmente pela culatra. Essa tese parte do fato de os arapongas de Cachoeira estarem por trás do vídeo, publicado pela revista Veja em 2003, que mostrava o ex-diretor dos Correios, Maurício Marinho, pedindo propina. A denúncia foi o estopim do mensalão: depois dela é que Roberto Jefferson procura a jornalista Renata Lo Prette, da Folha de S. Paulo, e denuncia a existência do esquema.

Em primeiro lugar, o caso da propina de Maurício Marinho não estava diretamente ligado ao esquema que Jefferson batizou de mensalão. O que aconteceu ali é que Jefferson na época identificou José Dirceu como sendo o autor da denúncia contra Marinho, que atingia o PTB e, consequentemente, a ele, e interpretou que aquilo seria parte de um estratagema para isolá-lo. Aí, chutou o balde com a história do mensalão.

É verdade que o que se verificou mais tarde não foi exatamente o que Jefferson disse que havia. Nunca se comprovou a existência de um pagamento de mesada aos partidos aliados, como o termo mensalão fazia imaginar. Mas se verificou, sim, a existência de um fundo de recursos, a partir dos empréstimos do publicitário Marcos Valério ao PT, que amparava partidos e políticos aliados. Os nomes de quem se valeu do tal fundo estão no inquérito que tramita no STF. O próprio Marcos Valério detalhou-os ao Ministério Público. Uma CPI, que teve como presidente um senador do PT, Delcício Amaral (MS), foi atrás do que houve. O próprio presidente Lula, em determinado momento, diante do que se constatou, convocou uma reunião ministerial, pediu desculpas à população e disse que o PT precisava pedir desculpas também. “Eu me sinto traído”, disse Lula, nessa reunião, no dia 12 de agosto de 2005. Então, imaginar que os experimentados 11 senhores e senhoras que compõem o STF vão acreditar que as mais de mil páginas do inquérito do mensalão são uma farsa montada por Carlinhos Cachoeira parece uma aposta um bocado arriscada na falta de memória.

Imaginar também que um novo escândalo poderia ofuscar o julgamento do mensalão que acontecerá daqui até o final do ano também parece outra aposta um bocado arriscada. Se Cachoeira gravou Maurício Marinho e isso fez detonar o mensalão, foi também Cachoeira quem gravou Valdomiro Diniz, o homem que trabalhou com José Dirceu na Casa Civil, e aparece nesse vídeo, o primeiro escândalo da era Lula, pedindo propina ao bicheiro. E há ainda as denúncias contra Agnelo, contra a construtora Delta, que tem diversos contratos de obras do PAC. Tudo isso, ao contrário de ofuscar, poderá é agravar o ambiente político no momento do julgamento do mensalão.

Deve, então, a oposição soltar foguetes e fazer festa? Seria algo igualmente insano e arriscado. Até o mensalão, ao final da CPI dos Correios, provocou danos irreparáveis à oposição. Descobriu-se que o embrião do esquema montado por Marcos Valério para o PT ele tinha feito em Minas Gerais para os tucanos. O hoje deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG) nunca mais foi o mesmo depois das denúncias. O ex-senador Roberto Brant (PSDB-MG), depois do que surgiu, deixou a política.

No caso Cachoeira, já está aí Demóstenes caminhando pelo Congresso como se fosse a versão zumbi de si mesmo. Marconi calado em Goiás. Possíveis tentáculos se aproximando de outros estados, como Rio de Janeiro e Tocantins. Enfim, empurraram o carro. Pará-lo já é impossível. Ele ganha velocidade. Veremos onde vai parar.

*Rudolfo Lago é o editor-executivo do Congresso em Foco. Formado em Jornalismo pela Universidade de Brasília em 1986, atua como jornalista especializado em política desde 1987. Com passagens pelos principais jornais e revistas do país, foi editor de Política do jornal Correio Braziliense, editor-assistente da revista Veja e editor especial da revista IstoÉ, entre outras funções. Vencedor de quatro prêmios de jornalismo, incluindo o Prêmio Esso, em 2000, com equipe do Correio Braziliense, pela série de reportagens que resultou na cassação do senador Luiz Estevão.

Publicado por:  Congresso em Foco

Pode sobrar para o governo ou para a oposição

15 de abril de 2012

Bruno Lima Rocha*

A Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, criou cachoeiras de oportunidades políticas, mudando drasticamente a conjuntura.

Impressiona a capacidade transformadora de um fato midiático à altura da difusão pública das conversas entre o senador goiano Demóstenes Torres (ex-DEM, agora sem partido) com seu conterrâneo – e suposto amigo – Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Se fizermos uma breve digressão antes que os arquivos de áudio “vazassem” da elite policial brasileira para as telas da emissora líder de TV aberta, vamos ver que o governo de Dilma estava indo contra a parede. Era quase um consenso entre analistas (onde este que aqui escreve se inclui) a caracterização de uma possível paralisia decisória em função dos embates do Executivo para com sua base “aliada”.

Em poucos dias, a emergência dos fatos evidenciados coloca em segundo plano a estrutura do presidencialismo de coalizão.

As oportunidades ocorrem quando os agentes coletivos – no caso, legendas e lideranças – são obrigados a posicionarem-se diante da “novidade”.

Na arena do Jogo Real, importam menos os fatos conhecidos do que aqueles tornados públicos.

Quando o acusador de estilo lacerdista ganha holofotes negativos, tanto seu partido, como os aliados e adversários se veem na urgência de tomarem posição. Os oligarcas e as direitas – dentro e fora do governo – poderiam apostar no esquecimento, na operação abafa de sempre, mas se viram ultrapassados pela contundência midiática e a chiadeira dos opositores de Demóstenes.

Agora, com a abertura de processo de quebra de decoro no Conselho de Ética do Senado, e da CPMI (será instalada em ambas as casas) tendo como alvo as relações de lobby informal dos tribunos goianos e o empresário de jogos ilegais, a cancha literalmente se abre.

As peças se movem no Congresso e alguns movimentos da oposição de direita são óbvios. De imediato é buscar o “efeito teflon”, descolando-se dos alvos do julgamento político, que pode não se interromper apenas em Demóstenes.

Já os “aliados” de Dilma – incluindo o partido do governo – também terão momentos tensos, pois o objeto da CPI pode transbordar o alvo primário, trazendo memórias nada agradáveis do ano de 2004, assim como relações atuais muito “complicadas”.

Quem fatura alto mesmo é a oposição de esquerda, estando o PSOL como paladino da legalidade republicana. O racha do PT pode abrir uma trincheira em cada tribuna, bater dentro e fora do Planalto, ganhando uma visibilidade interessante em ano eleitoral.

 *Bruno Lima Rocha é cientista político – www.estrategiaeanalise.com.br  /  blimarocha@gmail.com

Publicado por:  Blog do Noblat - O Globo

Gilmar avalia processo estratégico para Cachoeira

10 de abril de 2012

Marco Damiani* 

Exclusivo: ação chegou ao gabinete do ministro Gilmar Mendes, do STF, no mesmo dia em que o contraventor foi preso; magistrado deve se pronunciar sobre recurso contra legalização dos caça-níqueis em Goiás; réus são a Gerplan, de Cachoeira, e o Estado de Goiás, no qual governador Marconi Perillo decretou o resgate da videoloteria à legalidade.

O encontro em Berlim entre o senador Demóstenes Torres (GO) e o ex-presidente e atual ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, no final do ano passado – e o fato de uma enteada do ministro, Ketlin Feitosa Ramos, ter ocupado cargo de livre nomeação no gabinete do senador, entre setembro de 2011 e 2 de abril deste ano, quando foi exonerada –, têm, queira-se ou não, um felpudo pano de fundo jurídico. Está sob a responsabilidade de Mendes, no STF, um processo de maior interesse de Demóstenes e, especialmente, do contraventor Carlinhos Cachoeira, preso em Mossoró, pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, e do govenador de Goiás, Marconi Perillo.

É a Ação Cível Originária 767 (clique para acessá-la  – é só digitar ACO 767 na pesquisa), iniciada no Estado. Tem como réus a empresa Gerplan Gerenciamento e Planejamento Ltda, que pertence a Cachoeira, e o Estado de Goiás, no qual o governador Perillo assinou decreto que, na prática, resgatou da ilegalidade as videoloteiras (máquinas caça-níqueis). Os autores são o Ministério Público de Goiás e o Procurador-Geral de Justiça do Estado de Goiás. No cabeçalho das atuais quase mil páginas está definido seu tipo: “Assunto: Direito Administrativo e Outros/Matéria de Direito Público/Atos Administrativos/Licenças/Jogos de Bingo e/ou caça-níqueis”. Trata diretamente da confirmação ou derrubada do decreto estadual de Perillo sobre o retorno à legalidade, no Estado, do negócio de exploração comercial de caça-níqueis.

O controle do jogo ilegal em Goiás é de Carlinhos Cachoeira. A decisão final sobre esse processo tende a gerar repercussão em todo o País, abrindo uma janela, em caso de ser favorável à Gerplan e a Goiás, para a volta dos bingos e das maquininhas caça-níqueis em outras unidades da Federação.

O processo chegou à mesa de Mendes, para um despacho que pode ser decisivo, no dia 29 de fevereiro, depois de uma longa e totalmente documentada tramitação no STF (confira aqui).

O dia 29 de fevereiro de 2012 também foi a data em que Cachoeira foi preso. Até a quinta-feira 5, o magistrado ainda não havia dado a sua decisão. Depois de dois anos de investigação, a data da prisão de Cachoeira pela PF coincidiu com o avanço da papelada no Supremo. Como se trata de uma decisão estratégica aos interesses do contraventor, de complexa reversão, caso venha a ser conferida a seu favor, a igualdade de datas pode ter sido bem mais que uma ironia do destino.

O processo sob o juízo de Mendes tem origem em Goiás. Um decreto do governado Perillo resgatou, na prática, a exploração da chamada videoloteria (as máquinas caça-níqueis) para a legalidade. O MP de Goiás e o Procurador-geral de Justiça do Estado entraram com um pedido de liminar para suspender a aplicação do decreto. A peça assinada por Perillo beneficiava diretamente a Gerplan – Gerenciamento e Planejamento Ltda, a empresa de Cachoeira que explorava casas de bingo e pontos de caça-níqueis. A 3ª Vara da Fazenda Pública do Estado concedeu o pedido de liminar, mas, mais tarde, essa decisão foi considerada improcedente. Diante da possível perda da causa, os promotores e procuradores de Goiás resolveram levar o caso à União, notificando a Advocacia Geral da União sobre a importância do assunto. A prevalecer o decreto, afinal, o jogo estaria legalizado em Goiás, o que potencialmente poderia levar a situações idênticas em outros Estados. Com a União na cena, o caso foi levado ao Supremo e, ali, foi distribuído a Mendes.

O ministro já anotou, sobre o mesmo processo, uma decisão digna de comemoração por Cachoeira e Perillo, além do senador Demóstenes. Ele negou provimento ao pedido feito pelo Ministério Público de Goiás para suspender a decisão da justiça estadual que permitia a exploração dos caça-níqueis. Ao negar o pedido de liminar, porém, o ministro Mendes tomou uma decisão que, necessariamente, seria igual a de qualquer outro juiz. Ele apenas observou que a data de entrada do recurso pelo Ministério Público de Goiás ultrapassou o prazo legal de trinta dias sobre a decisão da justiça estadual. Em complemento, Mendes aceitou o pedido da Procuradoria Geral da União para acompanhar, na condição de “assistente litisconsorcial ativo” a tramitação do processo.

A decisão está abaixo:

ACO/767 – AÇÃO CÍVEL ORIGINÁRIA

Classe: ACO

Procedência: GOIÁS

Relator: MIN. GILMAR MENDES

Partes AUTOR(A/S)(ES) – MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS

PROC.(A/S)(ES) – PROCURADOR-GERAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS

RÉU(É)(S) – GERPLAN GERENCIAMENTO E PLANEJAMENTO LTDA

ADV.(A/S) – MARCELO JACOB BORGES

ADV.(A/S) – JEOVAH VIANA BORGES JUNIOR

RÉU(É)(S) – ESTADO DE GOIÁS

PROC.(A/S)(ES) – PROCURADOR-GERAL DO ESTADO DE GOIÁS

INTDO.(A/S) – UNIÃO

ADV.(A/S) – ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO

Matéria: DIREITO ADMINISTRATIVO E OUTRAS MATÉRIAS DE DIREITO PÚBLICO | Atos Administrativos | Licenças | Jogos de Bingo e/ou Caça-níqueis

Decisão: Trata-se de ação civil pública, com pedido de medida liminar, proposta pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MP/GO) contra o Estado de Goiás e a GERPLAN – Gerenciamento e Planejamento Ltda. perante o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. O MP/GO sustenta, em síntese, que o Governo do Estado de Goiás instituiu, por meio de decreto, a modalidade de loteria instantânea e que a Lei 13.762/00, que alterou lei que dispõe sobre a exploração do serviço de loteria e congênere no Estado de Goiás, previu expressamente a possibilidade de exploração de videoloteria (caça-níquel). O juízo da 3ª Vara da Fazenda Pública Estadual/GO proferiu decisão deferindo a liminar. Posteriormente, no entanto, a ação foi julgada improcedente (fls. 599-616). O MP/GO interpôs apelação, arguindo a nulidade da sentença (fls. 599-616). O Estado de Goiás e a GERPLAN apresentaram contrarrazões à apelação, alegando, em síntese, a intempestividade do recurso e, quanto ao mérito, a sua improcedência (fls. 738-742 e 711-726, respectivamente). A Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de Goiás ofereceu parecer no sentido do conhecimento e provimento do recurso (fls. 747-762). O TJGO determinou a remessa dos autos à Advocacia-Geral da União para manifestação acerca de possível interesse da União no feito. Devidamente intimada, a União requereu seu ingresso na relação processual na condição de assistente litisconsorcial ativo, bem como a remessa do feito ao Supremo Tribunal Federal, na linha do que dispõe o art. 102, I, “f”, da Constituição. Em atenção ao requerimento da União, os autos foram remetidos a esta Corte, abstendo-se o desembargador relator de apreciar o pedido de ingresso da União no feito. A Procuradoria-Geral da República apresentou parecer pelo deferimento do ingresso da União na relação processual, bem como pela procedência da ação cível originária. Decido. Em primeiro lugar, defiro o pedido de ingresso da União na relação processual na qualidade de assistente litisconsorcial do Ministério Público do Estado de Goiás, na forma do art. 54 do Código de Processo Civil, recebendo o processo no estado em que se encontra. Reconheço, portanto, a competência desta Corte para apreciar a apelação de fls. 623-640. Verifico que o recorrente foi intimado da sentença no dia 20 de agosto de 2002, conforme a certidão de fl. 622. No carimbo de protocolo do recurso, no entanto, consta a data de 25 de setembro de 2002, posterior ao término do prazo de trinta dias previsto nos arts. 508 e 188 do Código de Processo Civil. Notória, portanto, a intempestividade do recurso, tendo a sentença de fls. 599-616 transitado em julgado. Ante o exposto, nego seguimento à apelação (art.. 21, § 1º, RISTF). Publique-se. Int.. Arquive-se. Brasília, 2 de fevereiro de 2012. Ministro Gilmar Mendes Relator Documento assinado digitalmente

No longo tempo em que está atento a este processo, o ministro Mendes já deu decisões, também, francamente contrárias aos interesses da Gerplan e de Cachoeira. O recurso extraordinário 363130, por exemplo, teve seu seguimento negado por Mendes em decisão de 7 de novembro de 2002. Abaixo:

RE/363130 – RECURSO EXTRAORDINÁRIO

Classe: RE

Procedência: GOIÁS

Relator: MIN. GILMAR MENDES

Partes RECTE.(S) – BRASIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE MÁQUINAS RECREATIVAS LTDA

RECTE.(S) – GERPLAN GERENCIAMENTO E PLANEJAMENTO LTDA

ADV.(A/S) – CRISTOVAM DO ESPÍRITO SANTO FILHO

RECDO.(A/S) – MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE GOIÁS

DECISÃO: Trata-se de recurso extraordinário interposto com base no art. 102, III, “a”, da Constituição Federal, contra acórdão de Turma Recursal Julgadora da Comarca de Catalão-GO que, confirmando sentença, manteve a busca e apreensão de máquinas de Vídeo Loteria Off-Line, conhecidas por caça-niqúeis. As recorrentes sustentam que o acórdão violou os arts. 5º, II, XXII, XXXV, XXXVI, XXXVII; 170, II e IV e 195, III, da Constituição Federal. Observo que não houve, no órgão julgador a quo, debate e juízo prévios sobre as questões constitucionais tidas por violadas. Também, não foram interpostos embargos declaratórios. Dessa forma, não é de ser reconhecida a pretendida violação, por falta do indispensável prequestionamento. Incidem as Súmulas 282 e 356. Além do mais, mesmo que ultrapassado o óbice da falta de prequestionamento, o apelo não poderia subsistir. É que não há ofensa direta aos dispositivos constitucionais tidos por violados. A jurisprudência do STF exige, como pressuposto à admissão do recurso extraordinário, que haja ofensa direta pela decisão recorrida à norma constitucional, não podendo essa vulneração ocorrer por via oblíqua. Assim, com base no art. 557, caput, do Código de Processo Civil, nego seguimento ao recurso extraordinário. Publique-se. Brasília, 7 de novembro de 2002. Ministro GILMAR MENDES Relator

Dez anos depois, Mendes é outra vez senhor do destino da ACO 767.

Agora que se conhecem melhor os métodos de aproximação de Cachoeira aos seus alvos, com o uso de toda a influência do senador Demóstenes Torres para conseguir seus objetivos, pode-se acreditar que o encontro entre o senador e o magistrado em Berlim, e o fato de a enteada de Mendes ter exercido cargo remunerado de livre preenchimento no gabinete do senador, tenham sido resultado de uma estratégia recorrente. O certo, porém, é que todos estarão de olho na decisão do ministro sobre o réu Gerplan.

Publicado por:  Brasil 247

Aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei

9 de abril de 2012

Leonardo Bruno*

A fraqueza de políticos como Demóstenes Torres é ignorar que não estão mais numa realidade democrática elementar.

Curioso o alarido histérico de parte da imprensa em torno do senador Demóstenes Torres, que acaba de sair do DEM. Não que os pecados dele devam ir para debaixo do pano. Todavia, o pecado maior não foi o de ser amigo de um delinqüente vulgar, de um bicheiro de caça-níqueis. O pecado maior mesmo foi de não ter sido amigo de delinqüentes bem maiores. E, lembremos delinqüentes maiores de esquerda. Alguém supera o PT neste ínterim? Duvido.

As safadezas do governo Lula e Dilma são coisas de crime organizado, perto das delinqüências menores de pivete de Demóstenes. Lula e Dilma podem ser amigos do tiranete Hugo Chávez, do narcotraficante Evo Morales, dos terroristas das FARCs, do fanático islâmico Ahmadinejad ou do jurássico stalinista do Caribe, Fidel Castro. Ou bem menos, podem ser amiguinhos de Zé Dirceu e Marcos Valério. Mas na imprensa, tudo isso é só silêncio…

Quase sempre desconfio de marchas contra a corrupção. Pois, no final das contas, por trás de tais moralismos, sempre há um corrupto acusando o outro. Neste caso particular, os petistas se promoveram justamente com a tal “ética na política”, criando dossiês e fábrica de espionagem na vida privada alheia, parasitando os podres alheios, enquanto escondiam os seus. Criaram uma ética de delação generalizada, digna dos piores esquemas de patrulhamento soviético.

E foi assim que movimentaram uma turba estudantil de moleques analfabetos funcionais de cara pintada, para fazer coro à derrubada do ex-presidente Collor de Mello. Essa mesma juventude cretina e ignorante, que cospe na cara de inermes velhinhos militares da Reserva, enquanto bajulam e cantam loas à memória de terroristas, assaltantes de bancos e assassinos comunistas.

Concomitante a isso, o PT nos brindou com o mais ardiloso esquema de corrupção que a república presenciou em sua história, o mensalão. Isto porque o esquema petista foi apenas a ponta do iceberg de um completo e descarado aparelhamento do Estado pelo partido. A imprensa, com algumas exceções notáveis, foi condescendente com as falcatruas monumentais do governo. Aliás, foi por causa dela (além da covardia da oposição), que Lula conseguiu se reeleger e ainda colocar sucessora, um poste chamado Dilma.

Foi diferente com Demóstenes? Sim. A Polícia Federal agiu como a KGB, quebrando a sua privacidade, sem qualquer reserva legal. E o STF, omisso, quase pondo na gaveta o processo das falcatruas petistas, foi rápido no ataque ao senador. Quebrou seu sigilo bancário e concluiu a destruição de sua reputação.

Surpreendente foi o posicionamento do DEM com relação a Demóstenes. O partido pediu sua cabeça e a deu de bandeja para os inimigos. Talvez o “problema” dos democratas é que seu espírito de máfia é fraco demais ou talvez ainda sobre uma certa aparência de decoro público. Decoro, inclusive, com o próprio governo, já que a oposição demonstra uma apática e infame covardia. Lula foi bem mais blindado pelos seus acólitos de partido, quando cinicamente dizia que o mensalão não existia e que não sabia de nada. Ou será que alguém acredita que o ex-presidente, com seu entourage todo envolvido com a bandalheira mensaleira, e com José Dirceu, depois cassado, não sabia de nada mesmo? Nem era necessária uma gravação para derrubar o ex-presidente. Bastava o Congresso vergonha na cara, e acabaria com a carreira do PT. Ultimamente, porém, o Congresso prefere cassar ladrões de galinha ou batedores de carteira.

Mas não me iludo com políticos como Demóstenes Torres, ainda que tenha sido um grande estrago para uma oposição cada vez mais insignificante. A fraqueza de políticos como ele é ignorar que não estão mais numa realidade democrática elementar. Daí ter sido espionado e massacrado com relativa facilidade. Por isso, não me surpreendente mais a desproporção do caso. Dentro de uma república cada vez mais deformada, no que diz respeito ao cumprimento da legalidade, o pecado maior do senador foi não ter sido petista. Ou melhor, ter sido opositor do governo. Claro está que aos amigos tudo, aos inimigos, a lei.

E o jugo da lei está nas mãos do PT.

Publicado por:  Mídia Sem Máscara