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A liberação do poder criativo humano

11 de fevereiro de 2013

Regina Diniz *

Poder Criativo“Analisando Tolstoy, Baudelaire, Marx ou Kroppotkin, constataram que eles tinham um conceito religioso e moral do homem. O homem é um fim, jamais devendo ser usado como um meio; a produção material deve servir ao homem, este jamais deverá servi-la; o objetivo da vida é a liberação do poder criador do homem; o objetivo da História é a transformação da sociedade em coisa governada pela Justiça e pela Verdade, estes os princípios em que se basearam, explicitamente, todas as críticas ao capitalismo moderno”. (Autor: Erich Fromm – Livro: Psicanálise da Sociedade Contemporânea – 9ª. Edição – Zahar Editores – Rio de Janeiro – 1979).

No século XIX, os homens de visão identificaram o processo de decadência e desumanização por trás dos encantos, da prosperidade e poder político da sociedade ocidental. Alguns deles se mostraram resignados com a necessidade dessa marcha para o barbarismo, outros enunciaram algumas alternativas. Mas com esta ou aquela atitude, sua crítica se baseou um conceito humanista de homem e sociedade. Criticando a sua própria sociedade, eles a transcenderam. Não foram relativistas a dizer que, enquanto a sociedade funciona, ela é equilibrada e sadia, e que enquanto o indivíduo está ajustado à sua sociedade ele é equilibrado e sadio.

A razão maior da existência homem é desenvolver o sua introspecção, para evoluir e se tornar em humanidade saudável e construtiva. Todos os processos civilizatórios procuraram conquistar a tão almejada harmonia com ele próprio e com seus semelhantes. Através de buscas intermináveis o capitalismo, o poder econômico reconhecerá, que nenhum ser humano poderá prosperar sem liberdade e educação. Quando admitirmos o seu princípio e base criadora, incentivaremos em todos os graus possíveis as suas potencialidades.

A ficção da igualdade de oportunidades deixou de ter suficiente fundamento para alcançar o consenso social. Em um mundo imprevisível e em rápida transformação, um mundo de mobilidade social para baixo, rebelião social e crônica crise econômica, política e militar, as autoridades deixaram de servir efetivamente como modelos e guardiões. As suas ordens perderam a persuasão. O lado pedagógico, protetor e benevolente da autoridade social e paterna não mais temperam a sua face punitiva. Sob tais condições, nada se ganhará pregando contra o hedonismo e a auto-indulgência”. (Autor: Cristopher Lasch – Livro: O Mínimo Eu – Sobrevivência Psíquica em tempos difíceis – 4ª. Edição – Editora Brasiliense – 1987).

Atualmente, a nossa sociedade necessita de iluminação ética. É prioritário o investimento que privilegie pessoas com força interior, capazes de sugerirem juízos morais entre a grande variedade de escolhas disponíveis, e não de indivíduos que se comportam como escravos, que acatam as ordens, e se adaptam sem refletir nos dogmas morais propagados. É bom lembrar, que a essência da tradição liberal e humanista, com seu respeito pela inteligência humana e pela capacidade de auto-regulamentação é possível. A política e a filosofia moral sempre reconheceram que a consciência não se funda no medo, mas no alicerce emocional muito mais sólido da lealdade e da gratidão. Precisamos prover a segurança e a proteção inspiradoras de confiança, respeito e admiração.

Para apreciarmos a realidade cultural contemporânea são imprescindíveis decifrar as distensões tradicionais entre esquerda e direita, liberalismo e conservadorismo, políticas reformistas, progressistas e reacionárias, que se desmoronaram face às novas questões relativas à tecnologia, ao consumo, aos direitos da mulher, à deterioração ambiental, e muitas outras questões para as quais ninguém dispõe de respostas. Os indivíduos que ocupam posições de liderança moral obteriam êxito, se ensinassem as habilidades da sobrevivência, cultuando a esperança de que a engenhosidade, a persistência emocional, a força interior possam habilitar as gerações mais jovens a suportar e ultrapassar as tempestades do futuro. As sociedades pluralistas, dinâmicas e democratas devem construir a sua sabedoria moral no presente.

“O meu grupo principal de hipóteses é que os chamados valores superiores, valores eternos etc… são aproximadamente, o que apuramos como livres escolhas, na boa situação, daquelas pessoas a quem chamamos relativamente sadias (maduras, evoluídas, auto-realizadas, etc…), quando se sentem no auge de sua forma e vigor. Ou, para usarmos palavras mais descritivas, tais pessoas, quando se sentem fortes, se realmente for possível uma livre escolha, tendem espontaneamente para escolher o verdadeiro e não o falso, o bem e não o mal, a beleza e não a fealdade, a integração e não a dissociação, a alegria e não a tristeza, a vivacidade e não a apatia, a singularidade e não o estereótipo, e assim por diante, para o que já descrevi como S-Valores” (Autor: Abraham H. Maslow – Livro: Introdução à Psicologia do Ser – Livraria Eldorado Tijuca Ltda – Rio de Janeiro – 2ª Edição).

As tendências para escolherem os valores sadios são notadas, levemente na maior parte dos seres humanos, mas são vistos com mais clareza e vigor nas pessoas sadias. Em nossos tempos, padronizou-se e deslegitimou-se a ética, porque as pessoas não são estimuladas a se lançarem na busca de idéias morais e a cultivar valores morais. Os políticos, impensadamente dispensaram as utopias e os idealistas tornaram-se pragmáticos, aceitando as formalidades da boa sociedade.

Foi comprovado que as pessoas sadias apreciam e valorizam não só a verdade, o bem e o belo, mas também os valores de sobrevivência e também os homeostáticos da paz e da quietude, do sono e do repouso, da dependência e segurança. Quanto mais saudável, mais forte, e sadia for a pessoa, mais ela procurará os valores de crescimento pessoal. Os grandes temas da ética como: Direitos Humanos – Justiça Social – Equilíbrio entre cooperação pacífica e auto-afirmação pessoal – sincronização da conduta individual e do bem-estar coletivo, não perderam nada de sua atualidade. Apenas precisam ser vistos e tratados de maneira nova.

“O homem é o ser que consegue ser consciente e, portanto responsável por sua própria existência. É esta capacidade de tornar-se consciente do próprio ser que distingue o ser humano dos outros seres. O homem é considerado não somente como um ser “existente em si próprio” como os demais seres, mas também “existente para si próprio., e que significa “a pessoa-que-é-responsável-por sua própria-escolha-existencial”. Ser é a potencialidade pela qual a semente se torna uma árvore ou cada um de nós se torna aquilo que realmente é”. (Autor: Rollo May – Livro: A Descoberta do Ser – Editora Rocco – Rio de Janeiro – 1988).

O sentimento de ser cria uma base para a auto-estima, que não é somente o reflexo das opiniões alheias sobre o indivíduo. Os nossos dons são parcialmente descobertos por nós dentro de nós próprios. E também são criados e escolhidos pela própria pessoa. Quase todas as necessidades, capacidades e talentos podem ser satisfeitos de diversas maneiras. A procura da identidade é essencialmente, uma busca dos valores intrínsecos e autênticos da própria pessoa.

Paul Tillich afirma: “A auto-afirmação de um ser fica mais forte à medida que ele absorve mais o não-ser”. O autoconhecimento ou conhecimento de si é a finalidade de uma busca ética. O mundo é um padrão dinâmico no qual desde o momento em que possui autoconsciência, está em processo de planejar e projetar. A existência humana contém não somente numerosas possibilidades de ser como também e, principalmente está fundamentada nessa potencialidade múltipla de ser. Visto como um projeto ético, o que se busca é a realização de algo que leve o sujeito a ser mestre de si mesmo, e, conseqüentemente um ser humano melhor. 

*Lúcia Regina Diniz Trindade é palestrante, graduada em Literatura e Filosofia e mora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Publicado por:  Debates Culturais

 

Economia carnavalesca

6 de fevereiro de 2013

Antonio Teodoro 

Antonio Teodoro 01Mais um ano em que o Brasil aparentemente espera o Carnaval passar para que as coisas enfim deslanchem. O nível de atividade econômica continua com o freio de mão puxado, exceto pelo setor automotivo que ainda não enxergou paralisia nas taxas de crescimento de vendas.

É verdade que a continuidade dos altos níveis de vendas está ligada ao incentivo federal, mas deve-se reconhecer os esforços das montadoras para manter seus produtos e produção em níveis compatíveis com a atual realidade. Disputas sindicais, demissões, reações e contra argumentações fazem parte do jogo.

Porém, o setor industrial como um todo, comprovou o processo de desindustrialização ocorrido em 2012, com queda acentuada no nível de produção das indústrias de bens de capitais.

Com um nível de desemprego muito abaixo das marcas historicamente atingidas pelo Brasil, espera-se que o brasileiro aproveite as oportunidades de descanso e relaxamento neste feriadão. Para outros, é um momento de extravasar as energias e buscar as folias e blocos por todo o país. Há ainda aqueles que fazem deste momento, um retiro espiritual.

Em todas as opções, sejam ela de busca agito ou calmaria, o que permeará as tomadas de decisão de quão distante estaremos de nossas casas é a forma como está o bolso de cada folião ou fiel.

De todas as formas, a economia do turismo será movimentada, e a geração de valor deixará uma expansão de capital em todas as formas, desde a alocação de recursos na prestação de serviço de hospedagem até as afamadas revisões nos veículos antes de se pegar estrada. Os aeroportos também passarão por uma nova prova, verificando se conseguimos aprimorar o modelo de gestão.

Tratando-se de folia, o dinheiro parece não ter fim para àqueles que escolheram passar o carnaval no Rio de Janeiro. As tarifas hoteleiras da cidade maravilhosa atingem seus níveis mais altos, e a suas taxas de ocupação passam dos 90%. Turistas vindos de todas as regiões brasileiras acabam se misturando aos gringos de outrem, sempre em busca de diversão, seja nos blocos ou nas escolas de samba.

Além de diversão, deixam ali dólares, euros, reais, libras. Tudo envolto a uma economia turística, com característica carnavalesca.

Neste ano, em especial, a Marquês de Sapucaí tratará de temas mais ligados a economia do que os enredos normalmente apresentados, e revela assim outro ponto importante na forma como as escolas de samba estão entrando no intricado jogo econômico.

As agremiações, que para mim são verdadeiras entidades culturais de promoção nacional, muito em função de suas ações positivas ligadas a comunidade em que integram, buscaram recursos junto à iniciativa privada e agentes de promoção institucionais. Basf, Revista Caras, Alemanha, Coréia do Sul, Associação de Criadores de Cavalos, Cuiabá, Rock in Rio são alguns dos temas patrocinados que desfilarão pelo sambódromo carioca.

Dependentes de recursos vultosos para que o espetáculo mantenha-se no alto nível, as escolas buscaram nestes parceiros apoio institucional para desenvolverem seus enredos. Em média, uma escola de alto nível, que busca disputar o título, investe cerca de 10 a 12 milhões de reais. Muitos torcem o nariz pela cifra investida, porém, esquece-se dos empregos gerados ao longo de todo o ano em suas comunidades no desenvolvimento dos temas.

Deve-se sublinhar ainda o custeio dos projetos sociais desenvolvidos pela grande maioria das escolas em suas comunidades precisam obter captação contínua, e não apenas nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro, que são os meses onde a atividade carnavalesca aumenta o ritmo.

Ressalta-se que as escolas passam por uma reengenharia operacional, distanciando-se do patronato e buscando a profissionalização de sua gestão, tornando-as verdadeiras máquinas de atração turísticas, culturais e mantendo a economia do turismo sempre aquecida.

Além do carnaval carioca, os destinos turísticos para descanso e reclusão também não podem ser esquecidos na movimentada economia do Arlequim. Os retiros espirituais movimentam caravanas de fieis que cruzam longas distâncias para encontrarem em chácaras, fazendas e outros locais num ambiente perfeito para reforçar a fé.

Outros embrenham-se pelas praias e o litoral brasileiro, curtindo o sol que as vezes teima em não aparecer. Já alguns acabam pipocando nos blocos e trios elétricos, deixando por ali seu capital tão importante para o giro da economia e a integração das regiões.

Assim, mesmo sendo o Rio de Janeiro como referencial do potencial turístico nacional, não podemos desprezar a força do carnaval em suas diversas formas como motor da economia turística. Gostando ou não, devemos respeitar a capacidade de movimentar a economia nacional.

Para aqueles que irão permanecer em casa e buscam uma boa leitura, recomendo o livro Rápido e Devagar – Duas formas de pensar de Daniel Kahneman. Para os foliões que gostam de carnaval e também apreciam um bom livro, indico o livro As Três Irmãs, que conta um pouco da história das escolas Beija-Flor, Mocidade e Imperatriz.

Publicado por:  Brasil 247

 

As curvas da reta

1 de fevereiro de 2013

João Bosco Leal

CaminhosHá aproximadamente cinco décadas, as drogas, lícitas ou não, estão sendo utilizadas por jovens, pilares de sustentação da sociedade, seu futuro. Como resultado, atualmente no mundo, milhões de pessoas de uma a seis décadas de vida estão envolvidas drogas.

Grande parte da sociedade, principalmente a classe mais abastada financeiramente, passou a fazer vista grossa ou achar normal a utilização das mesmas em festas fechadas de boates, clubes ou residências.

Diante dessa facilidade, admissão e permissividade, muitos que nunca as haviam experimentado acabam cedendo e as experimentam. Alguns ficam somente nessa experiência, mas a grande maioria acaba se viciando.

O mesmo ocorre com as bebidas alcoólicas que atualmente são utilizadas por pessoas cada vez mais jovens ou até antes da sua juventude. Pode até parecer algo sem muita importância, mas não é principalmente porque, elas ainda não possuem sequer seus órgãos digestivos e filtrantes naturais totalmente desenvolvidos.

Essas crianças ou jovens certamente terão uma vida menos saudável e, como continuarão bebendo, abrirão também as possibilidades para novas experiências, como as drogas ilegais, cuja utilização leva pessoas honestas e muitas vezes socialmente bem posicionadas, para o caminho da ilegalidade.

E esse tipo de comportamento leva a outros também não socialmente apropriados, como as mentiras, primeiro para esconder a utilização das mesmas e depois para enganar a si própria, quando tenta buscar explicações e desculpas, ou até menciona orientação médica para seu uso, como a de que uma taça de vinho ao dia faz bem.

Realmente sempre se ouve dizer que essa taça diária faz bem, mas quem a pronuncia normalmente não bebe somente uma taça. São pessoas que passam a sentir necessidade do uso diário de alguma bebida e, quando o organismo já sente essa falta, como também a do cigarro, ela pode até tentar mentir para si própria, mas no fundo sabe que já é uma viciada.

As drogas, lícitas ou ilícitas viciam, e mesmo quando esse vício é de um medicamento clinicamente indicado para determinada ocasião, não se consegue abandoná-lo sem uma ajuda médica, que, sabendo como age a droga, provavelmente também saberá qual o processo menos doloroso para o abandono de seu vício.

A vida é como uma escada, ou uma estrada com várias ramificações, desvios. Podemos subir, descer, permanecer na mesma altura, virar a direita, à esquerda, fazer o contorno ou seguir em frente. A escolha é pessoal, mas os resultados, as consequências, serão diferentes diante de cada escolha.

Entretanto, ela é tão bela que, quando percebemos que a escolha realizada não foi a melhor, normalmente ainda temos uma chance de voltar e recomeçar a escalada ou o caminho. Quem fez uma curva quando deveria seguir por uma reta, só precisa ter a humildade de reconhecer o erro e a vontade de querer acertar.

Através da verdade, aquele que errou o caminho, mas reconheceu esse erro e buscou ajuda, conseguirá novas oportunidades.

Sempre haverá parentes, amigos, namorados ou qualquer outra pessoa, muitas vezes até uma desconhecida, disposta a nos ajudar em uma nova tentativa de escolha.

Em todas as áreas, o passo mais importante é reconhecer os erros e retomar o caminho.

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Chegar e partir

30 de janeiro de 2013

Renata Iacovino

TeatroChegar e partir, esse é o ritmo da vida, já protagonizado por Fernando Brant, na música (parceria com Milton Nascimento) intitulada Encontros e Despedidas.

O vai e vem é a metáfora de morte e vida. Como escreveu Dolores Duran na canção Olha o Tempo Passando, “a vida acaba um pouco todo dia”, pensamento disseminado em inúmeros outros contextos artísticos, religiosos e filosóficos. Assim, a efemeridade é mais do que uma sensação, mas uma constatação palpável e passível de identificação no campo prático.

Somos autores e atores de micro-histórias que, se por um lado já estão escritas, por outro, dependem de nossa interferência, nosso livre-arbítrio, para serem cumpridas… ou não.

Mas, o amanhã já é hoje e o hoje já é ontem. Como alcançar o que está à nossa frente, o inatingível?

“Quando se vê, já são seis horas!/Quando se vê, já é sexta-feira!/Quando se vê, já é natal…/Quando se vê, já terminou o ano…/Quando se vê perdemos o amor da nossa vida./Quando se vê passaram 50 anos!”, quando se vê, a morte chegou.

Mário Quintana é poeticamente enfático: “A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.” 

Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.” Oportunidade imperdível para nós, passageiros do século XXI!

Aparentemente, todas as vagas que temos, hoje, são para nada. Para o nada. Nossa concentração contemporânea é tão estéril que busca, via radar, algo que não inclua esforço, que dispense algum conteúdo, minimalista que seja.

Para quem sofre de necessidades maiores, estes versos tocam fundo: “E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo./Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.”

Medo de ser feliz… e quem lida com felicidade hoje em dia? Tal palavra está se tornando quase um vocábulo de museu, um traço obsoleto.

Parece-me que, atualmente, tudo se divide em dois aspectos: o que tem sabor e não possui nutrientes, e o que aparentemente não contém quase sabor, mas nos leva a uma vida mais saudável.

Podemos dividir as pessoas dessa forma… Lê-las e decifrá-las por meio de tais códigos: aqueles que optam pela primeira alternativa – a do artificialismo, do individualismo e da megalomania – e as que se inclinam pela segunda opção – a da busca de alternativas, da resistência e da fuga da alienação.

*Renata Iacovino, escritora, poetisa e cantora, reiacovino@uol.com.br

Publicado originalmente por:  PAZ – Blogue luso-brasileiro

Publicado por:  Debates Culturais

 

Princípios básicos

18 de janeiro de 2013

João Bosco Leal

Corrupção 15Alguns princípios como moral, ética, caráter e honestidade são fundamentais para a convivência social, e todos, de qualquer nível social ou educacional, mesmo os que jamais foram a uma escola ou que cresceram órfãos possuem conhecimento da maioria destes.

Sabem que não podem ser imorais, sem ética, roubar ou cometer qualquer tipo de crime, mas em nosso país isso não ocorre, pois mesmo buscando mais informações e pesquisando sobre o significado de cada uma dessas palavras, nada encontrei além do que todos sabem, ou deveriam saber.

A moral é conjunto de normas do que é certo ou errado, proibido e permitido nas atitudes humanas dentro de uma determinada sociedade, uma cultura, e possui caráter normativo, determinando a obediência a costumes e hábitos recebidos. O conjunto de qualidades e defeitos da pessoa determinam sua conduta e moral. Seus valores e firmeza morais definem a coerência de suas ações.

A ética, construída por uma sociedade com base nos valores históricos e culturais, é um conjunto de princípios morais que norteiam a conduta humana na sociedade. Embora não seja uma lei, a ética está relacionada com o sentimento de justiça social e, buscando fundamentar as ações morais exclusivamente pela razão, serve para que haja um equilíbrio entre pessoas, grupos e classes sociais.

O caráter, qualidade inerente a uma pessoa desde seu nascimento e reflete seu modo de ser. É o conjunto de características e traços particulares que caracterizam um indivíduo, e não sofre influência do meio. Uma pessoa “de caráter” é aquela com formação moral sólida e incontestável, enquanto a “sem caráter” é aquela desonesta, que não possui firmeza de princípios ou moral.

A honestidade é a qualidade de ser verdadeiro, não mentir, não fraudar ou enganar. É a honra, de uma pessoa ou instituição. O respeito e a obediência incondicional às regras morais existentesHonesto é o que repudia a malandragem, a esperteza, aquele que é transparente e exige transparência dos outros.

Depois da constatação dessa veracidade literária, espelho do meu entendimento, me pergunto o que levou nosso país à condição hoje existente, onde nenhum desses princípios é respeitado, principalmente pelos que deviam dar exemplos, e, convivendo nessas condições é que as novas gerações estão sendo educadas.

No chamado julgamento do mensalão, pudemos assistir a perplexidade de toda uma nação, ao assistir um dos ministros, o relator Joaquim Barbosa, simplesmente exercitar esses quatro princípios, simplesmente porque há anos não vê nada semelhante acontecer. No caso específico, o que seria normal passou a ser o anormal.

Com todas as provas existentes, mesmo as melhores e mais caras bancas de advogados do país não conseguiu absolvê-los e ainda assim alguns dos condenados se acham no direito de fazer reclamações a cortes internacionais, como se injustiçados fossem.

Segundo a Wikipédia, “vergonha é uma condição psicológica e uma forma de controle religioso, político, judicial e social, consistindo de ideias, estados emocionais, estados fisiológicos e um conjunto de comportamentos, induzidos pelo conhecimento ou consciência de desonra, desgraça ou condenação”.

Pois é o que menos possuem alguns membros do Poder Legislativo que, mesmo após a condenação de alguns de seus pares nesse caso, pretende impedir a cassação imediata de seus mandatos.

O terapeuta John Brad Shaw conceitua a vergonha como a “emoção que nos deixa saber que somos finitos“.

Pela primeira vez em décadas assistimos alguns dos mais influentes políticos do país perceberem que são finitos, exatamente por não terem tido vergonha, moral, ética, caráter e honestidade. 

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Recomeços

10 de janeiro de 2013

João Bosco Leal

Banco Central do BrasilDepois de alguns meses sem escrever, encontrei um motivo para recomeçar. Uma visita a um amigo de longa data me fez refletir sobre nossas atitudes durante a vida.

Extremamente educado, trabalhador, bom pai e marido, sempre zelou por seu comportamento ético e moral em sua profissão, seus negócios e diante de toda a sociedade, tanto que minha visita tinha como finalidade, além de revê-lo, de me aconselhar comercialmente com o mesmo.

Como não conversávamos em particular há tempos, ouvi uma história de dificuldades financeiras, causadas por um contrato assinado com um banco – onde as entrelinhas diziam coisas diferentes do que entendera -, e o prejudicara muito, fazendo com que tivesse de se desfazer de vários bens adquiridos com sacrifício durante décadas, para honrar seus compromissos comerciais.

Antes de chegar a esse ponto, quando percebeu a dificuldade que o contrato o levaria, contou que procurou o banco na tentativa de realizar algum tipo de negociação que lhe permitisse saldar seu compromisso com maior prazo, pagando os juros e dando garantias, mas sem a necessidade de se desfazer de patrimônio.

Tendo suas solicitações negadas, perguntou ao gerente se sua história como cliente durante todo aquele tempo de nada valia, e ouviu que, para o banco, histórias comportamentais não existiam e o que importava era o “de agora em diante”.

Na conversa pude perceber o quanto essas palavras surpreenderam aquele homem que, por sempre ter sido honesto, esperava que isso de algo lhe valesse em um momento de dificuldade. Era inacreditável para ele que naquele momento fosse tratado por um gerente e um banco que o conheciam há décadas, em igualdade de condições dos que sempre foram desonestos.

Após ouvir seu relato, pensei em como o mundo tem sido cruel com os homens de bem. A concessão de crédito no sistema bancário ou no comércio trata todos os tomadores de empréstimos como maus pagadores e, pelo risco de não receberem, cobram de todos os juros que todos conhecem. Com a informatização, todos eles possuem acesso às listas dos maus pagadores e recentemente também dos bons, mas os juros cobrados são os mesmos.

Sempre soube que um mau negócio poderia levar o mais poderoso dos homens a enfrentar enormes dificuldades ou mesmo liquidá-lo financeiramente, mas durante a vida observei que os que passam por dificuldades sem se distanciar da honestidade, conseguem se reerguer, e normalmente, agora em bases mais sólidas.

Entretanto, com esse comportamento, os banqueiros e comerciantes estão destruindo exatamente aqueles para quem poderiam conceder crédito com riscos muito menores, criando, para eles mesmos, maiores dificuldades futuras.

Mas não são somente os banqueiros e comerciantes que poderão determinar o futuro de alguém que em determinado momento realizou um mau negócio. Outras pessoas, entidades, empresas e organizações continuam buscando caráter e honestidade em seus pares.

Creio, sinceramente, que os maiores bens a serem buscados não são os financeiros e materiais, mas a dignidade e a honra.

Um grande homem não é o que consegue derrubar os outros, mas o que, a cada queda, se levanta sabendo mais.

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Momento oportuno

3 de agosto de 2012

Rogério Mori*

O ritmo em que se encontra a atividade econômica e a tendência de baixa da inflação acumulada em 12 meses permite que o BC reduza a meta da Selic. A ausência de riscos de elevação da inflação mais adiante, com desvios significativos em relação à meta estabelecida, sanciona esse quadro favorável. 

Nesse contexto, a remuneração das aplicações em renda fixa também cai. A taxa de juros do CDI de um dia, que é o referencial da indústria da renda fixa no país, acompanha a evolução da taxa Selic e, por isso, a rentabilidade de fundos e CDBs atrelados a esse referencial tem caído nos últimos meses.

Logicamente, há algumas implicações diretas ao mercado financeiro: investidores acostumados a obterem elevada renda das suas aplicações sem correr risco algum se defrontam com um novo paradigma: onde alocar investimentos que não rendem mais como há algum tempo?

As alterações promovidas sobre a poupança já deram cabo de uma alternativa possível nesse dilema. Com a redução da Selic a patamares nunca verificados desde a implementação do Real, a poupança despontava como uma alternativa a manter a rentabilidade de aplicações em renda fixa em níveis razoáveis sem incorrer em maiores riscos.

As mudanças recentes do governo sobre essa aplicação eliminaram sua vantagem relativa e o investidor não encontra uma vantagem maior neste momento.

Com isso, o Brasil vai lentamente migrando para um regime civilizado em termos de investimentos, à medida que maiores retornos sobre aplicações começam a ser associados a maiores riscos, resgatando a clássica relação risco/retorno, tão bem conhecida em finanças.

Aos poucos, o país está deixando de ser uma anomalia financeira, onde era possível obter altíssimos retornos com pouco ou nenhum risco.

Os desdobramentos desse fenômeno são múltiplos e ainda não inteiramente explorados. Do ponto de vista financeiro, esse processo potencializa e fortalece o desenvolvimento do mercado de capitais.

Vale lembrar que esse segmento permaneceu extremamente atrofiado em função das elevadas taxas de juros praticadas por anos. A ampliação desse mercado permite sua sofisticação e representa um importante vetor de desenvolvimento para o setor privado.

No que se refere à indústria de renda fixa, existe um mercado potencial ainda não inteiramente explorado, com a criação de fundos e produtos que permitam uma rentabilidade maior, mas que obriguem o investidor a deixar seus recursos travados nessas aplicações por um período

Com isso, os gestores de fundos teriam mais margem para elaborar estratégias sem se preocuparem com o imediatismo imposto pela liquidez diária com rentabilidade atrelada ao DI de um dia. Do ponto de vista macroeconômico, os benefícios seriam consideráveis.

Com a queda da Selic e sua desvinculação das aplicações de renda fixa, o Tesouro poderia emitir papéis pré-fixados com prazos longos e taxas razoáveis, diminuindo o próprio risco da dívida pública. Ao mesmo tempo, a política monetária teria sua eficiência ampliada em função dessa mudança na composição da dívida pública.

Tudo indica que o BC deverá prosseguir com a redução dos juros nos próximos meses. Com isso, esse processo virtuoso do ponto de vista financeiro deve se cristalizar ainda mais.

*Rogerio Mori é professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas

Publicado por:  Brasil Econômico

 

As mães e suas crias

30 de julho de 2012

João Bosco Leal

Tanto entre os humanos quanto entre os animais, existem mães e mães. Entre nós há as que trabalham e as que não, as que bebem, usam drogas, são prostitutas, não se respeitam, mas mesmo estas merecem e normalmente são respeitadas por seus filhos.

No mundo animal, há vacas que protegem suas crias de qualquer um, que lutam desesperadamente contra quaisquer predadores para não perder sua cria, e as que simplesmente observam a mesma ser devorada por outros animais.

Outras que abandonam seus bezerros logo ao nascer, deixando-os à própria sorte, os chamados “guachos”, que, se encontrados a tempo por um humano, muitas vezes tornam-se mais fortes do que seus contemporâneos, mesmo tendo crescido sem nenhum “afago” materno.

As galinhas cobrem com as asas os pintinhos recém-nascidos, para que não sejam devorados por gaviões e para que não sofram com a chuva e o frio. Existem, porém, aves que raramente chocam o próprio ovo, como as galinhas d’angola, os marrecos e outras, que por esse motivo, são de difícil procriação.

Entre os suínos e caninos, o filhote que, desde os primeiros momentos de vida, tendo que disputar as tetas com os irmãos, se esforça para mamar mais e fica cada dia mais forte que seus irmãos, que não se esforçaram, e por isso ficam cada vez mais fracos.

Algumas mães, entretanto, suprem seus filhos de todas as necessidades que estejam ao seu alcance, mesmo quando o “filhinho” ou a “filhinha” já são adultos, mas assim como nos animais, essa superproteção cria um ser fraco, que por nunca haver lutado por nada, quando essa mãe não estiver mais presente, terá muitas dificuldades para sobreviver num mundo onde há disputas por tudo.

Ao contrário de ajudar, elas proporcionaram um enorme prejuízo a esses filhos, que sempre perderão, em todos os sentidos, para os que cresceram fortes por terem tido de buscar, sem ajuda, o que necessitavam.

No entanto, sem sua proteção e tendo que buscar seu próprio sustento e programar seu futuro sabendo que nada mais será ganho, aprenderá, ainda que tardiamente, assim como aquele filho ou filha que foi desamparado, mal tratado, abandonado e até mesmo desprezado por essa mãe, que por ter lutado sozinho por sua sobrevivência e aprendizado, tornou-se um adulto mais forte e para ele nada mudará quando essa mãe partir.

Por isso e por mais que seja dolorido, assim como ocorre em todo o reino animal, em determinado momento as mães necessitam desmamar seus filhos, pois aquelas que contrariando a natureza, escolhem dar proteção a um filho normalmente fracassam em seu sonho, e fazem fracassar o filho protegido.

Perceber esse erro, certamente gera uma enorme sensação de fracasso na mãe para a qual seu filho protegido obteria somente sucessos, e essa descoberta normalmente provoca um distanciamento cada vez maior desta mãe com o filho que ela desprezou e que hoje é um forte.

Os que lutaram com suas próprias mãos, certamente criarão seus filhos assim, dando-lhes amor, carinho e apoio, mas ensinando-lhes a buscar seu lugar ao sol com seu próprio esforço, pois o mundo não passará a mão na cabeça de ninguém, quando não tiverem mais a retaguarda dos pais.

E quando a grande maioria fizer o mesmo, nascerá uma nova geração de homens e mulheres fortes, que construirão o futuro de um grande país, deixando de lado e para trás os fracos que criaram filhos e nações fracas.

As nações são o resultado de como as mães criaram seus filhos nas décadas anteriores.

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A ressaca amorosa

27 de julho de 2012

João Bosco Leal

“O amor é como fogo: para que dure é preciso alimentá-lo”.

Lendo o pensamento do Duque François La Rochefoucauld, que viveu em Paris de 1613 a 1680, pensei em como todos demoramos a aprender essa regra simples – válida para o amor, as amizades e todo tipo de relacionamento -, e de como, apesar da farta literatura existente a esse respeito, dos infindáveis conselhos e sugestões que se ouve desde essa época, ela raramente é absorvida de modo a se tornar uma prática comum.

Essa necessidade também está presente em qualquer outro tipo de relacionamento, inclusive os comerciais, e como diz um velho ditado: “quem não é visto ou ouvido, não é lembrado”.

Todos sabem que são os pequenos detalhes que mantém acesas as chamas da amizade, mas mesmo assim raramente nos lembramos de telefonar para aquele amigo de anos e que há muito não vemos, simplesmente para cumprimentá-lo pelo aniversário, saber como está sua família e coisas assim.

O atual nível de automação do sistema bancário brasileiro é um exemplo, pois com a necessidade cada vez menor do cliente se dirigir à sua agência, seu relacionamento com os funcionários deste diminuem ou até acabam e com a rotatividade de seus quadros normalmente promovida pelos mesmos, quando necessitar de algo já não conhecerá ninguém dos que lá trabalham.

Mesmo que ao telefone, é muito importante o contato frequente, inclusive com os filhos adultos – que já se casaram e agora com sua própria família residem em outra casa -, dos quais também iremos afastando, se não o fizermos.

Nos relacionamentos amorosos essas necessidades são ainda maiores porque além de frequentemente nutrir a relação com gestos e palavras de carinho, existem outras que precisam ser supridas, como a geração, criação e educação dos filhos, instinto natural da preservação da espécie.

Com a maturidade, quando já se buscam outros valores além da beleza física e já não se pretende mais ter filhos, aumentam as possibilidades de se encontrar e viver um amor diferente, mais profundo, onde as exigências mais importantes serão a amizade, a cumplicidade e principalmente o companheirismo.

Nessa fase, quando já percebemos a necessidade da alimentação dos relacionamentos, passamos a fazê-lo, mas certamente também queremos ver essas atitudes correspondidas, o que nem sempre ocorre, principalmente porque seu parceiro pode ainda não haver adquirido essa compreensão.

Outra coisa que pode atrapalhar esse tipo de relacionamento são as interferências externas, normalmente provenientes daqueles cuja visão não alcança a profundidade de um amor mais maduro e a não percepção, por essa parte, de que aqueles que estão interferindo não serão seus companheiros na solidão da velhice.

Normalmente os filhos e netos de um adulto separado, divorciado ou viúvo, deixam de pensar que em muito poucos anos estarão distantes, cuidando de sua própria vida e, com suas interferências irresponsáveis ou egoístas, talvez acabem com a possibilidade de um de seus pais possuírem, ao seu lado, uma amizade, cumplicidade e companhia, que é o que realmente importará em sua velhice.

Isso normalmente é muito dolorido para aquele que não teve correspondido o que doou, ou que percebeu as interferências externas sobre seu par que provocaram o rompimento, mas como todas as outras, a ressaca dolorosa também passa e, depois de algum tempo, ele estará pronto e deve realizar uma nova tentativa, pois envelhecer só deve ser muito triste, sendo, portanto, a pior escolha.

Nenhum amor é grande o suficiente para sobreviver sem demonstrações efetivas daquilo que se diz.

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O gerúndio na política

24 de julho de 2012

Percival Puggina*

Formas gerundiais devem ser usadas com cautela. Não são caldo de galinha do bom estilo. Por isso, chama a atenção a invasão dos gerúndios na comunicação nacional. Você liga para um 0800 da vida com o intuito cívico de reclamar sobre algo. Quer providência e solução. Não obstante, inevitavelmente, a resposta vem assim: Vamos estar encaminhando sua solicitação… Vamos estar entrando em contato. Vamos estar agendando. E por aí “vão indo” os encaminhamentos.

Poderíamos dizer que é apenas um dos muitos erros acolhidos no nosso modo de falar. No entanto, se prestarmos atenção aos motivos dessa construção verbal, perceberemos que a linguagem frauda a mensagem. O gerúndio, empregado assim, dissimula uma negação do que expressa. Cria uma ilusão, ao sugerir que a ação ocorrerá no tempo presente, de modo continuado – encaminhando, entrando em contato, agendando. Mas faz o inverso disso ao remeter tudo para as imprecisões do futuro e da impessoalidade, através do “vamos estar”. Quem diz vamos estar, não está. Omite a informação sobre quando estará. E não atribui a alguém o dever de estar. Para que a frase merecesse credibilidade seria necessário usar o verbo no tempo futuro, estabelecer quando a ação seria cumprida e indicar seu sujeito: encaminharei neste momento, entrarei em contato hoje, o diretor agendará imediatamente, e assim por diante. Imagine, leitor, o que aconteceria se na empresa do tal 0800, um gerente, interpelado por seu chefe sobre determinado problema, respondesse com um “vamos estar verificando e estaremos encaminhando”…

Mas isto aqui não é lição de Língua Portuguesa. Nem eu a saberia ministrar. Pretendo mostrar que essa formulação marota, à qual nossos ouvidos “vão estar se habituando” cada vez mais, ganha crescente espaço no discurso político. Aliás, é a cara da nossa política perante as carências nacionais. Reflete a falta de projetos, a fatuidade dos programas de governo e os solavancos administrativos causados pelas manchetes. As decisões de governo, no Brasil, “estão sendo” tomadas ao sabor das emoções.

Indagado sobre problemas específicos de sua atividade, o gestor público nunca mostra surpresa e raramente fornece resposta com começo meio e fim. A nova técnica consiste em dizer que “temos estado estudando” e “estaremos acompanhando, planejando, promovendo” ou coisas que o valham. Assim, há mais de uma década, temos estado tentando sair do RS para o norte do país por uma rodovia digna, e há mais de trinta anos temos estado programando soluções para o problema da BR-116 entre Porto Alegre e Novo Hamburgo, por exemplo. Eminentes pedagogos têm estado estudando a queda dos nossos indicadores educacionais, mas são sucessivas gerações de alunos que vêm sendo, mesmo, prejudicadas.

Avizinha-se um pleito municipal. Fique atento ao que dirão os candidatos. Firmou-se entre nós um hábito segundo o qual o que é prometido para os primeiros dias seguintes à posse, o pacote de bondades do discurso eleitoral, fica postergado para o último mês de dezembro do quadriênio em disputa. E o que acaba posto em prática é um pacote de maldades cautelosamente omitido durante a campanha. Os candidatos deveriam detalhar e comprometer-se com seus programas de governo. Os eleitores deveriam esmiuçá-los, ponderá-los, confrontá-los. E cobrá-los. No Brasil, ganha-se a eleição com um programa e governa-se com outro. A partir da posse, as bondades vão para o gerúndio. E o presente do indicativo serve para outras coisas.

 Publicado por:  Blog do Percival Puggina