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Cabeça de juiz

21 de janeiro de 2012

Dora Kramer

Imagine o caro leitor, a prezada leitora qual seria a reação geral diante da notícia de que um alto servidor dos Poderes Executivo ou Legislativo recebeu R$ 150 mil em adiantamento salarial para reformar o apartamento de cobertura danificado pelas chuvas?

Ou se os órgãos de fiscalização constatassem “movimentações atípicas” de mais de R$ 855 milhões nas contas bancárias de parlamentares, ministros, servidores e familiares?

Escândalo, CPI, demissões, cassações (talvez), condenação pública, convocação de protestos via internet, diagnósticos de crise institucional, desmoralização, um bafafá.

Com direito a manifestações do Poder Judiciário na sua condição de guardião da lei e nos últimos tempos muito mais falante e atuante na oratória de combate aos desmandos.

Mas, como esses acontecimentos e muitos outros mais dizem respeito a distorções ocorridas na Justiça, associações de magistrados e excelências de respeitável reputação agem como se contassem entre outras com a prerrogativa inamovível de estar coletiva, definitiva e eternamente acima de qualquer suspeita.

Por mais suspeitas que possam parecer determinadas ocorrências. A partir da criação do Conselho Nacional de Justiça, a despeito da forte reação contrária, foram sendo revelados desvios de conduta em quantidade que chama atenção e inspira cuidados.

A atuação da corregedora Eliana Calmon em sua necessária estridência deu publicidade a fatos que a reação corporativista alega contribuírem para levar a Justiça ao descrédito junto à população.

Neste aspecto, muito mais deletérios são os argumentos de que as investigações do CNJ configuram uma ameaça ao Estado de Direito. Vale para condutas individuais ou para o que se poderia chamar de farra (assim como se faz quando algo semelhante acontece nos outros Poderes) de pagamentos milionários a títulos diversos.

De mesma forma como estatísticos fazem qualquer coisa com números, juristas encontram nas leis justificativas para quaisquer ações e, com base nelas, falam de uma forma que, aos olhos dos comuns, soa como mera defensiva.

A vantagem da corregedora Eliana Calmon é exatamente abordar os problemas do ponto de vista do que é certo ou errado. Óbvio, observada a legalidade.

Imprescindível também não descuidar da preservação da legitimidade dos atos. O caso do juiz citado acima mais pelo que guarda de pitoresco é típico: receber adiantamento para reformar um imóvel pode ser aceitável na iniciativa privada, onde o dono do dinheiro negocia e é de alguma forma compensado. Mas, no setor público qualquer desembolso requer critérios rigorosos.

A começar pela transparência, sempre lembrada pelos magistrados em seus julgamentos, como um dos preceitos constitucionais exigidos à administração pública.

Tempo pior. O ex-deputado federal Talvane Albuquerque (AL) que está sendo julgado como mandante do assassinato de Ceci Cunha em 1998, de quem era suplente, foi cassado pela Câmara no ano seguinte.

Hoje, pela regra de que atos anteriores ao mandato não podem ser objeto de processos de cassação por quebra de decoro parlamentar, não seria importunado por seus pares e, se reeleito como tantos outros, talvez ainda fosse deputado.

Um exemplo, apenas um, mas muito representativo, de como pioraram os critérios de funcionamento do Parlamento. Mal avaliado pelo público, Congresso também tem uma péssima imagem de si na medida em que aceita a convivência com notórios malfeitores.

Tempo melhor. Para o carioca que sempre estranhou certas coisas no panorama social do Rio, é um alento ver a foto do banqueiro do jogo e outros bichos Anísio Abraão no jornal como presidiário, em vez de testemunhar a desfaçatez com que durante anos desfilou sob aplausos do sambódromo como patrono da escola de samba Beija-Flor ou vê-lo paparicado por autoridades e colunistas sociais.

Era um acinte, porém perfeitamente incorporado ao cenário.

Publicado por:  Estadão

Por que é urgente que os Tribunais de Justiça façam a lista das “dívidas” e especifiquem o motivo do pagamento

18 de janeiro de 2012

Reinaldo Azevedo

Se há pessoa que acha que a letra da lei tem de ser seguida, essa pessoa sou eu. Sou tão chato com esse negócio que defendo que o texto seja aplicado ainda que não o considere bom. Pior é transgredir ou ignorar a lei. Assim, se há, de fato, dívidas dos Tribunais de Justiça com os magistrados e servidores, que se criem condições para efetivar o pagamento.

Mas há uma condição necessária: transparência.

“Benefícios atrasados” ou “não pagos” que podem passar do milhão de reais dão o que pensar. Uau! Qualquer coisa que chegue a essa soma já é acúmulo de patrimônio, né? Por isso, o melhor que os Tribunais de Justiça do Brasil inteiro têm a fazer é elaborar a lista dos que têm dinheiro a receber e especificar o valor e a natureza da pendência. Sem isso, fica tudo no escuro.

No Estadão de hoje (publiquei trecho), por exemplo, reportagem de Fausto Macedo informa:

“O presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Ivan Sartori, informou ontem em Brasília que atinge quase metade do orçamento da corte para 2012 o montante pleiteado por seus pares e milhares de servidores a título de créditos atrasados. “São R$ 3 bilhões a nosso ver. Já para associações de servidores são R$ 7 bilhões. (O valor) é relativo a férias (não aproveitadas), fator de atualização monetária, equivalência, licença-prêmio. Tudo isso, coisa devida que ficou lá.” O orçamento do maior tribunal do País para 2012 é de R$ 6,8 bilhões.”

Pois é!

Por que precisamos conhecer a natureza das ditas “dívidas”? Vejam lá aquela expressão em negrito. Ocorre que magistrados NÃO TÊM DIREITO A LICENÇA-PRÊMIO. Em 1995, o Supremo decidiu que todas as vantagens da categoria estão relacionadas na LOMAN (Lei Orgânica da Magistratura Nacional), devidamente recepcionada pela Constituição. E lá não se prevê licença-prêmio. Tanto é assim que, naquela decisão de 1995, o Supremo revogou lei estadual do Rio Grande do Sul, que concedia esse benefício aos juízes.

Está tudo devidamente registrado na Ação Originária 155, de que foram partes o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e um magistrado. Leiam:

“Ementa: – Perante a enumeração exaustiva do art. 69 da Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Lei Complementar n. 35-79), ficaram revogadas as leis estaduais concessivas do direito de licença prêmio ou especial aos magistrados, aos quais, igualmente, não se aplicam as normas que confiram esse mesmo direito aos servidores públicos em geral. Mandado de segurança, por tal fundamento, indeferido.”

Esta ação foi o “leading case” de todas as que se sucederam no STF e consolidaram a jurisprudência sobre a inexistência de licença-prêmio à magistratura. É citada em todas as decisões posteriores. O que chega ao STF é cassado. Todos os ministros têm despachos a respeito. O STF editou uma súmula, avocando competência originária para decidir sobre esta matéria.

Do que se está falando, afinal? É preciso pagar o que se deve. Mas é preciso conhecer a natureza da dívida.

Publicado por:  Blog do Reinaldo Azevedo

Celso Daniel continua assombrando a petralhada

17 de janeiro de 2012

Jorge Serrão*

O espectro do cadáver politicamente insepulto de Celso Daniel volta a assombrar a petralhada. Nunca é por acaso que a mídia amestrada rememora o brutal assassinato, antecedido por muita tortura e sevícias, do ex-prefeito petista de Santo André, no ABC paulista. Tudo retorna à pauta sempre que se deseja acirrar a guerra psicológica contra os petralhas no poder.

O crime político, certamente motivado por problemas de corrupção, completa 10 anos no próximo dia 20 de janeiro (Dia de São Sebastião), sem que as investigações tenham chegado a quem mandou matar aquele que fora o escolhido para comandar a campanha presidencial que levaria Lula à Presidência. Este ano deve acontecer o júri popular de Sérgio Gomes da Silva – o Sombra – que é defendido pelo criminalista Roberto Podval – amigo de José Dirceu (o consultor-presidente paralelo e informal da República Popular do Brazil).

O constante medo da petralhada – que insiste na tosca tese de que o crime foi apenas “comum” – é que surjam, do nada, novidades que elucidem um dos mais abafados casos policiais da história jamais vista deste País de terceiro imundo. A petralhada nega até a morte, mas o Ministério Público sustenta que Daniel foi monstruosamente morto porque descobrira, em sua Prefeitura, um esquema de corrupção para financiar campanhas do PT.

A tese, que coloca o morto na posição de honesto da história, pode ser, em parte, verdadeira. O problema é prová-la. Nos bastidores de inteligência (policial e militar), especula-se que as provas existem e podem vir à tona no momento que for interessante provocar um desgaste fatal ao poder petralha. A única coisa certa – e a petralhada respira aliviada por isto – é que Celso Daniel não retorna do túmulo para contar a verdade.

Mas a petralhda sente um friozinho na espinha porque o irmão de Celso Daniel voltou ao Brasil em outubro. Bruno Daniel estava na França com tratamento de exilado há sete anos. Ele e o outro irmão, João Francisco, sustentam que Daniel foi morto pela corrupção em torno da máquina petralha.

O poder deles é tanto que conseguiram eliminar, judicialmente, os indícios de seu envolvimento no hediondo homicídio. A Justiça considerou ilegal e tornou inútil a decupagem de conversas telefônicas feitas pela Polícia Federal em pessoas próximas a Celso Daniel. As ligações indicavam como José Dirceu e Gilberto Carvalho (amigo e ex-secretário de Celso Daniel na Prefeitura) agiram politicamente para evitar que o caso espirrasse na campanha de Lula.

Até agora, a petralhada saiu vitoriosa na “operação abafa” – que teria contado até com a ajuda da alta cúpula do PSDB, via acordo de não agressão entre Lula e o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso. Mesmo assim, embora remoto, a petralhada ainda se borra nas calças diante do risco de surgirem comprometedoras revelações sobre o crime político. Será que o PT acabará no banco dos réus neste caso? É difícil. Mas nada é impossível…

Por isso, vale uma perguntinha idiota. Será que a Comissão da Verdade teria coragem de apurar o crime de tortura, sevícia e assassinato contra Celso Daniel cometido a mando da ditadura do Governo do Crime Organizado?

*Jorge Serrão é Jornalista, Radialista, Publicitário e Professor. Editor-chefe do blog e podcast Alerta Total: www.alertatotal.net . Especialista em Política, Economia, Administração Pública e Assuntos Estratégicos.

Publicado por:  Alerta Total

Movimentações suspeitas

16 de janeiro de 2012

Luciano Martins Costa  

A crise no Judiciário ganha uma dimensão sem retorno. A revelação de que 3.426 magistrados e servidores realizaram, em dez anos, movimentações bancárias atípicas no montante de R$ 855 milhões coloca o problema em um patamar que trascende a reles disputa entre entidades corporativistas e o correspondente órgão de controle externo.

O que são movimentações atípicas? No geral, são operações de depósito ou retirada de valores que extrapolam em muito a média da conta bancária. Alguns exemplos: em 2002, um personagem relacionado ao Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio de Janeiro, movimentou a quantia de R$ 282,9 milhões. Em 2008, três pessoas, duas ligadas ao Tribunal de Justiça Militar de São Paulo e uma ao Tribunal de Justiça da Bahia, movimentaram R$ 116,5 milhões.

Essa é a origem da controvérsia que opõe o Conselho Nacional de Justiça e entidades representativas do Poder Judiciário e que envolve até o Supremo Tribunal Federal. Como se sabe, duas decisões liminares tomadas no final do ano passado, pelos ministros Marco Aurelio Mello e Ricardo Lewandowski, interromperam investigação do CNJ sobre essas operações suspeitas. A alegação dos autores da ação, dirigentes da Associação Brasileira de Magistrados, era de que teria havido quebra de sigilo fiscal de juizes e funcionários de tribunais.

Os jornais desta sexta-feira, dia 13, colocam uma pedra sobre o argumento da entidade representativa dos magistrados. As movimentações atípicas são um claro indício de irregularidade que precisa ser esclarecido o mais rapidamente possível e com a maior abrangência. Um país democrático não pode funcionar devidamente se os poderes da República não se submeterem ao escrutínio da sociedade.

Se, por princípio, todos os juizes e funcionários do Judiciário devem ser considerados inocentes até prova em contrário, os registros de movimentações financeiras mais do que atípicas – espantosas – exigem que o Conselho Nacional de Justiça retome a investigação, com apoio inequívoco das entidades representativas da Magistratura.

Só assim poderá ser revertido o efeito que o noticiário sobre o assunto está certamente sendo produzido na opinião pública. Afinal, essas movimentações podem ser atípicas e legais.

Se a necessidade de resguardar a independência e a segurança dos operadores da Justiça impõe certos benefícios que podem ser vistos por muita gente como regalias inadmissíveis, a tentativa de blindar o Judiciário e torná-lo imune ao controle externo apenas justifica essa percepção.

Sexta-feira, 13

O mais interessante da notícia que aparece em destaque nos jornais é que a constatação das movimentações multimilionárias foi feita por um organismo que foi criado por inspiração de alguns magistrados. O Coaf – Conselho de Controle de Atividades Financeiras – foi instalado no Ministério da Fazenda com a contribuição de juizes empenhados no combate à lavagem de dinheiro. Faz parte de compromissos assumidos pelo Brasil em acordos internacionais destinados a monitorar as finanças do terrorismo, do crime organizado e da corrupção.

Do total de R$ 855 milhões em transferências atípicas identificadas em contas movimentadas por integrantes do Judiciário, nada menos do que R$ 274,9 milhões foram feitas em dinheiro vivo, entre os anos de 2003 e 2010. Não há hipótese, em um país que se queira considerar sério, que tal constatação fique sem uma explicação oficial e satisfatória, centavo a centavo.

A alegação de que o Conselho Nacional de Justiça teria agido de forma abusiva, desrespeitando o sigilo fiscal de milhares de funcionários e juizes – aceita pelo ministro Lewandowski ao conceder a liminar que interrompe a investigação – fica sem esteios. O que dizem os jornais, sem dissimulações, é que algo de muito estranho – para dizer o mínimo – anda ocorrendo em certos tribunais.

Outra questão – uma aquisição supostamente irregular feita pelo Conselho Nacional de Justiça, notícia claramente plantada na imprensa para confundir a pauta principal – também precisa ser esclarecida. Mesmo que o departamento de compras, o setor de informática ou quem quer que seja, tenha favorecido esta ou aquela empresa, isso não afeta a credibilidade do CNJ no que se refere à sua função principal, a se julgar pela maneira como os jornais isolaram uma notícia da outra. Nada pode desviar as atenções do fato central e esse fato central é a necessidade, mais uma vez comprovada, de que todos os poderes da República precisam ser submetidos a controle externo.

A constatação de que a imprensa age de forma independente, sem se deixar intimidar pelo discurso de figuras poderosas do Judiciário, é um sinal auspicioso. A primeira sexta-feira 13 do ano 2012 – este sobre o qual se repetem profecias apocalíticas – está longe de ser um dia de maus agouros. Talvez seja, sim – para aqueles que a presidente do CNJ, Eliana Calmon, chamou de “bandidos de toga”.

Publicado por:  Observatório da Imprensa

Bezerra e a chuva (de votos)

16 de janeiro de 2012

Guilherme Fiuza

O Senado refrescou Fernando Bezerra porque a perseguição a ele é injusta.

O ministro da Integração Nacional não se afastou um milímetro daquilo que o governo popular espera de seus gestores: não desperdiçar o cargo público para fazer política partidária.

Vejam o caso do ministro da Educação, Fernando Haddad, que atingiu praticamente a perfeição. No momento em que Haddad esvazia as gavetas no ministério para sair candidato a prefeito de São Paulo, estoura o enésimo escândalo do Enem.

O mais novo erro do MEC garfou 880 pontos de um estudante de 17 anos – morador da cidade que o seu algoz quer governar.

A prova de redação da vítima levou nota zero, com a justificativa de que o texto fugiu do tema proposto. A família do aluno só conseguiu o reconhecimento do erro porque foi à Justiça.

A correção de dezenas de provas de redação está sob suspeita. Mas esses alunos não devem se preocupar: basta entrarem com um processo judicial, que o MEC reconhece que fugiu do tema e devolve a nota roubada.

Após três anos consecutivos de pegadinhas do MEC de Fernando Haddad, os candidatos do Enem aprenderam que precisam se preparar melhor. O estudante moderno já sabe que não será ninguém sem um bom advogado.

Nesse meio tempo, o ministro Haddad não fugiu do tema: fez política o tempo todo. Usou o cargo para aparecer na imprensa (com jóias como o natimorto kit gay para a educação infanto-juvenil), fez a campanha presidencial de Dilma Rousseff, tentou se popularizar defendendo livros com erros de português, pavimentou sua candidatura a prefeito.

É um formidável índice de aproveitamento do cargo público com fins privados.

Não é à toa que o ministro Aloísio Mercadante quer herdar sua cadeira no MEC. E tem currículo para isso.

À frente do Ministério de Ciência e tecnologia, Mercadante fez belos comícios na época da tragédia na região serrana do Rio. Era o que bastava, porque acidentes climáticos dessa monta levam anos para se repetir.

Só para implicar com o PT, São Pedro repetiu a dose um ano depois.

Mas o ministro não se omitiu: prometeu aos flagelados em Minas Gerais e no Rio uma “força-tarefa de geólogos”. Alívio geral.

O Brasil precisa entender que esses ministros militantes têm uma agenda cheia demais para ainda terem que bolar programas sérios de infra-estrutura.

O ministro das Cidades, por exemplo, está há meses trabalhando duro para fugir do tema das irregularidades de que é acusado e se segurar no cargo. Não se pode exigir que, além disso, ele ainda faça hora extra com políticas públicas.

Por tudo isso, a perseguição ao ministro da Integração Nacional Fernando Bezerra é injusta. Ao repassar 90% das suas verbas contra enchentes para Pernambuco, ele obedeceu rigorosamente à doutrina do governo popular.

E ela é muito simples: não importa onde a chuva cai, mas onde o eleitor vota.

Os incomodados que se mudem – ou abram o guarda-chuva.

Publicado por:  Época