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A sacolinha cheia de cada um

3 de fevereiro de 2012

Paulo Saab

Vou por um pouco de pimenta no debate que se criou em torno da questão das sacolas plásticas para transportar as compras de supermercado. Como cidadão comum, e com o prazer de paulistano, há mais de três décadas frequento supermercados para fazer as compras de minha família. 

Vivi o tempo da inflação, da estabilização, e de algum modo sinto que de dois anos para cá as gôndolas (e o caixa) desses estabelecimentos se tornaram meu referencial de inflação – sempre acima dos índices oficiais. 

Antes de prosseguir, é bom que se frise : sou a favor da preservação do meio ambiente e desde eras priscas aderi, em meu condomínio, à coleta seletiva de lixo. 

É verdade que isso foi votado há muitos anos e só agora tive notícias de que será implementada a tal coleta. 

Eu já separo material reciclável de orgânico. 

Isso posto, para não deixar os ambientalistas amuados, e engajado nas campanhas ambientais, posso perguntar ao leitor (afirmar seria temerário) se ele (e ela, principalmente) entendem como o fato de os supermercados decidirem não mais adotar a tal sacolinha não-biodegradável vai de fato contribuir para algo que não seja o eventual aumento do faturamento – porquanto passou a vender sacolas, carrinhos e que tais? 

Até disso eu duvido um pouco, leigamente, porque, tomando meu próprio exemplo, reduzi para menos da metade as compras que fazia, para ter condições de carregá-las. Ainda assim, a primeira caixa de papelão que tentei levar para o carro rompeu -se e minhas compras foram todas ao chão. 

E chegando (como cheguei) cada morador do meu prédio e de todos os prédios cujos condôminos fazem compras em supermercados, com quantidade semelhante de caixas de papelão (que entupiram a lixeira do meu andar), como ficará a montanha de caixas pela cidade afora? Mais despesas para os condomínios… 

Enquanto isso, os supermercados, além de não oferecer mais as sacolinhas, estão vendendo sacolas, carrinhos de feira e que tais, tudo a título de colaborar com o meio ambiente. 

Mas pergunto de novo: e as sacolinhas plásticas em que embalamos os queijos, as carnes, as demais compras? Estas continuam existindo, ou vamos embrulhar o peixe e a carne no jornal velho? 

Sou a favor da livre empresa, da economia de mercado, do lucro, da racionalidade, da criatividade, enfim, de tudo que faz girar a economia, o desenvolvimento na vida do País. 

Como consumidor, porém, não gosto de me sentir regredindo, ou enganado. Sem considerar também

que se trata – a abolição das sacolinhas – de um acordo entre os supermercados, e não uma exigência legal. Acordo que beneficia quem vende e prejudica quem compra, em larga escala, e faz o faturamento do estabelecimento, me parece, ser algo da competência de aplicação do Código de Defesa do Consumidor. 

Repito: sou a favor de medidas que ajudem a preservar o meio ambiente. Esta, a das sacolinhas, me parece muito mais uma esperta jogada de marketing, que poderia se aliar à preservação do planeta, não trouxesse tão ostensivo o desrespeito há décadas de hábito de consumo, sem alternativas adequadas. 

Se sobra caixa de papelão agora, em casa, no supermercado logo será disputada a tapa ou abandonada pelo consumidir – como abandonarei, de hoje em diante, o programa quinzenal de ir ao supermercado e comprar parte das coisas por impulso, sem necessidade objetiva. 

Não gosto de espertezas na vida pública. E nem na privada. 

*Paulo Saab é jornalista e escritor

Publicado por: Diário do Comércio

Humanizar a cidade

1 de fevereiro de 2012

Carlos Henrique Abrão*

A São Paulo de todos nós, que foi pioneira e conhecida pelos barões do café, hoje se transformou numa pauliceia desvairada, sonhos e pesadelos de muitos30 de Janeiro de 2012 às 09:34

São Paulo, a maior cidade do País, festejou 458 anos da data de sua fundação e não há muita coisa para se comemorar nos dias contemporâneos.

A cidade anda abandonada e temos ambientes tristes, de total ausência da autoridade em revelar a montanha de impostos e multas de trânsito arrecadadas ao longo dos anos.

Com efeito, a passagem pelas ruas nos identifica buracos, ondulações nas quais os veículos trepidam, debaixo de viadutos e pontes um grupo tentando organizar de improviso uma mini-habitação, sujeira espalhada de todos os lados e cantos, e mais a chuva, que jamais foi combatida de frente, espalha alagamentos e enchentes, muito comuns e sempre de volta no verão.

Por mais que as autoridades tentem nos convencer que, no ano que vem, as coisas serão diferentes, podemos acreditar que sim, mas para pior, e em razão da falta de ação planejada e de comum acordo com o Estado e a União.

Não é possível, mediante a arrecadação em alta que serviços essenciais passem ao largo de nossos governantes, conduzindo unilateral e politicamente as rédeas do jogo e colocando, por último, o interesse da sociedade.

A falta de um planejamento urbano polemiza a ideia de revitalizar o centro e ocupá-lo, de forma adequada e ao nível merecido.

Infelizmente são promessas de campanha que nunca se concretizam, na medida em que o centro de São Paulo sempre contrasta alguma coisa nova com bastante antiga, ao contrário daquilo feito em Paris, Londres, Roma e Berlim.

O verde cada vez mais escasseia, sendo substituído pela ganância do lucro fácil de prédios e mais edifícios, não importa a localização e a ocupação, mas sim o coeficiente entre a taxa de construção e o preço final de venda ou revenda.

Humanizar a cidade de São Paulo é tarefa hercúlea e sem precedentes, o trânsito cada dia é mais cheio de congestionamentos e os acidentes mais violentos, com as motos sem faixa, circulando a esmo por qualquer brecha, e em vias principais como 23 de maio e marginais, o que torna frágil o controle e se houver algum sinistro, horas empacados a espera do resgate ou perícia técnica.

Noticia-se que nos cofres da Municipalidade estão mais de dez bilhões para serem aplicados no ano eleitoral e servirem de plataforma às ambições pessoais da classe política.

No entanto, o numerário poderia, desde já, ser gasto e bem inserido no contexto de se acabar com o flagelo social, as cracolândias e os prédios abandonados.

Precisamos preservar o patrimônio artístico, cultural, mas, ao mesmo tempo, cerrar fileiras para que o crescimento desordenado não viole a sustentabilidade.

A São Paulo de todos nós, que foi pioneira e conhecida pelos barões do café, hoje se transformou numa pauliceia desvairada, sonhos e pesadelos de muitos, apesar da queda da migração interna, muitos de fora continuam aplacando ideias nas terras que progridem e fazem, das demais, ser o carro chefe e o pulmão da economia nacional.

São mais de 12 milhões de habitantes, mas o que precisamos é de um modelo de crescimento e humanização da cidade que não siga o slogan de “São Paulo precisa parar”, mas a cidade precisa encontrar um espelho com o qual se identifique.

A maior cidade da América Latina, a qual tem os melhores serviços laboratoriais e rede hospitalar, apresenta preços salgados e um custo de vida maior que Nova Iorque, para que nenhum estrangeiro se espante.

Começa a disputa eleitoral para a sucessão do Prefeito, e intenso será o tiroteio político, mas não se iludam, serão promessas e propagandas inócuas, cujo objetivo exclusivo será o de conquistar o voto.

Temos um custo de vida caro, uma tributação elevada, imóveis com preços altíssimos, e tudo mais em patamar internacional.

A cidade que não dorme, permanece acordada e pulsante 24 hs de sua jornada, precisa encontrar uma história capaz de reconduzir ao celeiro de valores, pesquisa e mais ciência, dotando-lhe de uma conotação humanista e, sem sombra de dúvida, um modelo transparente de gestão que corrija seus desmandos.

De nada adianta termos uma política bem aceita de cidade limpa, se os corredores estão sujos, as ruas e calçadas deixando a desejar e o centro velho carcomido pelo folclórico mundo de pedintes e drogados.

Todos somos responsáveis pelas agruras da cidade grande e nenhum Prefeito será competente para ditar regras civilizadas, se a população não cobrar, não participar e, sobretudo, se propor a modificar o cenário atual num quadro que projete luzes no horizonte e deite sulcos profundos, semeando menos contrastes, mais igualdade social e integrações de políticas públicas eficientes durante toda a gestão para que o ciclo de crescimento seja verdadeiramente incessante

Apesar de tudo, nossos aplausos para humanizar a cidade que completa mais um ano de vida com sua riqueza e expressão urbi et orbe.

*Carlos Henrique Abrão é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo

Publicado por:  Brasil 247

Davos social

28 de janeiro de 2012

Merval Pereira, O Globo

Houve época em que a reunião do Fórum Econômico Mundial aqui em Davos era um encontro que praticamente definia os caminhos do capitalismo mundial. A crise econômica que domina o mundo desde 2008, no entanto, retirou de Davos essa prerrogativa, resumindo as reuniões seguintes a debates estéreis sobre como sair da crise, sem que surgissem idéias criativas ou soluções viáveis.

Para um encontro que supostamente reúne as melhores cabeças e os líderes do sistema capitalista, não ter captado a crise que se avizinhava foi uma lição de humildade, a começar pelo reconhecimento tardio de que o mercado por si só não é capaz de corrigir seus excessos.

Registrei aqui na coluna que não se via tanto mea-culpa desde que, em outubro passado o ex-presidente do Banco Central americano Alan Greenspan, confrontado por um congressista americano, admitiu, “chocado”, que o modo de vida capitalista não deu certo, e se disse “surpreso” de constatar que o mercado não conseguiu se autorregular, e que as pessoas não conseguiram trabalhar em seu próprio benefício, refreando os excessos do sistema financeiro.

O ano seguinte à quebra do Lehman Brothers foi marcado pelo paradoxo de defender o livre mercado e o sistema capitalista e, ao mesmo tempo, admitir que somente uma vasta intervenção dos governos nacionais poderia tirar o mundo da crise sistêmica em que se encontrava.

O que se viu aqui em Davos nesses anos foi uma imensa catarse, com temas como regulação do mercado financeiro e a necessidade de maior transparência, que já foram considerados tabus, sendo prioritários.

Este ano, o Fórum Econômico está tentando dar um passo à frente de maneira ousada, defendendo a necessidade de repensar o capitalismo que, na definição de Klaus Schwab, o presidente do encontro, está morto da maneira que o conhecemos até hoje.

Nesse sentido, o tema central do encontro, “A grande transformação, criando novos modelos” é mais que simples retórica, é uma tentativa de descobrir novos caminhos em meio à crise que não dá sinais de terminar.

Os organizadores admitem que não existe um modelo conceitual a partir do qual se desenvolva um entendimento sistêmico das grandes transformações que estão ocorrendo no momento, e as que ainda ocorrerão.

Eles chamam a atenção para o desafio de liderança, que, de maneira quase dramática, descrevem como requerendo novos modelos, idéias ousadas e coragem pessoal para garantir que este século melhorará a condição humana, em vez de limitar seu potencial.

A ambição do Fórum Econômico Mundial é que os líderes que ele reúne retomem seu propósito central, que seria o de definir o que o futuro deveria ser, alinhando os acionistas e as empresas que dirigem para a realização desse objetivo.

Os diversos painéis dos cinco dias do encontro tratarão, claro, de temas concretos sobre como reequilibrar e desalavancar a economia, e reorganizar o mundo capitalista de maneira a que os países desenvolvidos saiam da crise sem quebrar, e os emergentes possam ajudar a recuperação mundial e ganhar novos espaços nos centros decisórios.

Mas o que importa mesmo para os organizadores do Fórum é o resultado final, que esperam seja transformador nas mudanças sociais.

Para sublinhar a preocupação, líderes internacionais que fazem parte do Grupo de Questões Globais do Fórum, como Roberto Zoelick, presidente do Banco Mundial, Christine Lagarde, do FMI, e Pascal Lamy, da OMC, soltaram um documento apelando para uma ação conjunta em face dos “significantes e urgentes” desafios que o mundo enfrenta, com ameaças ao seu crescimento e à coesão da sociedade.

Os signatários do documento declaram-se “preocupados” com a desaceleração do crescimento global e aumento da incerteza.

O alto desemprego, especialmente entre a juventude, é uma preocupação central, pelas consequências econômicas e sociais negativas.

A economia, diz o documento, poderia readquirir força apoiando as mudanças que estão em curso nos países emergentes ajudando nas necessidades de infraestrutura em diversas partes do mundo e começando a tornar realidade a promessa de uma “economia verde”.

Para tanto, defendem uma série de medidas, como um sistema aberto e livre de comércio, financiamentos governamentais, com projetos de reformas estruturais, e o combate à desigualdade em todos os países.

Algumas reformas prometidas e nunca realizadas, como a do setor financeiro, e uma renovada cooperação internacional seriam medidas necessárias para a criação de um ambiente propício à recuperação econômica.

O documento cita o Plano de Ação para o crescimento e empregos aprovado em novembro pelo G-20 como uma “sólida fundação” sobre a qual se deve trabalhar.

No curto prazo, para resolver o débito soberano e a crise bancária, seria preciso restaurar a confiança nas instituições financeiras, o que só seria conseguido através de medidas como uma reforma regulatória aceita internacionalmente; recapitalização de bancos onde for necessário; promoção de acesso a capital para pequenos e médios negócios.

Além dos aspectos técnicos para superar a dívida dos países através de ações conjuntas do Banco Central Europeu e outras agências financeiras internacionais, o documento aborda questões políticas essenciais, que interessam especialmente ao Brasil: os países devem se comprometer a não usar métodos protecionistas, assumindo políticas amplas de comércio e financiamento, e também dar exemplos concretos de que as restrições ao comércio introduzidas como resposta à crise serão revertidas.

Com relação ao meio ambiente, o documento defende que a reunião Rio+20 deve ter como objetivo central uma estratégia ampla para o crescimento verde que encoraje inovação e difusão de novas tecnologias, que têm potencial de criar novos empregos.

Publicado por:  Blog do Noblat

As falácias do “poder defensivo”

19 de janeiro de 2012

Carlos Lungarzo

“O ‘martelar’ do discurso militarista não é novo na América Latina. Desde 1828, mais ou menos, Brasil e Argentina concorreram ou se complementaram na tarefa de obter a hegemonia da América do Sul, para pesadelo dos outros países da região”

Em novembro de 2011, numa comissão de parlamentares, o ministro da Defesa, Celso Amorim, saiu em defesa da necessidade de armar o país contra os Estados que cobiçam o petróleo, as florestas e os alimentos brasileiros. Este raciocínio pode ser qualificado de muitas maneiras, mas não de ser original.

No século 19, Napoleão advertia o povo francês sobre a cobiça de todas as monarquias europeias contra a grandeza da França. Já em 1914, o corrupto partido Social Democrata Alemão aprovava os créditos de guerra para o Kaiser, aduzindo que, mesmo que a Alemanha fosse imperialista, a Rússia era muito mais (!). Stalin, cujo maior inimigo era o nazismo, se aliou com este para defender-se de um Estado fraco e paupérrimo como a Polônia, enquanto Hitler advertia sobre o perigo representado pela França, a Inglaterra, os judeus, os ciganos, os gays e os povos eslavos.

Nossos países não quiseram privar-se de participar nestes sangrentos espetáculos de circo: a ditadura argentina (autora de mais de 30.000 assassinatos) conseguiu em 1982 o entusiasta apoio do povo, mostrando como umas míseras ilhas habitadas por menos de 2 mil britânicos havia 150 anos, colocavam em mortal risco a soberania do país. (A ideia dos militares foi boa para a democracia, porque sua derrota apressou sua saída.)

O que, sim, pode ser original no ministro Amorim é a falta de identificação do inimigo. Ele não disse quais seriam, em algum futuro, mesmo remoto, os possíveis candidatos a cobiçar a riqueza brasileira. Ele define sua estratégia como a “construção de um cinturão de paz e boa vontade na América do Sul e de dissuasão para fora do continente”.

Portanto, os países da região não devem estar entre os possíveis cobiçosos. Tampouco pode ser a África, devastada por racismos de todas as nacionalidades. Os grandes territórios com alta população, como a Índia, a China e Rússia, são poderosos “emergentes” que formam o exclusivo clube BRIC e, portanto, não poderiam colocar-se contra seus amigos do oeste. Amorim fez uma ressalva interessante:

“Hoje, estamos fora dos eixos de conflito, mas não posso garantir que isso ocorra no futuro.” Ou seja, o ministro não pretende predizer o futuro, mas mostra um perigo. No entanto, qualquer projeto defensivo com um mínimo de realismo deve imaginar cenários futuros que, se não prováveis, pelo menos sejam possíveis.

Parece ridículo sugerir que o panorama mundial possa mudar tão radicalmente em algumas décadas que o Brasil passe a integrar o conflito de Meio Oriente, ou a participar das crises político-militares asiáticas, ou que a geografia física mude de lugar, colocando o Brasil na fronteira com Israel. O ministro não disse isso, é claro, mas o difuso fantasma da agressão, cuja identidade e percurso não mostra, parece sugerir que tudo pode acontecer se os invejosos de grandeza brasileira se unissem.

Ora, se considerarmos um cenário que tenha um mínimo de factibilidade, os inimigos futuros do Brasil não podem estar muito longe. Quantos séculos deveriam passar para que uma potência asiática pudesse ocupar territorialmente a América do Sul usando armas e navios convencionais, e estabelecer linhas de abastecimento de milhares de quilômetros numa guerra nuclear?

(Se falarmos em armas nucleares, estaríamos em outra hipótese de conflito, que já foi adiantada pelo falecido vice-presidente e repetida até o esgotamento por diversos chefes militares. Mas o ministro da Defesa parece ter o bom critério de não referir-se a isso, pelo menos por enquanto.)

De fato, os únicos que poderiam ameaçar o Brasil (se decidirmos levar a sério o novo apocalipse), são os Estados Unidos e a União Europeia.

A cobiça a que se refere Amorim parece representada em várias manifestações dos Estados Unidos há muitos anos. Por um lado, a referência recorrente à Amazônia, algumas insinuações sobre o subsal (ou “pré-sal” como se diz no Brasil), certo desconforto da Casa Branca pelo aparente “orgulho nacionalista” do Brasil, a fraternidade brasileira (sincera?) com os países que os americanos chamam de “Eixo do Mal”, e outros sintomas isolados.

O discurso populista cívico-militar no Brasil parece interessado em mostrar que o país pode ter sua soberania ameaçada pelos Estados Unidos, apesar da colaboração que existiu sempre entre ambos os Exércitos. Obviamente, ninguém é tão pouco diplomático para dizer isso com todas as letras, mas a advertência está colocada implicitamente. Ninguém reagiu há alguns anos quando o então chanceler ameaçou pequenos países como o Equador e a Bolívia por tentar questionar o saqueio a que foram submetidos por empresas brasileiras. No entanto, é possível que o atual establishment pense que talvez a população apoiasse o crescimento das FFAA, se temesse que os antigos amigos americanos pudessem tornar-se poderosos inimigos.

Segundo Amorim, a sociedade e o Parlamento deveriam entender que as forças armadas são “mais ou menos, como um seguro de vida. Você pode viver 80 anos sem precisar de um, mas sempre pode haver um imprevisto.” (Dito seja de passagem, a comparação suscita algumas dúvidas; se houver algum imprevisto que me obrigasse a usar meu seguro de vida, isso quer dizer que devo estar morto. Talvez o ministro quis dizer “seguro de saúde”.)

Mas as novas declarações dos Estados Unidos nos dias 4 e 5 de janeiro de 2012 modificam um pouco este panorama, caso Amorim tenha pensado nos Estados Unidos como possível “cobiçador”. Com efeito, a prometida redução do orçamento militar americano deve ir acompanhada do direcionamento de parte das verbas restantes para recursos tecnológicos diferentes dos recursos da guerra convencional.

O Pentágono parece querer concentrar-se em robótica, cibernética e inteligência artificial para garantir seu predomínio naval em Oriente. Se o Brasil quiser se defender realmente de uma ação americana, deveria desenvolver armas que neutralizem o uso de instrumentos bélicos de alta tecnologia, os quais, se não excedessem as condições econômicas do país, sem dúvida excederão o conhecimento técnico-científico que o país possui. Ou será que os Estados Unidos venderiam armas cibernéticas ao Brasil para que se defenda dele mesmo?

O “martelar” do discurso militarista não é novo na América Latina. Desde 1828, mais ou menos, Brasil e Argentina concorreram ou se complementaram na tarefa de obter a hegemonia da América do Sul, para pesadelo dos outros países da região, como Paraguai, que nunca se recuperou do extermínio a que foi submetido.

Mas, após a derrota das Falklands/Malvinas, a Argentina perdeu a possibilidade de tornar-se um subimperialismo viável. Portanto, e apesar de todos os protestos de soberania e “altivez” nacional, a Casa Rosada talvez aceitasse a aliança de “boa vontade” proposta por Amorim. Um sério indício é que setores moderadamente fascistas (não me refiro ao nazismo católico, ainda bastante poderoso na Argentina, e dono de uma xenofobia ímpar) cobram do governo atual um maior comedimento com o Brasil. Como o Palácio San Martín não quer surpresas, nestes dias foi aprovada uma lei antiterrorista exigida pelos Estados Unidos.

Enquanto se espera a oportunidade de usar o “seguro de vida”, o Brasil, a Venezuela e a Argentina, usando esta aliança de boa vontade, poderiam fortalecer seus exércitos para reavivar planos de protagonismo castrense na região. Muitos países que hoje são considerados “malditos” e “párias” não seriam desprezíveis para uma aliança oriunda do Terceiro Mundo, especialmente num momento de crise no Primeiro.

Um futuro de reativação bélica nas Américas, que parecia abandonado após Malvinas, não é certamente alentador para países com democracias frágeis, formais, isoladas internacionalmente, e inimigas dos direitos humanos. Por outro lado, também é evidente que a subordinação de qualquer projeto do país ao ritmo de sabres e botas pode ser quase tão nociva como um verdadeiro golpe de Estado.

Publicado por:  Congresso em Foco

O futuro que nós queremos

18 de janeiro de 2012

Fábio Feldmann*

Na semana que passou algumas notícias chamaram atenção: a autorização para entrada de carne suína brasileira nos EUA e, quase simultaneamente, a suspensão da importação de suco de laranja brasileiro por contaminação de um fungicida.

Se de um lado a boa notícia significa a abertura de um mercado enorme para as exportações do país, por outro lado a má notícia traz preocupação pelo fato de que, se o suco de laranja é prejudicial à saúde dos americanos, certamente os mesmos malefícios são previsíveis para os nossos compatriotas.

Há muito tempo enfrentamos barreiras à exportação de produtos brasileiros por motivos dos mais variados, sendo que em situações como a do suco de laranja sempre surge quem diga que se trata apenas de medidas protecionistas com o objetivo de impedir o acesso aos produtos brasileiros. Ponto.

Lembro que na década de 70 se comercializavam, nas prateleiras dos supermercados brasileiros, carnes enlatadas com rótulos em inglês que se introduziam no mercado nacional por não atenderem critérios da legislação americana.

E aqui eram vendidos como de melhor qualidade por serem “produtos de exportação”.

Hoje, no mundo globalizado em que a informação está mais disponível, certamente tal prática é de difícil aceitação por parte dos consumidores nacionais. O próprio setor empresarial brasileiro entende hoje a necessidade de valorizar a certificação de origem e qualidade com o objetivo de alcançar melhor remuneração.

Aliando-se a isso o fato de que as grandes redes de varejo no Brasil também estão “abraçando” a causa da sustentabilidade, existem razões para se supor que os padrões internacionais passem a ser incorporados pelo mercado nacional.

O ambientalismo, por sua vez, “está pagando o preço do seu sucesso”, de acordo com o embaixador André Corrêa do Lago, um dos responsáveis pelas negociações climáticas e da Rio+20.

Concordo inteiramente com esta visão de que o patamar de consciência ambiental hoje é incomparavelmente maior do que há três décadas e que o grande desafio do ambientalismo é como incorporar esse sucesso de modo a avançar concretamente na implementação de uma nova “visão de mundo”.

Na agenda da Rio+20, a ideia de se discutir “uma economia verde” sinaliza, em princípio, nesta direção. Entretanto, o documento inicial divulgado pelas Nações Unidas – The Future We Want – é absolutamente decepcionante, exatamente porque foi incapaz de incorporar o que surgiu de novo no mundo nos últimos anos.

A ideia de termos uma economia que incorpore os novos elementos dessa visão de mundo é o grande desafio, como tem assinalado brilhantemente o economista Ricardo Abramovay em seu documento “Transição para um nova economia”.

E estas preocupações deveriam constar necessariamente da agenda daqueles que planejam a economia brasileira, assegurando que a mesma, na produção de seus bens e serviços e consumo, incorpore estas novas demandas da sociedade.

Infelizmente ainda vemos no Brasil um enorme conservadorismo na compreensão de que há necessidade de o poder público liderar esse processo de tornar a nossa economia mais verde ou sustentável mediante políticas públicas adequadas.

Enfim, há que pensar o futuro que nós queremos com imaginação criativa: é o que está faltando nas discussões da Rio+ 20.

*Fábio Feldmann é Consultor em sustentabilidade

Publicado por:  Brasil Econômico