Posts com as Tags ‘Meio Ambiente’

Água: escassez e conflitos

25 de março de 2012

Andrea Matarazzo*

Já está claro que a natureza, em sua complexa dinâmica, impõe limites à forma com que a sociedade industrial consome seus recursos. Este problema se agrava à medida que avançamos nos processos sociais inclusivos, garantindo bens de consumo e qualidade de vida para amplas parcelas de população.

Este é um paradoxo dramático da nossa era.

Temos nesta semana o Dia Internacional da Água, no dia 22 de março. Mais do que comemorar, há motivos para refletir. Tanto nas cidades como nas áreas rurais, as águas cumprem uma série de funções de interesse social, econômico e ambiental.

A sociedade tem interesse em que se garanta água abundante e de qualidade para diferentes usos, mas nem sempre isso tem sido possível.

É preciso muito conhecimento técnico, estruturas administrativas modernas e ágeis, além de grande capacidade de gerenciar conflitos para que se possa garantir, em cada bacia hidrográfica, água para abastecimento público, agricultura, indústrias, produção hidrelétrica, lazer e biodiversidade.

Especialmente em nossas cidades, as águas sofrem de uma série de males. O crescimento urbano no país deu-se sem que tenhamos a infraestrutura necessária. Ainda que em muitas cidades, como São Paulo, o abastecimento de água de qualidade alcance praticamente 100% das casas, a coleta e tratamento de esgotos ainda exige anos de investimentos.

Em São Paulo, temos também um exemplo marcante de conflito pelo uso da água: ela é tão necessária para o abastecimento público quanto para a produção energética. Numa situação em que não há água abundante para todas as funções, é preciso decidir qual destes usos será prioridade.

Ambos são interesses legítimos, com forte respaldo em necessidades sociais.

A Represa Billings foi construída há mais de 90 anos para reservar águas para produção energética na Usina de Henry Borden. Mas, com o passar dos anos, a represa passou a ser muito importante também na garantia de água para o abastecimento da população metropolitana.

Tendo as cidades crescido de forma tão extraordinária, a presença de uma represa passou a ser preciosa para o lazer, paisagem, qualidade urbana. Aliás, todas as grandes cidades no mundo usufruem e valorizam-se pela proximidade de águas.

Porém, e aí está o conflito, para que a represa tenha água o suficiente para que uma parcela seja enviada à Usina de Henry Borden (e com isso se produza energia), é preciso alimentá-la com as águas do Rio Pinheiros e do Rio Tietê.

Como as águas destes rios estão poluídas, ao enviá-las para a Billings reduzimos a possibilidade de captação para abastecimento. O quadro fica mais complexo se pensarmos que, hoje, a qualidade do Rio Pinheiros pode ser muito melhorada, se parte das águas da Billings corresse seu curso original, ou seja, circulasse desde a represa em direção ao Rio Tietê, diluindo a poluição e trazendo alívio para a cidade.

Quando as funções da água entram em conflito, é preciso que os governos, os vários usuários das águas e a sociedade em geral atuem com procedimentos muito articulados e compactuados para enfrentá-los.

*Andrea Matarazzo é secretário estadual de Cultura de São Paulo

Publicado por:  Brasil Econômico

As dores do aprendizado

23 de março de 2012

João Bosco Leal

Desde os tempos mais remotos, o aprendizado humano está intimamente ligado à dor e ao sofrimento. Muitos morreram comendo frutos selvagens que eram tóxicos, atacados por animais que pensavam ser dóceis ou foram feridos tentando domesticar outros.

Incontáveis experimentos foram realizados pelo homem para que hoje pudéssemos usufruir de coisas consideradas banais, como um prato de feijão. Muitas espécies foram testadas, tanto em sua cultura como no cozimento do grão, até se chegar ao hoje utilizado como alimento diário. O mesmo ocorreu com o arroz, a batata, a mandioca, as frutas e os mais diversos tipos de proteina animal. Milhares de testes foram relizados com os animais que poderiam servir para nos alimentar até que se chegasse a uma opção mais comum, a dos bovinos.

Desde os dinossauros e mamutes, até os atuais cavalos, cães, gatos e ratos, centenas de espécies animais e insetos foram abatidas para serem experimentadas como alimento. Ovos das mais diversas espécies, inclusive os de cobras foram comidos pelo homem. Conheci pessoas que há poucas décadas comiam macacos e no passado já me alimentei da carne de vários tipos de tatú, capivaras, jacarés, veados, pacas, perdizes e rãs.

No meio rural ainda ouvimos coisas como: a moela da ema serve para o tratamento de úlceras, a banha da sucuri é ótima para problemas musculares, o sebo do carneiro é excelente para entorces e muitas outras crendices populares, algumas sem nenhum fundamento e outras tão eficientes que inclusive forneceram subsídios para estudos médicos e científicos. Milhares de ervas medicinais atualmente utilizadas pelo homem possuem sua origem no conhecimento dos índios e dos caboclos, que aprenderam com seus antepassados.

Em 1972, durante minha primeira das várias caminhadas a cavalo por picadas de seringueiros em plena floresta amazônica, no estado do Acre, aprendi que após as 14:00 horas já era praticamente noite dentro da mata, em virtude da altura das árvores e do grau de inclinação dos raios solares naquele horário e que nunca deveríamos urinar próximo de uma nascente de água, pois a urina contém sal e muitos animais, por sua carência, seriam atraídos para lamber o chão onde o mesmo ficaria depositado, também urinariam e seu pisoteio no local úmido tornaria aquela água imprópria para o consumo dos que por ali passassem posteriormente.

Esse tipo de aprendizado, o da experiência prática, durante séculos custou a vida dos devorados por animais, dos que morreram envenenados por plantas tóxicas, dos que foram usados como cobais em testes de novos remédios e vacinas e décadas foram necessárias para que se descobrisse a utilidade do caldo viscoso que escorria da seringueira quando seu tronco era riscado.

Atualmente, todos os remédios e vacinas são produzidos com melhores resultados e menos riscos e as seringueiras, de espécies selecionadas e clonadas, são cultivadas em áreas contínuas, produzem muito mais e geram muito mais lucro.

Mesmo com toda essa tecnologia e sabendo dos desastres já provocados no passado, suas consequências para os seres humanos e o meio ambiente, os governos continuam criando conflitos, investindo na construção de bombas e gastando mais com armamentos para seus exércitos do que com educação e saúde para seus governados.

Foram as dores e mortes ocorridas durante milênios que possibilitaram nossa chegada aos dias atuais e mesmo com todo o sofrimento vivido por nossos ancestrais ainda não aprendemos o suficiente para sermos capazes de construir um futuro melhor para nossos descendentes? Ou viveremos eternamente como as ostras, incapazes de produzir pérolas se não forem feridas com a ingestão de um corpo estranho?

Não podemos mais continuar sofrendo ou fazendo sofrer para aprender. Os investimentos na produção de alimentos, educação e saúde pública devem ser, em qualquer país, muito mais importantes e prioritários que armar seus exércitos ou realizar copas do mundo, como se pretende fazer no Brasil.

Só a paz e o crescimento de todos propiciará um futuro digno para toda a humanidade.

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Código Florestal: aliança entre produção rural e meio ambiente

14 de março de 2012

Xico Graziano*

Quem convive com esse assunto sabe que duas posições radicais se digladiam: de um lado, os ruralistas tacanhos, de outro, os ambientalistas puros.

O Código Florestal entrou novamente em votação na Câmara dos Deputados. Deve ocorrer a batalha final entre a agricultura sustentável e seus inimigos: o preservacionismo verde e o ruralismo atrasado. Veremos quem vencerá.

Parece exagero, mas não é. Desde o início tenho defendido a ideia de que a nova legislação florestal somente seria aprovada com a derrota dos fundamentalistas. Quem convive com esse assunto sabe que duas posições radicais se digladiam: de um lado, os ruralistas tacanhos, de outro, os ambientalistas puros. Ambos utilizam argumentos exagerados, sectários, para defender suas teses.

Os primeiros nunca engoliram os conceitos de reserva legal (RL) e de área de preservação permanente (APP), armando-se para aniquilá-los. Esses ruralistas pretendem continuar abrindo fronteiras como antigamente, derrubando impiedosamente as florestas em nome do progresso socioeconômico. Não aceitam que se limite o uso da propriedade e exigem que o Estado os indenize, em dinheiro, pelas áreas ambientalmente impedidas dentro das fazendas.

Os segundos querem fazer regredir áreas agrícolas ocupadas historicamente. Esses ecologistas afirmam que inexiste direito adquirido em matéria ambiental, querendo criminalizar os agricultores pelo desmatamento realizado antanho. Consideram que o uso produtivo dos brejos e das beiradas de córregos, das áreas inclinadas nas montanhas, dos topos de morro constituem um “passivo ambiental” a ser resgatado pelos produtores rurais.

Intolerâncias caracterizam os dois lados. Os ruralistas radicais enxergam os verdes articulados com ONGs dos países desenvolvidos, interessados em manter a supremacia no agronegócio mundial. “Por que esses verdolengos não vão lá fora exigir a recuperação da biodiversidade nos pântanos europeus, ou nas pradarias do Meio Oeste norte-americano?”, perguntam provocativamente.

Os ecologistas radicais mostram ojeriza ao ouvir o discurso em defesa da produção rural. Julgam os agricultores sempre portadores de má-fé, com a inata malandragem de depredar a natureza. “Por que os fazendeiros insistem em cultivar soja e abrir pastagens, com tanta boiada aumentando o efeito estufa da Terra?”, questionam insistentemente.

Exageros são comuns. Os produtores rurais irão à falência com essa proposta de lei ambiental e faltará comida na cidade, dizem uns. Vai aumentar o desmatamento e vão piorar os desastres ecológicos, contrapõem outros. Curioso, e sintomático nesse debate, é perceber que ambos, embora ferrenhos adversários, criticam o mesmo texto, qual seja, a última versão do Código Florestal aprovada pelo Senado. Amor e ódio, como se sabe, se aproximam.

Nos últimos três anos a sociedade esteve sujeita à discussão polarizada, e estéril, travada entre os radicais, sejam ruralistas, sejam ambientalistas. A polêmica não esclareceu, ao contrário, confundiu a opinião pública. O antagonismo criado tolheu a participação no debate de quem oferecia moderação, conciliação de pensamento. As claques valorizam o golpe na jugular, jamais o afago condescendente.

A despeito, porém, da gritaria dos donos da verdade, realizou-se no Senado uma produtiva concertação sobre a matéria. Para o acordo de votação convergiram 57 senadores, restando 7 contrários. O texto aprovado, agora retornado à Câmara, não representa o ideal, mas enseja o possível. Esverdeou o projeto inicial sem agredir a produção no campo.

A versão sobre a mesa permite sair da problemática, entrando na “solucionática”. A nova proposta do Código Florestal amenizou a carga contra os recentes desmatadores, trocando suas multas pela recuperação ambiental das áreas degradadas. Trocou o incerto pelo resultado positivo. Criou uma regra boa ao empurrar todos os produtores para o novidadeiro Cadastro Ambiental Rural. Agenda positiva.

Pela primeira vez, ademais, a legislação trata da recuperação de áreas degradadas, e não apenas da supressão vegetal. A boa prática agrícola será valorizada e a mata virgem começa a receber valor no mercado. Além dos clássicos, e repressivos, mecanismos de comando e controle, finalmente a legislação florestal pensa em remunerar os agricultores pelo serviço ambiental que podem prestar à sociedade. Isso é sensacional.

Mas não pensam assim os radicais. Procuram pelo em ovo. Utilizam-se de arrazoados cujas suposições se assemelham àquelas capazes de derrubar grandes aviões, ou seja, se todas as combinações negativas ocorrerem ao mesmo tempo, haverá uma catástrofe. Apostam no pior.

Os arautos do preservacionismo verde preferem salvar a biodiversidade do planeta a investir na civilização humana. Predicam contra a História. Já os paladinos do ruralismo atrasado querem que se dane a ecologia. Pregam o inaceitável. Uns travestem a luta ambiental de messianismo religioso, como se enviados do céu para salvar os pobres mortais da barbárie ecológica. Outros, os reacionários do campo, se disfarçam de redentores dos povos famintos, para lhes dar uma banana.

Desculpem-me o depoimento pessoal. Há 30 anos lancei meu primeiro livro, Questão Agrária e Ecologia (Editora Brasiliense). Em São Paulo, fui secretário de Agricultura de Mário Covas e secretário de Meio Ambiente de José Serra. Navego, há tempos, com um pé em cada canoa, subordinado à ideia do agroambientalismo, movimento que une, e não separa, a produção rural e a preservação ambiental.

Somente uma aliança entre a produção rural e o meio ambiente será capaz de resolver o terrível dilema da humanidade: garantir a segurança alimentar sem destruir a natureza. Os radicais apostam no contrário, fomentam a desavença. Dá até bom discurso, mas não projeta o futuro.

*Agrônomo, foi secretário do meio ambiente do Estado de São Paulo.

Publicado por:  Brasil 247

Mudanças climáticas

11 de março de 2012

José Anibal*

 A Política de Mudanças Climáticas de São Paulo exige que até 2020 as emissões de gases de efeito estufa sejam reduzidas em 20% sobre o total emitido em 2005.

Será preciso cortar 28,6 milhões de toneladas destes gases – sobretudo o CO2 – em dez anos. Se a meta é ousada, as conclusões da Matriz Energética de São Paulo 2035 – um estudo do cenário energético para as próximas duas décadas – tornam-a mais desafiadora.

Se nada for feito, diz o estudo, as emissões paulistas devem dobrar até 2035, em direção oposta ao que determina a lei.

No Brasil, 70% das emissões de CO2 vêm do desmatamento. Em São Paulo, o desafio são os transportes.

Como 93% das cargas são movimentadas por rodovias, o sistema de transportes lança ao ar 40 milhões de toneladas de CO2 por ano.

É preciso um pacto entre o setor público, o privado e a sociedade civil para reverter este quadro. A capital serve de exemplo.

Não adianta o transporte coletivo rodar exclusivamente com biocombustível – iniciativa em estudo – se a frota de carros cresceu 34 vezes mais do que a de ônibus em cinco anos.

No transporte de cargas, é ainda pior. A frota de caminhões tem uma média de idade relativamente avançada e o diesel brasileiro – mesmo o S-50, diesel com particulado menor, recém-comercializado pela Petrobras – ainda é inferior em qualidade aos padrões americano e europeu.

Ao poder público cabe incentivar alternativas sustentáveis. Bom exemplo é uma mina de fosfato em Cajati, Vale do Ribeira, que visitei ano passado com o governador Alckmin. Uma ferrovia privada liga a região a Santos. Mas, como ela está desativada, 3 milhões de toneladas de fosfato e de outros produtos são levados anualmente por caminhão. É irracional.

Mas há boas novas. Oitenta mil viagens anuais de caminhão deixarão de ser feitas com o alcoolduto Ribeirão Preto-Paulínia. O mesmo se dá no escoamento do açúcar.

Desde 2011, 7,5 milhões de toneladas passaram a chegar ao porto de Santos por trem, evitando 297 mil viagens rodoviárias.

O lixo é outro desafio. Em 2008, 9,2 milhões de toneladas de gases de efeito estufa – principalmente metano – foram emitidas pelo lixo. Pior: cidades como as do Litoral Norte, por exemplo, processam seu lixo em municípios como Tremembé, distante 130 km.

O frete chega a R$ 170 por tonelada de lixo, sem contar o dano da queima do diesel pelos caminhões. Por isso, está em fase de estudos a instalação de usinas de tratamento de resíduos sólidos na região. Além de solucionar a questão do lixo, elas geram energia.

São Paulo também adiantou para 2014 a proibição das queimadas na colheita da cana. Com isso, zeramos a emissão de CO2 e ainda aproveitamos a palha na cogeração de eletricidade. Neste quesito, estamos bastante adiantados.

Em suma, a questão exige compromisso. Juntos, poder público e população podem fazer muito. O setor privado também deve ser mais eficiente.

Afinal, há uma estreita conexão entre práticas nocivas ao ambiente e baixa competitividade econômica. Como se vê, os interesses são todos convergentes. É hora de agir.

*José Aníbal é economista e secretário de Energia de São Paulo

Publicado por:  Brasil Econômico

A importância e a precisão da integração cultural com políticas públicas

11 de março de 2012

José Valdeci de Souza Martins

Entende-se por Políticas Públicas “o conjunto de ações coletivas voltadas para a garantia dos direitos sociais, configurando um compromisso público que visa dar conta de determinada demanda, em diversas áreas. Expressa a transformação daquilo que é do âmbito privado em ações coletivas no espaço público” Acredito que deve ter surgido quando algumas pessoas se tocaram de que o cidadão e seus direitos deveriam ser valorizados, e para tanto criaram leis, debates para combater os poderes que se proclamavam superiores e dar mais direitos ao cidadão e sua família enquanto membros da sociedade. Em contrapartida;

Cultura é um conjunto de informação que juntamente com os costumes e conhecimento de uma comunidade, tribo, sociedade ou povos de determinadas ações que atuam diretamente na formam de pessoas, homens mulheres, crianças e organizações de sociedades. A cultura não é maior nem menor, não nos faz mais nem menos, melhores ou piores a cultura faz com que cada povo, tribo ou nação sejam únicos em seus conhecimentos, informações, tradições e costumes.

O reconhecimento da importância da integração entre cultura e política, dar-se-á em um contexto que elucida o quanto esse reconhecimento deve ter e ser tratado como prioridade enquanto política pública de estado. Os pontos de cultura são a força viva, protagonizando nos últimos anos o que há de belo no exercício da função social na cultura brasileira.

Tenho acompanhado o esforço do governo do meu estado, o Mato Grosso do Sul – MS, através da Secretária de Estado de Cultura, a de priorizar melhor e atender a área da Cultura. Participando da União Brasileira de Escritores – UBE, tenho acompanhado os diversos programas culturais realizados em vários municípios do estado.

Penso que os rumos das políticas públicas têm que vir da vontade da população. No vácuo da participação e das determinações governamentais, na ânsia de acertar, podem trilhar caminhos indesejáveis. O país tem avançado em cidadania e em democracia. A melhora dessas condições envolve o fortalecimento das parcerias entre governo e cidadãos. As principais políticas públicas têm sido baseadas nesse modelo que envolve ouvir a população em grandes conferências e rotineiramente as decisões mediadas, onde em Mato Grosso do Sul, existe um Conselho de cultura, que é formado por notáveis escritores.

Lendo noticias e informações como as que presenciamos em nosso meio cultural, que para muitos, dizem que “se tornou um modelo para o mundo” fico perplexo. Em um país que escutávamos o Tom Jobim e passou a escutar o Luan Santana, quem assistia o Glauber Rocha e agora vê os Filhos de Francisco. Só podemos ser um modelo de como não seguir esse caminho. Infelizmente, chegamos a uma decadência tão grande que certas pessoas se sentem com a audácia de afirmar até que os “pontos de cultura” estão mudando a cultura da nação. É demais, é ridículo demais. E esse tipo de declaração que encontra espaço todos os dias na tal “blogosfera” que deveria estar informando, “distribuindo conhecimento”.

Em um mundo de mudanças de uma rapidez vertiginosa, o desajustamento de todos nós, mas em especial dos jovens, é um grave problema. Não há espaço para eles. Há uma grande incoerência daquilo que se exige do jovem com o que se lhe oferece. As estruturas familiares, que sempre foram esteios para os jovens, hoje são inexistentes ou frouxas. Poucas famílias ainda conservam valores para dar sustentação ao jovem que sofre pressões de todo lado. É um assunto que demanda muita discussão, mas discussões em que, ao final, se faça luz e mostre rumos.

São diretrizes como estas que visam a resolução de problemas ligados à sociedade como um todo englobando saúde, educação, segurança. É tudo o que se refere ao bem-estar do povo. Como fazer? Proporcionar questões de liberdade e igualdade, ao direito à satisfação das necessidades básicas, como emprego, educação, saúde, habitação, acesso à terra, meio ambiente, transporte etc. à população. Tudo isso se dar também na “importância e na precisão da integração cultural com políticas públicas”

Publicado por:  Recebido do autor por e-mail

Muito além dos royalties

10 de março de 2012

José Anibal*

A retomada das discussões sobre a partilha dos royalties do petróleo no Congresso deverá obscurecer outra vez o debate mais importante sobre o pré-sal: como transformar a riqueza gerada pela atividade em dinamismo econômico e bem-estar social.

O verdadeiro desafio é criar as condições para o enraizamento destas oportunidades na vida da população. Mais do que os royalties, são os ganhos em inovação competitiva, geração de patentes, excelência em logística e capital intelectual que devem ser perseguidos.

No começo deste mês, a Secretaria de Energia de São Paulo firmou dois importantes protocolos voltados ao pré-sal. O primeiro foi com um grande fornecedor da Petrobras, que decidiu trazer sua base logística de dutos submarinos para o litoral paulista.

Mil novos empregos serão gerados. Os investimentos podem chegar a R$ 117 milhões até 2013, caso a empresa traga também seu Centro de Tecnologia e Construção Offshore.

O segundo protocolo, firmado com a Petrobras, cria as condições institucionais para a instalação de dois centros de pesquisa de padrão internacional voltados ao desenvolvimento da cadeia do pré-sal.

Um deles, a ser instalado no Parque Tecnológico de Santos, terá ênfase, entre outros aspectos, nos impactos ambientais da atividade.

A nossa expectativa é de que São Paulo se torne um dos celeiros mundiais da inteligência do petróleo. E temos bons motivos para sermos otimistas.

As perspectivas iniciais dão conta que 200 mil empregos diretos serão criados nas fases de implantação e operação da exploração do pré-sal na Bacia de Santos, além de outros 120 mil empregos indiretos.

Antecipando-se aos impactos econômicos, demográficos e ambientais, o governo de São Paulo lançou um pacote de investimentos em habitação, saúde, educação, transportes, logística e meio ambiente para a Baixada Santista e Litoral Norte no valor de R$ 5,3 bilhões. Mas nosso foco principal está na capacitação profissional.

Hoje, o estado de São Paulo responde por 60% dos bens e serviços fornecidos à indústria do petróleo e do gás natural no Brasil.

Se não bastasse, o estado forma 115 mil trabalhadores em nível tecnológico anualmente. Parece bastante, mas teremos de fazer muito mais.

Além de levar o curso de Engenharia de Petróleo (USP) para Santos, vamos utilizar toda a nossa rede de Etecs e Fatecs para formar competências no setor.

Também estamos criando especialidades dentro do programa Via Rápida para o Emprego para atender às demandas desta indústria.

Com a instalação da base de apoio Offshore da Petrobras no litoral paulista, vamos investir ainda mais na capacitação da rede local de fornecedores.

Os desafios estão aí. No entanto, a discussão sobre a destinação dos royalties deve deixar em segundo plano o debate sobre como preparar o país para que a melhor parte do pré-sal fique com a sociedade.

Os dividendos desta riqueza devem ser usados para acelerar o nosso desenvolvimento. Este sim deve ser o tema central das discussões sobre o futuro do pré-sal. Não apenas os royalties.

*José Anibal é secretário de Energia do estado de São Paulo

Publicado por:  Brasil Econômico

Cheia de encantos mil…

6 de março de 2012

Ucho Haddad

Apoteose da criação divina, o Rio de Janeiro jamais poderia deixar de ser conhecido como realmente é. Uma Cidade Maravilhosa! Mágico, conseguiu, ao longo do tempo, encantar o mundo. E continua encantando. Apesar das mazelas produzidas pelos desacertos políticos e sociais desde a época do império, o Rio continua resistindo bravamente, tendo a natureza como cúmplice.

O Rio de Janeiro continua lindo, o Rio de Janeiro continua sendo…

Cantada em prosa e verso, a Cidade Maravilhosa se eternizou em milhares de acordes como objeto do desejo de muitos, quem sabe o sonho de todos. Referencial obrigatório do recomeço, a sua essência se traduz na pirotecnia que desponta a cada ano que surge. Rasga o céu iluminado pela esperança, colorindo a incerteza do futuro.

Berço do samba e das lindas canções, a cidade, onde até o Pão é de Açúcar, exala na passarela da vida uma magia que perfuma a alma, transformando tristeza em alegria. No tão rezado requebrar de suas mulheres surgiu a permissão do proibido que, sem malícia, atenta o contínuo rosnar do oceano.

Foi no rastro do mistério do mar que Vinícius se torceu para acompanhar o movimento da Garota de Ipanema. Nos desenhos das calçadas de Copacabana, o pensamento mergulha no infinito da razão. Afinal, o Rio foi feito pra mim, o Rio foi feito pra nós…

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro…

Ode à vida, esta cidade, que quando se vê a alma canta, é, como compôs André Filho, o altar de nossos corações. Apaixonados se descompassam na cadência marota da vida, como uma rima platônica que reflete veneração.

Instigante, a natureza se faz presente pela exuberância e pelo silêncio barulhento que espoca no íntimo de cada novo amante que conquista.

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro…

Ao abrir os braços sobre a Guanabara, Cristo se rendeu à obra do criador. Fixou o seu olhar na impecável silhueta de algo divinamente inexplicável. Até o Velho Guerreiro por lá balançou a sua pança e o Fio Maravilha fez mais gols pra gente ver…

Enfim, o que desejar a essa terra que a todos seduz?

Que Deus te cubra de felicidade, ninho de sonho e de luz!

Rio de Janeiro, Rio de Janeiro…

Publicado por:  Ucho.info

Os detalhes da vida

2 de março de 2012

João Bosco Leal

Após adquirir minha primeira motocicleta, cerca de vinte anos atrás, quando achei que já tinha juízo suficiente para adquirir uma, nos finais de semana me aventurava em minhas primeiras viagens, até as cidades mais próximas, iniciando com as que estavam a 20, depois 50, 100, 200 quilômetros de distância.

Eram passeios totalmente descompromissados, sem nada para fazer no destino, hora para partir ou retornar. Mal chegava a um lugar já voltava, só interessado na liberdade, no ar batendo no corpo e nas sensações que só quem já viajou de moto conhece.

* Mão de Deus – escultura no deserto do Atacama, Chile, entre as cidades de Antofagasta e Copiapó em viagem de 2008.

Como diferença marcante entre as viagens de carro e de moto, o que mais me chamava à atenção eram os detalhes. Mesmo em caminhos por onde já havia passado dezenas de vezes de carro, começava a enxergar árvores, desvios, entradas, topografias, paisagens e detalhes que nunca havia percebido.

Esse talvez seja um dos motivos que mais explique a paixão dos que gostam de viajar de moto. Além das sensações, enxerga-se muito mais do que quando estamos de carro, talvez pelo enclausuramento provocado pela própria estrutura do carro, as colunas, os vidros fechados e a música, que praticamente nos isolam do que se passa do lado externo.

Enganam-se os que acham que os motociclistas são loucos, que correm demais, usam drogas, arrumam brigas e coisas do gênero. Isso é coisa de filme americano, de bandos de velhos arruaceiros, que andavam em bandos com suas motos, arrumando confusões e amedrontando todos por onde passavam, mas isso não existe por aqui.

Existem, é claro, diversos tipos de motocicletas e usuários de diversas idades, cultura e educação, que delas se utilizam de formas distintas, mas basta observar um pouco para percebermos que “loucuras” com motos só são realizadas pelos motoboys, com motos pequenas, que realizam verdadeiro zigue-zague no trânsito ou pelos jovens que possuem motos esportivas enormes, mais “tensas”, que fazem barulho, dão grandes aceleradas e atingem velocidades enormes em apenas uma quadra de onde partiram, disputam arrancadas em ruas e avenidas, correm muito e morrem bastante.

Quem gosta de viajar de moto raramente anda na cidade e se anda, é muito lentamente, curtindo sua máquina. São os que já possuem os cabelos brancos, com estabilidade financeira suficiente para investir entre cinquenta e cem mil dólares em uma dessas máquinas do tipo Custom, Big Trail ou Touring, para passear, viajar, enfim, aproveitar a vida em seus momentos de laser, e com elas partem, só com as esposas, ou em companhia de vários outros casais, em busca de lugares tão distintos quanto uma cidade próxima, ou até outro país, em viagens que podem durar dias, semanas – como uma de vinte e oito dias que realizei até o Chile -, ou meses.

Pressa é o que menos possui quem se dispõe a realizar uma viagem dessas. Vamos parando, conhecendo, tirando fotografias, descobrindo locais, vegetações, animais, alimentos, pessoas, idiomas e culturas diferentes da nossa. A obrigatoriedade de chegar a determinado local em data e horário pré-determinado nunca existiu nessa minha viagem. Não havia nenhum hotel reservado. Chegando a uma cidade é que procurava aposentos e os centros de informações públicas, onde obtinha as dicas de locais turísticos. Se gostasse, ali permanecia por um, dois ou três dias, passeando, conhecendo. Caso contrário, partia no dia seguinte, sem hora para acordar ou para a saída.

As experiências vividas em viagens assim jamais serão esquecidas, pois são maravilhosamente ricas em detalhes. Os que viajam de carro não percebem as mudanças de ares, da temperatura, dos cheiros dos campos e matas, mas de moto, sentem tudo em sua plenitude.

Enxergar o que existe entre dois pontos, as paisagens e detalhes que poucos viram, é a grande diferença entre viver a vida ou passar por ela.

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Invasão silenciosa

29 de fevereiro de 2012

Marcel Domingos Solimeo

Há muitos estrangeiros na região amazônica, até em regiões inacessíveis à maioria dos brasileiros. – Divulgação

Um amigo enviou-me recentemente o livro Invasão Silenciosa da Amazônia, de autoria de Luiz José Mendonça, piloto que por 40 anos voou pela região amazônica e que, além de conhecê-la muito bem, se preocupa muito com o seu destino. Ele descreve com detalhes as riquezas existentes na Amazônia, tanto as minerais como as de sua fauna e flora e, especialmente, um recurso precioso que ali existe em grande abundância: a água. 

Preocupa-se o autor com a significativa atuação de estrangeiros na região – missionários, cientistas, ONGs e outros – especialmente por conta dos contatos com os indígenas, o que ocorre inclusive em áreas a que muitos brasileiros não têm acesso.

Mendonça questiona a demarcação contínua da Reserva Raposa Serra do Sol e a absurda decisão do STF, que determinou a saída de brasileiros nascidos na região e que, por não serem índios, foram considerados brasileiros de segunda classe, ou estrangeiros em sua própria terra, da qual foram expulsos. E aponta os riscos decorrentes dessa decisão, tendo em vista a vulnerabilidade dos controles das fronteiras e, mesmo, do próprio território amazônico. 

Lembra o autor que a soberania brasileira sobre a Amazônia tem sido contestada por líderes estrangeiros, reproduzindo algumas declarações a respeito. O que mais o preocupa, no entanto, é o fato de que o Brasil assinou, em setembro de 2007, a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, que assegura a autodeterminação dos grupos indígenas de acordo com o direito internacional – podendo inclusive recorrer contra o Estado (no caso o Brasil), à arbitragem ou, mesmo, a Cortes Internacionais. Passam, ainda, a possuir autonomia sobre o uso de suas terras ou territórios. A declaração garante a desmilitarização de suas áreas, tornando-se uma verdadeira nação dentro do país em que vivem os indígenas. 

Embora o fato não seja mencionado por José Luiz Mendonça, cabe lembrar que países que possuem populações indígenas relevantes em seus territórios, como Estados Unidos, Canadá e Australia não são signatários da Declaração. Como o presidente Lula lutava por um lugar no Conselho de Segurança, na época, para se afirmar como um líder mundial confiável cedeu às pressões de ONGs e governos estrangeiros para assinar essa declaração. 

Ressalte-se que no Exterior não se fala mais de ” tribo” yanomâmi ou guarani, mas de ” nação” yanomâmi ou guarani, sendo que no caso da primeira, ela se estende até a Venezuela. 

O livro reproduz declarações do insuspeito indigenista Orlando Villasboas sobre a ameaça à soberania nacional, lembrando que na região se encontram as maiores reservas de urânio do mundo e o risco da criação de uma ” nação yanomani” sob a proteção da ONU (essa declaração pode ser vista no YouTube ). 

Mendonça questiona ainda a atuação da Funai, do Incra do Ibama, bem como do Cimi e da Pastoral da Terra, que tem atuado em parceria com as ONGs internacionais e estrangeiras, procurando ampliar as áreas das reservas indígenas. 

Talvez para quem não tenha acompanhado a discussão sobre a demarcação da Reserva Raposa Serra do Sol as preocupações de José Luiz Mendonça possam parecer fantasiosas. A realidade, porém, é que elas são mais do que justificáveis, como demonstrou o seminário promovido pela Associação Comercial de São Paulo sobre o tema, que contou com a participação do General Lessa, ex comandante Militar da Amazônia, do índio macuxi Jonas Marcolino, do deputado Aldo Rebelo e do professor Denis Rosenfield. 

Também a palestra realizada na ACSP pelo General Heleno, que foi Comandante da região à época da decisão da declaração reforçou pontos abordados no livro. Tanto a integra do seminário como a palestra foram publicadas pela revista Digesto Econômico, da Associação Comercial de São Paulo (edição virtual da revista em http://issuu.com/diario_do_comercio/docs/digesto_448/1

O mais grave é que essa política dita indigenista continua, e novas reservas em áreas de vital interesse para o Brasil continuam a ser defendidas pelos órgãos governamentais, especialmente no Mato Grosso do Sul – mas não apenas lá, pondo em risco vastas áreas dedicadas à produção agrícola e à pecuária, desrespeitando propriedades legitimamente adquiridas e provocando novos pontos de conflito entre brasileiros índios e não índios. A quem beneficia tudo isso?

Publicado por:  Diário do Comércio

 

A nova ordem e a carne de laboratório

18 de fevereiro de 2012

Ateneia Feijó*

Todo dia tem uma desgraça na mídia. Crack, despejo, injustiça, motin, ilegalidade, trem paralisado, vandalismo etc. A lista dos tipos de violência perturbando o cotidiano de gente pacífica que vai e vem em centros urbanos e periferias não tem tamanho. Tampouco o oportunismo partidário eleitoreiro. Já há quem admita que gostar de paz é infernal!

Então, pensar em aperfeiçoar a ordem virou coisa do capeta. Um paradoxo ou o quê? Simples confusão. Muitos brasileiros ignoram a diferença entre ordem e opressão; e imaginam disciplina como falta de liberdade. Não sabem o que é viver num regime de ditadura. Ou tirania. Aí sim, de propósitos diabólicos.

De volta à ordem e à disciplina. Sem as duas é impossível haver planejamento e administração de metas públicas ou privadas. Nem mesmo engajamentos lícitos com suas bandeiras de luta. E como seria possível existirem times ou trabalhos em equipe? Orquestras? Portanto, achar bacana transgredir só porque os ordeiros seriam conservadores é um tremendo equívoco.

Existe ordem na criação. Por exemplo: inventores, artistas e cientistas inovadores são disciplinados apesar de suas “transgressões”.

Apologia do caos não leva a nada. Pessoas comuns, que por fatores inesperados se deram mal, conseguem se recuperar a partir de novos projetos, de um novo caminho. O mesmo pode acontecer com nações, países e governos. No caso, o mais conveniente é um novo sistema, paradigma ou modelo.

Quer ver? Não tem sentido toda essa divergência sobre o Código Florestal aprovado pelo Senado. Interromper o desmatamento, recuperar solos degradados e deixar nascerem florestas nativas tornou-se a nova ordem planetária. O mais sensato agora é parar essa briga de “mocinho e bandido” entre os envolvidos e perceber de vez o que está por vir.

Na Universidade de Oxford, a inglesa Hanna Tuomisto estuda o desenvolvimento de carne cultivada a partir de células-tronco de porcos, convertendo-as em células musculares, para consumo humano, segundo a reportagem de Renato Grandelle na revista Planeta Terra (07 de fevereiro de 2012), do Globo.

As pesquisas indicam que a produção de carne em laboratório exigirá 99% menos terra e 90% menos água. Além de liberar até 95% menos gases-estufa. Óbvio que por enquanto a pecuária tradicional está em vantagem. Laboratórios e pesquisadores de células-tronco custam muito mais caro. Por enquanto…

Alguém duvida que o destino da raça humana esteja nas mãos da ciência e do bom senso?

*Ateneia Feijó é jornalista

Publicado por:  Blog do Noblat