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O passado e o aprendizado

30 de janeiro de 2012

João Bosco Leal

Constantemente podemos perceber pessoas aflitas, tensas, com algo ocorrido em sua vida. Raramente se lembram que o que já ocorreu não tem mais como ser apagado, já foi. O máximo que podem e devem fazer, é buscar alternativas para solucionar algo que não saiu como esperado e acabou magoando ou prejudicando alguém ou a elas próprias.

É incrível como só com mais experiência e maturidade acabamos percebendo o óbvio, que não devemos nos repreender ou ficarmos tristes com o que ocorreu no passado, se erramos ou erraram conosco, se magoamos ou se fomos magoados, se sofremos ou fizemos sofrer. Nada disso poderá ser alterado, mas se realmente desejarmos, pode ser amenizado, tornar-se menos doloroso para quem quer que seja e servir de exemplo, que poderá impedir novos erros.

Toda experiência vivida, por pior que seja, possui um lado bom, o do aprendizado, infelizmente só aproveitado por aqueles que sempre ouvem e observam, buscando seu crescimento como seres humanos. Analisando o passado, com as experiências alheias é possível perceber atitudes mais ou menos convenientes, que provocaram diferentes resultados, em todas as áreas.

É uma ótima escola, onde podemos aprender muito, sem necessariamente termos que experimentar o que já não deu certo com outros. Entretanto, essa prática constante só é realizada pela minoria, os maduros e humildes, que conseguem, com exemplos passados, errar menos e acertar mais.

Os jovens invariavelmente ridicularizam esse passado, considerando-o uma fonte de informações ultrapassadas, e só com a maturidade perceberão como eles poderiam ter facilitado sua vida, se simplesmente tivessem tido a humildade de, olhando para trás, aprender com o que historicamente ocorreu na humanidade.

A análise histórica nos mostra os bons e os maus exemplos, os erros e acertos cometidos, facilitando nossas escolhas, das ações e atitudes corriqueiras e do caminho a ser seguido com maiores chances de sucesso. Apesar dos novos campos surgidos com as novas tecnologias, a história continua e permanecerá nos ensinando muito, inclusive na área comercial.

Negócios mais ou menos lucrativos já foram exaustivamente tentados, em diferentes países, pontos, climas e para as populações mais variadas, tanto culturalmente como por seu poder aquisitivo, mas ensinamentos óbvios, como o de só procurar vender para quem pode comprar, ainda não foram absorvidos por muitos.

Para nosso crescimento, é necessário, aceitarmos que tudo o que hoje temos e sabemos, devemos a tudo o que as pessoas, há milhões de anos, vem observando, experimentando e testando, nas mais diversas áreas. O que já passou está resolvido, mas se usarmos as experiências vividas como aprendizado, certamente encontraremos lições e exemplos para dúvidas posteriores.

Com a história da humanidade, o passado de outros ou o nosso próprio, aprendemos que amizades, paixões e amores provocam alegrias ou dores, e que quando machucam, não devemos ficar tristes, nos lastimar ou tentar consertar o que já passou, mas procurar não cometer os mesmos erros e continuar tentando, sem nos preocupar com muitos outros que certamente ocorrerão, pois foi com nossas quedas que aprendemos a caminhar.

Os que buscam realizar seus sonhos, tentam, erram, aprendem com os erros e continuam tentando, são os que constroem o mundo.

Aceitar os fatos e ocorrências de nossas vidas como o passado, é o primeiro passo para soluções futuras.

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A corda e a caçamba (ou o desafio de uma potência econômica)

29 de janeiro de 2012

Walter Pinheiro

“É a velha concentração de renda, cauã maior da nossa pobreza: poucos têm muitos, e muitos quase nada têm. Nosso desafio é inverter esse quadro”

A estatística não é uma ciência exata. Suas ilações nem sempre correspondem à verdade dos fatos. Se uma pessoa come dois pães, por exemplo, e outra não come nenhum, “na média” cada uma dessas pessoas teve um pão para se alimentar. Com o PIB de um país, quando diluído por sua população, as coisas não são muito diferentes. Neste caso, o chamado PIB per capita nem sempre reflete a situação real da população em questão.

No Brasil, por exemplo, elevado agora à condição de 6º economia mundial. Com um PIB de 2,5 trilhões de dólares, suplantamos o Reino Unido, cuja produção global está estagnada na casa dos 2,4 trilhões de dólares. Mas dividido por sua população, esse PIB confere aos ingleses uma renda per capita de US$ 39 mil, ao passo que, no caso do Brasil, cada cidadão teria a renda de US$ 13 mil, um terço do que cabe ao cidadão inglês.

O PBI per capita indica a riqueza ou que o país está crescendo, mas não revela como está sendo distribuída essa riqueza. No caso dos ingleses, é indiscutível a superioridade da qualidade de vida em seu país, o que não ocorre evidentemente no Brasil. Na Inglaterra o PIB per capita está mais próximo da realidade, enquanto o nosso, três vezes menor, ainda esconde o profundo quadro de injustiça social que caracteriza nossa sociedade.

Se cada brasileiro vivesse com US$ 13 mil dólares por ano, ou R$ 23,4 mil pelo câmbio de hoje, a situação por aqui estaria às mil maravilhas. Isso representaria uma renda mensal de R$ 1,8 mil com direito a décimo terceiro salário. Três vezes o novo salário mínimo, vigente desde o último dia 1º de janeiro. Estaríamos no melhor do mundo.

Mas a nossa realidade é outra. Como no exemplo do pãozinho, o nosso PIB per capita está reservado a um número de cabeças coroadas que somam bem menos do que a nossa população. É a velha concentração de renda, cauã maior da nossa pobreza: poucos têm muitos, e muitos quase nada têm. Nosso desafio é inverter esse quadro.

Desde que alcançamos, há pouco mais de um mês, o título de sexta maior economia do mundo, nosso ufanismo logo nos remeteu a uma ultrapassagem sobre a França daqui a pouco e não faltaram previsões para em uma ou duas décadas o PIB per capita do Brasil ser igualzinho ao do Reino Unido, de US$ 39 mil. Mas se nada for feito para mudar a realidade atual, de pouco adiantará um PIB per capita até mesmo maior.

Na última década, as políticas de transferência de renda mudaram significativamente o quadro social brasileiro se comparado à pobreza secular que o país vivia. O programa Bolsa Família e a política de ganhos reais para o salário mínimo além de ajudarem na formação de um grande mercado interno tiveram um grande impacto na mobilidade social que o Brasil vem experimentando, com grandes contingentes populacionais ascendendo de classe social.

Mas isso foi, digamos, a emergência que os governos do Partido dos Trabalhadores tiveram de enfrentar desde que chegamos ao poder, em 2003. Foi preciso, muitas vezes, oferecer primeiro o peixe para depois ensinar a pescar. Só se trabalha de barriga cheia.

Arrumada a casa, a próxima etapa deve ter por meta o crescimento econômico, mas com justiça social. Repartindo o bolo enquanto for crescendo. E isso só se faz com investimentos maciços em ciência e tecnologia. Só com o desenvolvimento científico e tecnológico o país será capaz de eliminar as profundas injustiças que marcam a sociedade brasileira.

A caminho do Ministério da Educação, o ministro Aloizio Mercadante sabe muito bem a dificuldade de fazer ciência e tecnologia num país carente de educação básica. Depois de conduzir com tanta competência o MCT, ele sabe melhor que ninguém o que falta para o Brasil deslanchar nessa área. Como no caso do pescador, não adianta o país pretender ser forte e competitivo em C&T se não tiver quadros com educação básica.

O Brasil é hoje um dos maiores mercados do mundo para a indústria automobilística. Mas, a despeito das montadoras estarem presentes há mais de meio século produzindo carros no Brasil, o país não tem ainda uma marca própria. China, Rússia e Índia têm lá suas marcas, o que faz do Brasil o único país dos BRICs a não ter uma indústria automobilística própria, embora tenha mercado maior que os outros.

Esse diferencial só se vence com investimentos em C&T, que por sua vez demandam investimentos no ensino fundamental. A corda e a caçamba. Um não se faz sem o outro, e juntos podem mudar a face de um país, qualificando e valorizando a sua força de trabalho. E trabalhador qualificado é o caminho mais curto para se fazer justiça social.

Publicado por:  Congresso em Foco

Valores

29 de janeiro de 2012

Pinho da Silva *   

 

Falemos de valores. Sim,há valores;

não se contesta, não!…Quem o faria?!

Confessemos, contudo, que, hoje em dia,

há bem menos valores, do que…favores.

 

Em primeiro lugar vem o dinheiro;

em seguida um “canudo”; ar importante;

sempre um livro na mão; roupa elegante;

ou um aspecto jovial e prezenteiro…

 

Eis o que são valores, p’ra certa gente,

quando, afinal, a coisa é bem diferente!

Atalhareis vós: – “Não é assim!…Falta à verdade!…”

 

Não falto, garanto eu!… Ele há senhor

que é muito culto, e muito sabedor

porque… disfarça a sua nulidade.

 

*Pinho da Silva – Vila Nova de Gaia, Portuga

Publicado por:  Paz – Blog Luso Brasileiro

Educação sem ensino

28 de janeiro de 2012

Carlos Henrique Abrão*

O que falta é uma supervisão maior e também a presença do Estado para que a educação seja universalizada e o custo reduzido proporcionalmente.

O febril ambiente estudantil que marcou a última década trouxe, como consequência, dúvida em torno da qualidade do ensino, sua monetarização e, especialmente, a claudicante mão-de-obra, essencial para a infraestrutura do Brasil.

É indesmentível reconhecer que, em matéria educacional, advieram muitas transformações, as quais não corresponderam às expectativas, e as tutelas do Estado de querer permitir que as classes inferiores economicamente tivessem acesso ao ensino superior.

O número de faculdades em funcionamento, independentemente do seu ramo, causa espécie, notadamente na área jurídica, não resistindo a uma parcela mínima de 10% aquelas que representam bom número de corpo docente e efetivo aprendizado pelos alunos.

Conquanto fosse a intenção do governo democratizar o ambiente universitário, fato é que vivenciamos, nos últimos anos, um processo sem volta, no qual a iniciativa privada, a pretexto de cativar o aluno, veio sendo paulatinamente alvo de grandes interesses econômicos, locais e internacionais.

Com efeito, os grandes fundos abocanharam faculdades e universidades e, praticamente cinco deles, os maiores, ritmizam suas políticas, as quais, por certo, proporcionam educação, mas não emblematicamente ensino.

O que falta é uma supervisão maior e também a presença do Estado para que a Educação seja universalizada e o custo reduzido proporcionalmente, na medida das necessidades dos alunos e da extensão territorial do País.

Uma infinidade de cursos, inclusive à distância, sobreveio a partir da propagação da internet, porém os resultados não são auspiciosos, bastando verificar o número de aprovados nos exames seletivos da OAB e também daqueles provenientes do ensino médio.

Falta uma política de planejamento e, mais do que isso, um comprometimento para que tenhamos ensino de qualidade e educação correspondente, a partir da leitura gradual de livros, de professores e de avaliações de cursos.

Ao contrário, as próprias universidades estaduais remuneram de maneira insuficiente os professores, não seguindo a política daquelas federais, enquanto que as particulares reduzem a remuneração e pulverizam as expectativas, salvo raras exceções, da maioria de seus professores.

Este verdadeiro sucateamento do ensino trará consequências sérias para o País e suas gerações, não apenas pela falta de mão-de-obra qualificada, mas também pelo sentimento inflacionário de muitas atividades, as quais passaram a ser vistas em segundo plano diante de novas ambições.

Hoje em dia, com muita dificuldade, torna-se possível conseguir os serviços de uma emprega doméstica e até mesmo de diarista, fenômeno esse comum nos EUA e Europa décadas atrás.

Soma-se à dificuldade o preço cobrado, o que tornará mecanizada e robotizada toda a tarefa doméstica, não apenas pela falta de mão-de-obra, mas pela redução dos espaços dos atuais apartamentos construídos.

Bem digerida essa nova realidade, pretendendo o Brasil ingressar no Primeiro Mundo, cuja economia mostra sinais de fortalecimento, teremos, seguramente, espalhados pelos quatro cantos do País, uma educação em progressão geométrica, porém, em relação ao ensino, a meta aritmética não será alcançada.

Milhões de brasileiros que não economizarão recursos financeiros para as respectivas formações, em breve, terão muitas dificuldades de colocação no mercado de trabalho, principalmente em virtude do número de profissionais e do crescimento em menor ritmo da economia mundial.

Esse filme já conhecemos, muitos profissionais universitários, a exemplo do exterior, terão que se contentar com aquelas profissões menos nobres para as respectivas sobrevivências, colocando em xeque a própria formação e o resultado prático proveniente.

Não se afigura surrealista que o governo e a iniciativa privada, juntos, mapeassem as necessidades do mercado para que fossem fornecidos cursos, notadamente universitários, e caracteristicamente técnicos, em número adequado à lei da oferta e da procura para que, assim, no porvir, houvesse menor desemprego, maior motivação e, fundamentalmente, o ensino fosse a meta principal da diretriz governamental.

*Carlos Henrique Abrão é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo

Publicado por:  Brasil 247

Prosa hermética

28 de janeiro de 2012

Humberto Pinho da Silva*

Ao ler certos textos, ao escutar homilias, ao participar em colóquios literários, fico muitas vezes a pensar, se os leitores ou ouvintes, conseguiram digerir o que se leu ou se disse.

Porque muito que se escreve, no nosso país, está revestido de espessa e rígida couraça, e é opaco como torre de marfim.

O mesmo hermetismo encontra-se nas explanações de professores e infelizmente em práticas de sacerdotes, mais desejosos a esmagarem com o peso do seu saber, do que tornar acessível a matéria espraiada.

Turva-se a água ao usar dicção rebuscada, rodriguinhos, frases obscuras, prosa apocalíptica, no intento a ofuscar e amesquinhar o leitor ou ouvinte.

Citar textos em latim, empregar arcaísmos ou neologismos, para arrancar aplauso, não é digno, a meu ver, de quem escreve ou ensina.

O vulgo, na sua bacoquice, exalta a prosa ilegível e oca, assim como aceita a arte, que não sendo Arte, nada transmite e nada diz.

Como não quer mostrar ignorância, comporta-se como os cidadãos do reino em que o monarca caminhava seminu pelas ruas da capital, e declara enfatuado, sacudindo solenemente a cabeça:

- É bom! …É óptimo! … É excelente! …

Estando em clube portuense a escutar famoso pianista, presenciei o diálogo travado entre dois cavalheiros. Dizia um, idoso, sisudo, esguio como Eça, dentro de bom fato azul-ferrete:

- Você já reparou que quando se ensina filosofia, poucos a entendem; mas se lermos os filósofos – os verdadeiros, – em regra são claros e límpidos como água colhida na fonte!?

Não aceito que os professores de Filosofia sejam sensaborões. Tive um excelente, e era uma delícia ouvi-lo; mas concordo que muitas vezes é mais fácil ler os textos de filósofos, que escutar certos professores e eruditos, a dissertar sobre os mesmos textos.

Há tendência a “turvar a água”, como dizia Nietzsche, a tudo que é didáctico e cultural, “ para que pareça profunda”.

Assim é, porque não se tem coragem de asseverar que não se entendeu, para não se ser julgado de ignorante.

Nunca escutei, da boca de quem saiu do teatro, exposição de Arte ou conferência, que não entendeu patavina.

Do mesmo jeito nunca se diz que não se conhece obra-prima ou que está a ler um clássico; porque o “intelectual” não lê mestre de literatura, releu-o.

Conhecendo a psicologia das massas, certos escritores, mormente novatos, “turvam” a prosa, enxameiam-na de palavras inúteis, citações em língua estranha, introduzindo, a cada passo, siglas, neologismos e termos técnicos e, ao tornarem-se obscuros, o vulgo louva-os e considera-os excepcionais.

Assim vai o mundo, enganando-nos uns aos outros, e rindo-se dos mais simples. 

*Humberto Pinho da Silva – Porto, Portugal

Publicadso por:  Paz – Blog Luso Brasileiro