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O conto do espanto

2 de maio de 2012

Dora KramerO Estado de S.Paulo

Quanto mais informações vão sendo reveladas a respeito dos serviços prestados por Demóstenes Torres às organizações Cachoeira de armações ilimitadas, mais esquisito parece o fato de que ele tenha durante tanto tempo podido atuar como o sujeito oculto na defesa dos interesses do contraventor Carlos Augusto Ramos sem despertar suspeitas.

Que o senador tenha conseguido enganar a plateia e parte considerável do elenco da República com o personagem que encarnava em público, compreende-se. Dificilmente alguém que age com tanto vigor e destemor é alvo de desconfiança.

Sempre existe o risco de ser confrontado por um adversário no meio de um discurso, levar um troco na base do bateu levou. Eleito senador pela primeira vez em 2002, notabilizou-se por bater. Nunca levou e, entretanto, vê-se agora como era vulnerável.

Os grampos da Operação Monte Carlo revelaram as conversas com o contraventor, mas suas atividades como praticamente um procurador do bicheiro eram exercidas com boa dose de desinibição.

Pelo divulgado até agora, movimentava-se para todo lado, falava com muita gente, pedia, solicitava, defendia interdição de depoimentos no Congresso e até um episódio em tese menor – o pedido de emprego no governo de Minas Gerais para uma prima de Cachoeira – não se coadunava com a atitude de um defensor intransigente dos pressupostos constitucionais de impessoalidade, probidade e transparência na administração pública.

A julgar pelo conteúdo das conversas telefônicas – e, note-se, não são conhecidas as do senador com personagens outros que não o contraventor – Demóstenes Torres fazia lobby por Cachoeira nos três Poderes, abria portas para negócios comerciais para além da Região Centro-Oeste, interferia na transferência de policiais presos, obtinha informações de bastidores na Polícia Federal e no Ministério Público, atuava aqui e ali como facilitador para a construtora Delta, circulava com desenvoltura entre deputados, senadores, governadores, magistrados.

Será possível que só ao amigo bicheiro revelasse seu lado eticamente permissivo? Apenas ao telefone com Cachoeira deixava-se desvendar? Nas abordagens em prol do contraventor não precisava “abrir” aos interlocutores a natureza dos pleitos pretendidos?

Fica cada vez mais inverossímil a possibilidade de que o senador tenha atuado nesse diapasão por tanto tempo sem que ninguém, entre as pessoas experimentadas com quem o senador convivia, tivesse notado algo de anormal ou de inadequado no comportamento dele.

Mais não seja pela discrepância entre o discurso e as ações. O mais provável, chega-se à conclusão por pura lógica, é que a surpresa manifestada na dimensão de unanimidade não seja de verdade tão unânime assim.

Pelo visto, boa parte dos que se mostraram surpresos depois da eclosão do escândalo considerava perfeitamente normal o uso privado que o senador dava a seu mandato e talvez até admirasse sua capacidade de mimetização.

Só uma hipótese não é crível: a de que o senador tenha enganado completamente a todos os ditos tão espantados.

Contenção. Noves fora o imprevisto absoluto, as versões de que Carlos Augusto Ramos poderia queimar caravelas na CPI guardam mais relação com prevenção de danos do que com chances reais de o bicheiro representar o papel de homem-bomba.

O advogado dele, Márcio Thomaz Bastos, não é exatamente um construtor de explosivos. Ao contrário: como ministro da Justiça do primeiro governo Lula e depois como conselheiro desarmou vários deles.

Cacoete. Publicamente a presidente Dilma Rousseff não fala no assunto, muito menos teria condições de fazer algo parecido. Privada e ideologicamente, no entanto, deixa muito claro que viu com bons olhos na nacionalização da petroleira espanhola YPF pela colega argentina Cristina Kirchner.

Publicado por:  Estadão

Os cegos, os surdos

2 de maio de 2012

Carlos Brickmann

Desde que estourou o escândalo do Mensalão, este colunista sabia da existência de um empresário zoológico conhecido como Carlinhos Cachoeira, que entre outras atividades se dedicava ao ramo da contravenção penal. Tantos anos depois, descobre-se que Carlinhos Cachoeira atuava em diversos outros ramos, alguns dos quais legítimos; que os jornalistas sabiam disso; e que, apesar deste conhecimento, foram todos surpreendidos quando a Polícia Federal mostrou o relacionamento do cavalheiro com políticos importantes, entre eles o mais feroz oposicionista defensor da moral e dos bons costumes, senador Demóstenes Torres.

Goiânia é uma cidade agradável, ajardinada, bonita, com cerca de 1 milhão de habitantes; jornalistas, políticos, empresários frequentam os mesmos lugares, e todos se conhecem. Há jornais e emissoras de rádio e TV de muito boa qualidade. Não é possível imaginar que ninguém soubesse do relacionamento tão próximo do senador Demóstenes Torres com Carlinhos Cachoeira; nem se admite que a estranha proximidade entre um promotor público, fiscal da lei, e um, na melhor das hipóteses, contraventor penal, não provocasse nenhuma estranheza. Jornalistas, pelas características da profissão, precisam transitar com desenvoltura pelos mais diversos setores da sociedade, inclusive os menos recomendáveis (afinal de contas, de onde sairão as informações sobre o baixo-mundo?). Promotores e procuradores, como também os magistrados, não: têm de ser imaculados, têm de parecer imaculados.

Em determinado momento, o senador Demóstenes Torres muda de aparência, perde algumas dezenas de quilos, passa a usar roupas mais bem talhadas. Seu casamento foi discreto, mas é muito improvável que ninguém soubesse que o amigo Carlinhos Cachoeira lhes havia dado fogão e geladeira importados, iguais aos existentes na Casa Branca, em Washington.

Cadê as notícias? Notícia só existe depois que alguma autoridade vaza as investigações? Sem que a informação seja distribuída por alguma fonte oficial os meios de comunicação não comunicam?

Empresários, jornalistas, políticos, todos se relacionam bem, todos se conhecem, todos comem a boa feijoada do restaurante Pequi. E ninguém sabia de nada? O senador não sabia nem que o amigo era contraventor? Então, tá.

Afoitos amigos

Como não disse a comediante Kate Lyra, a imprensa brasileira é tão boazinha! Pois, tão logo surgiram as primeiras notícias sobre o envolvimento do senador Demóstenes Torres com o contraventor Carlinhos Cachoeira, 44 senadores de todos os partidos se apressaram em hipotecar-lhe solidariedade. A notícia foi publicada na ocasião; depois, foi convenientemente esquecida pelos meios de comunicação. Os senadores foram afoitos – mas cá entre nós, num país em que se sabe nome e sobrenome de amantes de pessoas importantes, em que se acompanha o crescimento dos filhos resultantes desses relacionamentos, em que se sabe o país em que vivem e as escolas que cursam, alguém acredita que ninguém soubesse do relacionamento Demóstenes – Cachoeira, ou desconhecesse a origem do império econômico montado pelo contraventor?

Enfim, para que os fatos sejam sempre lembrados (e, homenageando a cultura jurídica do senador Demóstenes Torres, a frase vai em latim: ad perpetuam rei memoriam), segue-se a lista de nomes de Suas Excelências que se solidarizaram com ele antes de saber direito do que é que se tratava, e que preferiram fugir à análise das acusações pelo caminho fácil da solidariedade corporativa:

Eduardo Suplicy (PT-SP); Luiz Henrique (PMDB-SC); Ana Amélia (PP-RS); Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE); Pedro Simon (PMDB-RS); Antonio Carlos Valadares (PSB-SE); Eduardo Braga (PMDB-AM); Lobão Filho (PMDB-MA); Randolfe Rodrigues (PSOL-AP); Vital do Rêgo (PMDB-PB); Álvaro Dias (PSDB-PR);Waldemir Moka (PMDB-MS); Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP); Cristovam Buarque (PDT-DF); Alfredo Nascimento (PR-AM); Romero Jucá (PMDB-RR); Cyro Miranda (PSDB-GO); Lúcia Vânia (PSDB-GO); Jayme Campos (DEM-MT); Blairo Maggi (PR-MT); Pedro Taques (PDT-MT); Inácio Arruda (PCdoB-CE); Vicentinho Alves (PR-TO); Aécio Neves (PSDB-MG); Roberto Requião (PMDB-PR); Mário Couto (PSDB-PA); Eunício Oliveira (PMDB-CE); Rodrigo Rollemberg (PSB-DF); Cássio Cunha Lima (PSDB-PB); João Ribeiro (PR-TO); Benedito de Lira (PP-AL); Casildo Maldaner (PMDB-SC); Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR); Flexa Ribeiro (PSDB-PA); Francisco Dornelles (PP-RJ); Paulo Paim (PT-RS; Jorge Viana (PT-AC); Marta Suplicy (PT-SP); Kátia Abreu (PSD-TO); Ricardo Ferraço (PMDB-ES); Armando Monteiro (PTB-PE); Antonio Russo (PR-MS); José Agripino (DEM-RN); e Ivo Cassol (PP-RO).

Publicado por: Observatório da Imprensa

O grande erro de Jim $talinácio Jones

1 de maio de 2012

Jorge Serrão

A aposta de que a CPI do Cachoeira vai dizimar seus inimigos políticos (inclusive dentro do próprio PT) é um dos maiores erros táticos de Luiz Inácio Lula da Silva. Insuflada pessoalmente por Lula, a comissão parlamentar de inquérito, que assusta a “oposição”, apavora ainda mais a base governista e a petralhada. Tanto que ontem já ganhava, em Brasília, o apelido de “CPI Jim Jones”. A previsão politicamente macabra é: “vai morrer todo mundo abraçado”.

Trata-se de uma referência ao suicídio coletivo cometido por fanáticos seguidores de um pretenso líder religioso, na Guiana, em 1978. O governo tem dois medos. Primeiro que sejam revelados negócios ocultos de Lula e de seus aliados mais próximos que tenham alguma relação com o contraventor Carlos Augusto Ramos. Mas o medo maior é que venham à tona os nomes de quem se beneficiou do esquema de obras públicas nos estados, graças aos lobbies de Carlinhos Cachoeira.

Nunca esteve tão nova a velha máxima de que “CPI se sabe como começa, mas nunca como termina (geralmente muito mal para o governo)”. A Comissão de Prostituição do Inquérito do Cachoeira tem tudo para requentar e retomar velhos escândalos (devidamente abafados) como as ligações perigosas do ex-assessor e amigo pessoal de José Dirceu na Casa Civil, Waldomiro Diniz. Também pode recordar o polêmico e nunca provado derrame de R$ 1 milhão no caixa 2 da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, como contrapartida seria o empenho de Lula em legalizar os bingos. Quem revelou isso na CPI dos Bingos – e tudo ficou por isso mesmo – foi Rogério Buratti – ex-assessor e amigo de Antônio Palocci Filho – o mesmo ex-ministro da Fazenda que foi o sucessor do falecido Celso Daniel na coordenação financeiro da primeira campanha presidencial vitoriosa de Lula.

Ontem, na Ilha da Fantasia, um dos mais apavorados era o líder do PR no Senado. Numa reunião tensa com os líderes da base aliada, o senador Blairo Maggi advertiu a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvati, que o que o ex-diretor do Dnit Luiz Antônio Pagot está incontrolável e pode se vingar do governo. Blairo teria avisado que Pagot é um fio desencapado. Já avisou que quer ser o primeiro a depor na CPI e vai falar de tudo quanto é obra de rodovia e quem ordenou os contratos bichados em cada estado.

A CPI tem tudo para ser um fator de grande desgaste e desestabilização política. Como sempre, muito escândalo deve ser abafado. O problema é que nem todos serão. Por isso, muitas das revelações que podem vir à tona sobre a escatologia do desgoverno petralha tendem a causar instabilidade política. Mais grave é que isto tem tudo para se refletir também na economia – onde os sinais de inadimplência da farra do crédito já assustam os bancos e afetam seus resultados nos balanços do trimestre. O clima instável também pode se refletir no câmbio – o que pode acelerar o desgaste de Dilma.

Será que é isso que interessa ao egocêntrico $talinácio – que se julga um líder quase religioso, acima do bem e do mal – tal qual um Jim Jones –, já preparando seu retorno triunfal na eleição presidencial de 2014 – tendo no currículo o milagre de se curar até de um violento câncer de laringe? Pois a CPI do Cachoeira pode ser o sinal de tragédia para o Tim Tones da política brasileira.

Vida que segue… Ave atque Vale! Fiquem com Deus.

Publicado por: Alerta Total

O sindicalismo do atraso

30 de abril de 2012

Fernando Alves de Oliveira*

Ao redor de mais um primeiro de maio, trava-se disputa entre as duas mais importantes centrais. Antes, de bastidores. Agora, de domínio público. A CUT procurando defender a substituição da atual contribuição obrigatória pela “negocial”. Em verdade, troca não de seis por meia dúzia, mas por dúzia inteira, face ao valor muito mais elevado. Aliás, prova muito mais consistente do que essa marqueteira “renúncia financeira” -cujo propósito não é outro senão o de deixá-la propositalmente se esboroar ao vento- seria a devolução dos milhões recebidos desde 2008 da partilha com o Ministério do Trabalho, que por sua vez divide com as centrais a metade do que lhe cabe do rateio do bolo sindical. E sem nenhuma fiscalização do TCU, como impôs o paizão Lula, que, além da generosa concessão, fez questão de vetar o artigo da lei dessa destinação. Este sim seria um significativo exemplo de abjuração…

Já a Força Sindical, defende obstinadamente a preservação da atual contribuição obrigatória, sob a alegação de que ela mantém o sindicalismo “forte”.

Quanto ao patronato, basta cotejar o discurso de ontem com o mutismo de hoje. Há menos de uma década, a Confederação Nacional da Indústria divulgava animador trabalho sob o titulo “Associativismo em Foco; ações e resultados”, que já em seu prólogo enfatizava com todas as letras “que a reforma da organização sindical, mesmo que postergada, virá e exigirá movimento de antecipação e preparação”. Pena que tenha ficado só no papel. Nos dias atuais, resta apenas prudente silêncio sobre o tema. Aliás, Idêntico do que ocorre com demais entidades patronais. Todas não escondem sua preferência pela continuidade infinda da contribuição. Ainda que veladamente.

Ora, verdadeiramente vigoroso e potencialmente institucional é o sindicalismo pluralista, sujeito à concorrência. Que exige extremado labor, competência, ética e transparência, invertendo o atual sistema e indo de encontro às reais necessidades do sindicalizado. Simplesmente fulmina a atual e nefasta “reserva de mercado”, acabando com as contribuições compulsórias, pois ao torná-las espontâneas, obriga as entidades a trabalharem mais e melhor no trabalho de angariação de maior número de associados e, por conseguinte, obtenção de maiores receitas. Como ocorre nas entidades civis. De forma idêntica à antiga fase sindical, em que somente após dado estágio é que as entidades obtinham do Estado concessão da chamada “carta sindical” que lhes permitia a percepção de contribuições compulsórias.

Não é por outra razão que se constata no carcomido sistema a existência de milhares de entidades (de trabalhadores e de patrões) cuja direção está aferrada ao poder há décadas. Algumas, conhecidas como insofismáveis capitanias hereditárias…

Este é o retrato da legislação varguista, empedernida no atraso. Os tempos são outros, mas o modelo perempto é o mesmo. Que equipara os sindicatos a meras agências governamentais. Com sinal verde para muitos se servirem sem nenhum pejo, sugando suas obesas e generosas mamas, das quais escoam infindáveis vícios e mazelas, genitores do rentável meio de vida e de múltiplas concorridíssimas sinecuras. Ingrata e inglória a tarefa da chamada vanguarda sindical. A banda nada sadia lhe é infinitamente maior. Em tamanho e poder. Bem comparável a “cosa nostra”.

Somente sob o férreo respaldo do clamor popular é que o sindicalismo brasileiro será salvo, já que o Estado -através de seus governantes ávidos por preservação e perenidade de poder- habilmente se finge de morto. Afinal, (e com a escusa da inevitável repetição) é incontestável que nesta terra reforma sindical não dá voto (expediente que mais importa aos donos do Poder). Tira. E muito!

E em razão de claras peculiaridades de conduta política em relação ao seu antecessor, pelo menos no que diz respeito aos estritos termos de reforma da estrutura sindical, não esperem absolutamente nada da sucessora do governo do PT. Muito menos do Legislativo, exceto alguns trôpegos rompantes e casuísmos, os quais, se ocorrerem, quando muito, não passarão de enxertos e remendos meramente cosméticos. Do tipo “é preciso fazer alguma coisa para que tudo permaneça como está…”

A própria denominação da contribuição obrigatória já mudou de rótulo, sem alterar o conteúdo. Até novembro de 1966, era cognominada de “imposto”, virando a partir daí “contribuição”. Mudança meramente semântica, pois não perdeu a personalidade jurídica de tributo, e como tal, obrigatório, por amparado no artigo 149 da Constituição.

Rendamo-nos, pois, à inquestionável evidência. Somos mesmo um país campeão na invenção de nomenclaturas que, geralmente, mudam somente a casca. Pródigo em governantes e legisladores com profunda avidez pela maquiagem semanticista. Pois não é que de uns tempos a esta parte, corrupção, falcatruas e desvios de conduta, sempre saqueando o erário e praticadas por salteadores da República, passaram a ser evocadas pelo ameno adjetivo de “malfeito”? 

Ora, apenas os parvos, mal-esclarecidos ou os sempre mal-intencionados, deixarão de reconhecer que a septuagésima legislação prevalecente, cevada por Getúlio Vargas nos resquícios corporativistas e fascistas do regime italiano de seu colega Benito Mussolini e numa época longínqua em que o Brasil não passava de uma colônia agrícola, está –e de forma inequívoca- em posição diametralmente oposta às óbvias necessidades das relações do Trabalho exigidas pelo hodierno. Especialmente as de uma nação que se gaba de ocupar a sexta economia no ranking do mundo globalizado.

É justamente aí é que reside grave e inegável contradição: o Brasil economicamente gigantesco e que nos enche de orgulho, é o mesmo que nos envergonha pelo atraso de um sistema sindical fossilizado e de portas escancaradas ao sistema sindical corrupto e corruptor.

Urge, sim, a adoção do associativismo, em sua mais profunda acepção. Imperativo, sim é a ratificação da Convenção 87 da OIT, assinada pelo Estado brasileiro em 1948 (há 54 anos) e até hoje permanece amarelecida na gaveta.

Grotesca e estapafúrdia é a contradição dos nossos governantes. Acaba de travar-se uma briga de foice pelo cumprimento de um tratado de Estado (Lei Geral da Copa) assinado pelo ex-presidente com a FIFA. Todavia, sequer foi, é ou continuará a ser lembrado (e cobrado com a responsabilidade exigida) obrigatório cumprimento firmado a mais de meio século, como signatário de igual tratado internacional, firmado com a OIT- Organização Mundial do Trabalho… Coisa muito mais séria do que sediar uma Copa do Mundo de futebol, de efêmeros 30 dias. Mas esta, além de votos, é claro, rende também muitas outras benesses à classe política dominante… E como rendem!

Enfim, o que espera o sindicalismo brasileiro que em 2013 completará formais 70 anos? Já não passou da hora de dar-lhe um salutar e benfazejo “bem-feito”, mudando o caduco, pecaminoso e vergonhoso modelo por de conteúdo digno, ansiado e exigido pelos mais comezinhos princípios republicanos do Brasil da atualidade?

*Consultor Sindical Patronal, autônomo e independente, autor dos livros O sindicalismo brasileiro clama por socorro, e S.O.S.SINDICALpt –ambos editados pela LTr- de palestra direcionada e dezenas de artigos sob o tema sindical. Acervo em http://falvesoiveira.zip.net/ Contatos: falvesoli40@terra.com.br

Publicado por:  Recebido por e-mail do autor

Petralhas virtuais – estudo de caso

30 de abril de 2012

Rodrigo Constantino

Atentai para o nível dos petralhas virtuais! Eu recebo uma média de 10 mensagens (spam) por dia desses canalhas que “trabalham” no bunker do PT na tentativa de jogar fumaça no julgamento do mensalão. Atacam a grande imprensa com a fúria de um stalinista. Sempre respondo a mesma coisa: A “profissão” mais degradante do mundo é petralha virtual. De vez em quando, do outro lado, não é que respondem? Segue uma dessas respostas, de um tal de Indira Demeterco (indirademe@gmail.com), para vocês terem uma noção do nível dessa gente (peço desculpas pelos termos chulos que eu normalmente não usaria aqui) e do que eles pretendem fazer com o Brasil:

“É você é o quê? Um privilegiado, herdeiro dos donatários das capítanias hereditárias? Um membro da elite que suga o trabalho do povo? Um classe média preconceituoso e babaca, que se acha o mais ético do mundo, mas fura o sinal, não respeita faixa de pedestre e corrompe guardas e outros servidores públicos se puder? Me engana, que eu gosto. Quais os valores que você ensina para seus filhos? Você diz pra eles que é legal e bonito mudar as regras do jogo com o jogo em andamento, como fez FHC ao aprovar a emenda da reeleição em proveito próprio? Você ensina para seus filhos, que é bonito comprar votos para aprovar uma emenda (a da reeleição) para continuar mais um tempo no poder? Você ensina para seus filhos que o Brasil sempre foi uma nação decente, justa e sem corrupção até 2002? Que a corrupção começou no país em 2002, com a chegada do PT ao poder? Ora, vai se foder seu FDP, direitista corrupto, preconceituoso, desonesto, falso, hipócrita. Se prepara, que o PT veio para mudar o país e acabar com parasitas como você. Ouça povo nas ruas e veja se ele está satisfeito ou não. Trouxa, babaca.”

Pois é. Eis aí um típico petralha virtual. Te manda spam e depois liga a metralhadora giratória de ofensas, provavelmente diante de um espelho, como tio Lênin ensinou. É triste um país que tem gente dessa laia recebendo verba do GOVERNO para espalhar mentiras e ódio autoritário pelas redes sociais e emails. Ou o Brasil se livra da corja petista, ou esta corja acaba de vez com o Brasil.

Publicado por:  Rodrigo Constantino

Oposição? Ora, oposição!

28 de abril de 2012

Percival Puggina

Não, o senador Demóstenes não matou a oposição. Não se mata o que não existe. De tempos para cá, em Brasília, só há governo. As pessoas me param na rua: “Cadê a oposição?”. Pois é. A construção da hegemonia chegou ao telhado e já faz os arremates da cumeeira, com o total sumiço da oposição como força política perceptível. O discurso oposicionista é quase confidencial.

Nem durante os governos militares a oposição foi tão reservada. Ao contrário do que os atuais comissários da história querem fazer crer, aquela atividade oposicionista, comparada com a atual, era estrepitosa. Havia interesse e espaço nos meios de comunicação suficientes para que se afirmassem lideranças. Embora a época fosse menos midiática, todos conheciam Tancredo, Brossard, Ulysses, Simon, Montoro, Covas, Teotônio, bem como os cassados – Brizola, Arraes, Juscelino, Lacerda. Eram tratados assim. Um nome só bastava, tal a intimidade. Sabia-se o que pensavam e faziam.

Não se atribua a anomia e a anemia oposicionistas à falta de atrativos da direita, tipo assim: se a direita fosse moça, num baile do tempo antigo, passaria a noite fazendo tricô. Definitivamente não. Quaisquer pesquisas que investiguem opiniões sobre temas específicos revela que os brasileiros se posicionam, majoritariamente, do centro para a direita do arco ideológico. A maioria é a favor da ordem e contra a violência como instrumento da política. Quer um Código Penal severo e que as penas sejam cumpridas. Deseja reduzir a maioridade penal. Defende o direito de propriedade e rejeita invasões. É contra a proibição à posse de armas de defesa. É contra o aborto (as mulheres ainda mais do que os homens). Reconhece o valor da instituição familiar e da religião. Rejeita tipos como Fidel, Chávez e Morales. Quer que seja preservada a vida privada e não admite marcos regulatórios para a mídia. Em outras palavras, recusa de A a Z a agenda do partido do governo. Este, no entanto, usou a cabeça. Primeiro, assumiu o programa econômico que derrotara nas urnas. E, depois, foi ao mercado comprar quase toda a esquerda, quase todo o centro e quase toda a direita. Bastaria isso para esvaziar a oposição. Só não está no governo quem não quer. Bombom tem para todo mundo.

O presidencialismo brasileiro, tão ruim que só fica de pé se bem escorado, fornece ambiente ideal às hegemonias. Ao longo da Primeira República, foi sustentado pela política dos governadores. Quando ela se rompeu, manteve-se pela ditadura de Vargas. Quando ele renunciou, seguiu-se um tempo de balança mas não cai, até cair. Reergueu-se com a política dos generais. E desde 1985 temos isto que agora alcança seu orgasmo: o presidencialismo de coalizão, com longo arco de abrangência e grande capacidade financeira de atrair interesses. Entenda-se: o grupo hegemônico é a fonte do poder, dos privilégios, dos cargos e contratos, e dos maiores favores que se possa conceber. É um poder do qual poucos admitem ficar longe, mormente os bandidos. Nada que não se explique pelo mais elementar conhecimento da natureza humana.

Como resultado, quem quiser saber o que a oposição nacional está pensando ou fazendo terá que acessar os canais de tevê do Congresso e ver – o que é improvável – se algum dos poucos oposicionistas está na tribuna. Atingimos em Brasília, simultaneamente, o cúmulo da hegemonia, da hipocrisia e da venalidade. Na nossa política só o dinheiro manda e como só o governo tem dinheiro, só existe governo. A oposição, então, que fale baixo e não atrapalhe os negócios.

Publicado por:  Blog do Percival Puggina

Corrupção e sistemas econômicos

27 de abril de 2012

Percival Puggina*

Omitirei o nome da publicação e dos autores do artigo que vou criticar. Não me parece sensato divulgar fontes de equívocos. Direi apenas que se trata de uma publicação “católica” e que o artigo abordava o tema da corrupção, definindo a ética do “ganhar sempre mais”, que seria própria do capitalismo, como determinante da corrupção.

Tal tese é um disparate sob quaisquer ângulos de observação e os autores devem saber. Mas estão se lixando. O que pretendem é levar os leitores a extrair conclusão errada de premissa falsa: se o capitalismo causa corrupção, então, na vigência de seu antônimo – o socialismo – a sociedade se conduziria por elevadíssimos valores morais. Um verdadeiro paraíso reconstruído. Ora, o desejo de ganhar mais não é uma especificidade da economia de mercado, ou livre, ou de empresa (prefiro designar o sistema econômico com esses nomes que lhe atribuiu João Paulo II). É um anseio da pessoa humana, em todos os tempos e em qualquer sistema. Resumamos o assunto, então, em alguns tópicos.

• Duvido que os redatores dessa fraude intelectual recusem um aumento de salário, um bom negócio ou uma oportunidade de comprar por menos ou vender por mais.

• Como consequência de um sistema de economia livre, de empresa, os agentes econômicos dedicam-se com maior empenho ao que fazem, a criatividade aumenta, a produtividade cresce, os custos decrescem. Beneficiam-se produtores e consumidores.

• Gera-se uma saudável conseqüência ética pois a competência é premiada com resultados positivos e a incompetência punida com prejuízos.

• Há uma relação histórica, ademais, entre economia de mercado e democracia pois o grande senhor da economia de mercado é ele mesmo, o mercado, formado por milhões e milhões de pessoas, com suas expectativas, anseios, etc..

• Contudo, estava certo o papa João Paulo II quando, escrevendo sobre o tema, ensinava que se o núcleo da liberdade for apenas econômico – e não ético e religioso (papel das instituições políticas e jurídicas) – ocorrem situações de opressão econômica, formam-se monopólios, cartéis, mecanismos de corrupção, e outras enfermidades sistêmicas. Com efeito, absolutamente livre, o mercado padece dos mesmos males que acometem a liberdade individual na ausência de toda restrição.

• Nas economias planificadas, socialistas, o anseio de “ganhar mais” é tolhido pela centralização estatal. Como conseqüência – e a história o demonstrou com muita clareza – a produtividade diminui, a iniciativa acaba, a economia fica estagnada, a pobreza se multiplica de modo irremediável, o muro cai, os governos tombam, os intelectuais do socialismo se escondem.

• O fracasso socialista é tão óbvio que Leão XIII o previu três décadas antes de esse sistema ter sido tentado na Rússia. E João Paulo II, tendo vivido sob tal realidade, proclamou-o “falido”.

• Da mesma forma que existe uma relação direta entre democracia e economia de mercado, existe, também, uma relação direta entre economias planificadas e totalitarismos. E a razão é simples: para coibir aquele desejo natural de “ganhar mais”, torna-se necessário criar uma estrutura estatal opressiva. Quando se concentram no Estado tanto o poder político quanto o econômico, nenhum poder resta à sociedade e à pessoa na sociedade.

• Ademais, com a queda do Muro, foi possível conhecer o nível de corrupção instalado nas repúblicas socialistas, corrupção que também se espraia pela sociedade como defesa perante a escassez e a miséria geral. Quem quiser conhecer isso de perto, ainda hoje, vá a Cuba (onde fui três vezes), ou à Coréia do Norte (onde não tenho coragem de ir).

Bastariam estas poucas evidências para desmascarar a malícia do texto a me refiro. Mas há nele um erro ainda muito mais grave: como pode um cristão afirmar que o capitalismo corrompe (e levar o leitor a presumir que o socialismo purifica), como se nele se extinguisse o pecado original?

Corrupção existe em qualquer sistema político ou econômico, embora alguns a favoreçam mais do que outros. E, nesse caso, o socialismo e os totalitarismos são imbatíveis. Mas em quaisquer regimes ou sistemas existe o pecado, os que a ele se entregam, e os justos que se empenham em serem bons. Se tudo fosse questão de sistema, Cristo teria proposto um, em vez de perder seu tempo propondo-se a si mesmo, ao custo em que o fez.

* Percival Puggina (67) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões

Publicado por:  Blog do Percival Puggina

A falência múltipla dos órgãos públicos

27 de abril de 2012

Arnaldo Jabor 

Os corruptos ajudam-nos a descobrir o País. Há sete anos, Roberto Jefferson nos abriu a cortina do mensalão. Agora, com a dupla personalidade de Demóstenes Torres, descortinamos rios e florestas e a imensa paisagem de Cachoeira. Jefferson teve uma importância ideológica. 

Cachoeira é uma inovação sociológica. Cachoeira é uma aula magna de ciência política sobre o Sistema do País. Vamos aprender muito com essa crise. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras, de palavras que eclodiram diante de nossos olhos nas últimas semanas. Meu Deus, que riqueza, que profusão de cores e ritmos em nossa consciência política! Que fartura de novidades da sordidez social, tão fecunda quanto a beleza de nossas matas, cachoeiras, várzeas e flores. 

Roberto Jefferson denunciou os bolchevistas no poder, os corruptos que roubavam por “bons motivos”, pelo “bem do povo”, na base dos “fins que justificam os meios”. E, assim, defenestrou a gangue de netinhos de Lenin que cercavam o Lula que, com sua imensa sorte, se livrou dos mandachuvas que o dominavam. Cachoeira é uma alegoria viva do patrimonialismo, a desgraça secular que devasta a história de nosso País. Sarney também seria ‘didático’, mas nada gruda nele, em seu terno de ‘teflon’; no entanto, quem estudasse sua vida entenderia o retrato perfeito do atraso brasileiro dos últimos 50 anos. 

Cachoeira é a verdade brasileira explícita, é o retrato do adultério permanente entre a coisa pública e privada, aperfeiçoado nos últimos dez anos, graças à maior invenção de Lula: a ‘ingovernabilidade’. 

Cachoeira é um acidente que rompeu a lisa aparência da ‘normalidade’ oficial do País. Sempre soubemos que os negócios entre governo e iniciativa privada vêm envenenados pelas eternas malandragens: invenção de despesas inúteis (como as lanchas do Ministério da Pesca), superfaturamento de compras, divisão de propinas, enfrentamento descarado de flagrantes, porque perder a dignidade vale a pena, se a grana for boa, cabeça erguida negando tudo, uns meses de humilhações ignoradas pelo cinismo e pela confiança de que a Justiça cega, surda e muda vai salvá-los. De resto, com a grana na ‘cumbuca’, as feridas cicatrizam logo. 

O governo do PT desmoralizou o escândalo e Cachoeira é o monumento que Lula esculpiu. Lula inventou a ingovernabilidade em seu proveito pessoal. Não foi nem por estratégia política por um fim ‘maior’ – foi só para ele. 

Achávamos a corrupção uma exceção, um pecado, mas hoje vemos que o PT transformou a corrupção em uma forma de governo, em um instrumento de trabalho. A corrupção pública e a privada é muito mais grave e lesiva que o tráfico de drogas. 

Lula teve a esperteza de usar nossa anomalia secular em projeto de governo. Essa foi a realização mais profunda do governo Lula: o escancaramento didático do patrimonialismo burguês e o desenho de um novo e ‘peronista’ patrimonialismo de Estado. 

Quando o paladino da moralidade Demóstenes ficou nu, foi uma mão na roda para dezenas de ladrões que moram no Congresso: “Se ele também rouba, vamos usá-lo como um Omo, um sabão em pó para nos lavar, vamos nos esconder atrás dele, vamos expor nosso escândalo por seu comportamento e, assim, seremos esquecidos!” 

Os maiores assaltantes se horrorizaram, com boquinha de nojo e olhos em alvo: “Meu Deus… como ele pôde fazer isso?…” 

Usam-no como um oportuno bode expiatório, mas ele é mais um ‘boi de piranha’ tardio, que vai na frente para a boiada se lavar atrás. 

Demóstenes foi uma isca. O PT inventou a isca e foi o primeiro a mordê-la. “Otimo!” – berrou o famoso estalinista Rui Falcão – “Agora vamos revelar a farsa do mensalão!” – no mesmo tom em que o assassino iraniano disse que não houve holocausto. “Não houve o mensalão; foi a mídia que inventou, porque está comprada pela oposição!” Os neototalitários não desistem da repressão à imprensa democrática… 

E foi o Lula que estimulou a CPI, mesmo prejudicando o governo de Dilma, que ele usa como faxineira também das performances midiáticas que cometeu em seu governo. Dilma está aborrecida. Ela não concorda que as investigações possam servir para que o Partido se vingue dos meios de comunicação e não quer paralisar o Congresso. Mas Lula não liga. “Ela que se vire…” – ele pensa em seu egoísmo, secretamente, até querendo que ela se dane, para ele voltar em 14. Agora, todo mundo está com medo, além da presidente. O PT está receoso – talvez vagamente arrependido. Pode voltar tudo: aloprados, caixas 2 falsas, a volta de Jefferson, Celso Daniel, tantas coisinhas miúdas… A CPI é um poço sem fundo. O PMDB, liderado pelo comandante do atraso Sarney, também está com medo. A velha raposa foi contra, pois sabe que merda não tem bússola e pode espirrar neles. Vejam o pânico de presidir o Conselho de Ética, conselho que tem membros com graves problema na Justiça. Se bem que é maravilhoso o povo saber que Renan, Juca, Humberto Alves, Gim Argello, Collor serão os ‘catões’, os puros defensores da decência… Não é sublime tudo isso? Nunca antes, em nossa história, alianças tão espúrias tiveram o condão de nos ensinar tanto sobre o Brasil. A cada dia nos tornamos mais sábios, mais cultos sobre essa grande chácara de oligarquias. E eu estou otimista. Acho que tudo que ocorre vai nos ensinar muito. Há qualquer coisa de novo nessa imundície. O mundo atual demanda um pouco mais de decência política. Cachoeira, Jefferson, Durval Barbosa nos ensinam muito. Estamos progredindo, pois aparece mais a secular engrenagem latrinária que funciona abaixo dos esgotos da pátria. A verdade está nos intestinos da política. 

Mas, o País é tão frágil, tão dependente de acasos, que vivemos com o suspense do julgamento do mensalão pelo STF. 

Se o ministro Ricardo Lewandowski não terminar sua lenta leitura do processo, nada acontecerá e a Justiça estará desmoralizada para sempre.

Publicado por:  Ternuma

Não me calarei diante de um oportunista ignorante que faz das malandragens do poder a razão do amanhã

27 de abril de 2012

Ucho Haddad

Intimidar jornalistas que relatam a verdade tornou-se corriqueiro nessa terra sem lei. Vez por outra mata-se, pura e simplesmente, quem defende uma sociedade vilipendiada em seus direitos. Os incomodados mandam matar com a mesma facilidade que encomendam uma pizza na esquina. Assim caminha o Brasil, que muitos acreditam ser uma democracia de fato, não apenas de direito. Ledo engano. Paciência! Essa é a regra básica e assustadora da profissão que abracei há mais de três décadas.

Diante das letras noticiosas coloco-me com amor e muita dedicação. É assim que faço todos os dias, o dia todo. Tudo igual, sempre diferente. Quando saio para a labuta do dia a dia, a sensação de ser a última vez, de não ter a volta, me acompanha. Sempre me acompanhou. Em algumas situações escapei do pior porque Deus é brasileiro, gosta de notícias e foi com a minha cara. Não fosse a providência divina em mais de uma dúzia de situações, por certo estaria escrevendo em algum outro lugar do universo. Se é que nessas paragens do além existem jornalistas, notícias e outros quetais.

Há quem se venda para contentar aqueles que se incomodam com a verdade. Diferentemente dessa escória, mantenho a minha consciência intacta, sabendo que algum dia serei o anteparo de uma bala inimiga. Não há como pensar diferente. A vida me mostrou que a sequência é essa. Mesmo assim não perco a coragem e o desejo de lutar com a pena na mão. Revidar é algo que não saberia fazer. Erraria o tiro, pois minha pontaria maior está na escrita. Então escrevo, ciente de que morrerei fazendo o que mais sei e gosto.

Muitas vezes não é preciso nem mesmo um punhado de verdades para incomodar alguém. Basta contrariar o status quo para que qualquer pelego do poder transforme-se em franco atirador. Esses putrefatos de aluguel usam a rede mundial de computadores como palco de batalha. Covardes convictos, atiram pelas costas. Como escrevi em outro artigo, gosto do bom combate, de adversários à altura. Do contrário vira briga de rua. E a vida me ensinou que o ideal é nivelar por cima. Porém, não deixo de dar as devidas respostas a esses frequentadores do rés do chão que atacam covardemente como se estivessem discordando dos meus pensamentos, opiniões e escritas. Não se trata de ter aversão ao contraditório, longe disso, mas crítica boa e aceitável é aquela estruturada, com lógica. Com começo, meio e fim. Não sendo dessa forma, no máximo é “vendetta”.

Criticar não é para qualquer um. É ofício para preparados, pois exige conhecimento profundo e responsabilidade de sobra. E quem ataca pelas costas é irresponsável com si mesmo. Ao tecer críticas na direção dos donos do poder, desperto a ira dos que se valem dos úberes oficiais, como se cofre público servisse para financiar canalhice. De igual modo acabo provocando os que permanecem no limbo da história, pois estão afastados da situação e não conseguem bater a carteira da oposição. Vivem como mulheres de lupanar, que deitam primeiro com quem pagar mais. Desse tipo de gente, que faz da própria vida um meretrício constante, quero distância.

Não bastasse a tresloucada cibernética que ofendeu meus leitores e tentou desconstruir minha reputação profissional, sem sucesso, agora deparo-me com um decrépito que acredita ser uma versão repaginada e tropicalizada de Platão. O ser que ora abusa da catilinária rasteira me acusa de não ter credibilidade. De não saber o que escrevo, de estar a serviço de fulano e sicrano. Sim, é verdade, estou a serviço de alguém. Estou a serviço do Brasil, dos brasileiros. Estou a serviço dos meus leitores e seguidores, que crescem diariamente em quantidade e qualidade. Sobre o passado dessa figura ignara e desprezível, que mal sabe escrever, prefiro não revelar, pois seria chutar cachorro morto.

A minha credibilidade é algo tão concreto e verdadeiro, que os que em mim acreditam avisaram-me do golpe baixo cometido nas redes sociais. Afirma esse desqualificado que sou um blogueiro conhecido por minhas fantasias. É preciso esclarecer que não sou blogueiro, mas que estou jornalista. A minha fantasia é ver o Brasil como uma nação minimamente lógica e livre da corrupção. Se isso é fantasia, então o meu covarde acusador está certo. Pelo menos uma vez na vida.

Como conheço razoavelmente o apedeuta que ora tenta me intimidar, o que não é novidade, cabe-me o dever de afirmar que esse sujeito sequer conhece a minha história. Não sabe, por exemplo, que os presos com sentença não transitada em julgado votaram pela primeira vez nas eleições de 2010 por causa de projeto de minha iniciativa. Não sabe, também, que o valor pró-rata do IPVA de um veículo roubado ou furtado é devolvido ao contribuinte graças à minha iniciativa. Assim como tantos outros projetos que surgiram ao longo dos anos por sugestão minha. Ao contrário, esse remendo de capataz de Treblinka sempre viveu de negociatas com velhacos. Sem credibilidade até mesmo entre os amigos, tenta se manter na vitrine a bordo de sandices.

Longe de querer chamar a importância para mim, mas sei o que fiz pelo País e o que ainda posso fazer. Não posso aceitar de modo algum que me acusem de falta de credibilidade. Também rechaço o fato de que se espalhe tal leviandade entre jornalistas dos quais esse cidadão tenta se aproximar, em vão. Alguém sem credibilidade não seria responsável pelo início da investigação que culminou com a prisão de um banqueiro oportunista, que de tão incomodado conseguiu na Justiça uma decisão para me calar. Alguém sem credibilidade não teria desvendado o esquema de remessa ilegal de dinheiro do ex-presidente do Vasco da Gama. Alguém sem credibilidade não teria divulgado com absoluta exclusividade as gravações do polêmico caso Celso Daniel, o que rendeu processos judiciais e ameaças de todos os naipes. Paro por aqui para não me estender nessa “missa de corpo presente”.

Quem me acompanha diariamente sabe do cuidado que tenho com a notícia, com a forma de levar a informação ao leitor. A credibilidade é minha sombra, a coerência, o ar que respiro. E foi ela, a credibilidade, associada à consciência e à ética, que me fez recusar uma espúria oferta desse acusador acostumado a circular pelos subterrâneos do poder. Sua peçonha ressuscitou porque acusei alguém que está na mira de seus interesses escusos. Por causa dessa ganância obtusa, a saída foi me atacar para ter um trunfo que lhe permita se aproximar de determinado saltimbanco com mandato.

Caso decidisse considerar a insignificância de quem me acusa, assim como seu currículo vexatório, deixaria o caso de lado. Fosse seguir os piedosos e consternados comentários daqueles que conhecem o acusador, também esqueceria o assunto. Contudo, decidi continuar. A decisão de continuar se deu em razão da minha dedicação constante ao Brasil e aos brasileiros. Continuo por causa da minha história, das minhas crenças, do meu idealismo. Continuo por causa do ofício de jornalista. Continuo para preservar a dignidade dos leitores, seguidores e colaboradores. Continuo por mim, continuo pela minha família. Continuo porque acusação leviana, barata e oportunista arde mais do que bala dundum. Continuo porque faz-se necessário interromper a trajetória insana de alguém que acredita ser o dono da verdade, a última solução do planeta. Continuo porque é preciso apresentar a esse détraqué em fim de carreira o fardão da psicose. Continuo porque minha credibilidade exige. Continuo porque minhas fantasias patrióticas me cobram isso. Continuo porque o tribunal é logo ali, assim como a delegacia mais próxima também. Continuo porque continuar é preciso. Continuo porque, como disse Freddie Mercury, “the show must goes on”. Continuo!

Publicado por:  Ucho.info

Diferenças culturais ou crimes?

27 de abril de 2012

João Bosco Leal

Pouco foi divulgado pela imprensa brasileira sobre o caso de um diplomata iraniano que, segundo denúncias das próprias vítimas, de salva-vidas e de parentes das crianças e dos adolescentes, teria abusado sexualmente de crianças e adolescentes brasileiros, acariciando as partes íntimas de meninos e meninas de 9 a 14 anos enquanto mergulhava na piscina do Clube Vizinhança, na Asa Sul de Brasília, área nobre da cidade.

Inicialmente a embaixada do Irã no Brasil estava tratando o caso como um mal entendido resultante das diferenças culturais entre iranianos e brasileiros e o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, chegou a declarar que as denúncias eram infundadas, falsas e irreais.

Informado pela Polícia Civil do Distrito Federal sobre as acusações, o Ministério das Relações Exteriores notificou oficialmente a embaixada do Irã no Brasil, solicitando explicações do governo do Irã, pois como o iraniano, de 51 anos, possui imunidade diplomática e não pode ser investigado ou incriminado como um cidadão comum.

A Convenção de Viena, da qual o Brasil é signatário, diz que um diplomata só pode sofrer punições ou ser processado de acordo com as leis de seu próprio país e só seria responsabilizado aqui se o Irã retirasse sua imunidade diplomática, o que é praticamente impossível. Outra possibilidade seria o Brasil adotar uma medida diplomática extrema, declarando-o persona non grata, o que provocaria sua expulsão do país e o impedimento de seu retorno.

No Irã, uma república orientada pelos preceitos religiosos desde a revolução islâmica de 1979, o diplomata seria julgado de acordo com as leis do Sharia, o código de conduta moral regido pelo Alcorão.

Independentemente de regime político adotado ou de sua predominância religiosa, penso ser necessária a imediata revisão, por todos os países e pelos órgãos mundiais de justiça, de certos preceitos legais ou religiosos, que praticamente protegem casos como esse, ainda admitem a inimputabilidade dos povos indígenas e acobertam os mais diversos crimes cometidos por políticos brasileiros e de diversos países do mundo.

Salvo raríssimas exceções de tribos indígenas que ainda não tiveram contato com o mundo civilizado, no mundo globalizado e informatizado em que vivemos, com antenas parabólicas captando sinais de canais televisivos nos locais mais distantes e pouco habitados, não se admite a possibilidade de uma pessoa – por mais isolada que esteja -, não possuir o mínimo de conhecimento sobre regras básicas do convívio social.

As populações indígenas, que atualmente transitam pelas mais diversas cidades brasileiras portando aparelhos de telefonia celular, título de eleitor e carteira de motorista, não poderiam continuar aqui com os mesmos costumes de vestimentas ou culturais utilizados em suas aldeias ou não poderiam delas sair e nem possuir os mesmos direitos sociais dos outros cidadãos.

Tratando-se de um diplomata, por seu preparo cultural e posição social frequentada, deveria ter seu crime julgado com rigor ainda maior, pois pelo menos teoricamente, teria de saber sobre os costumes, tradições e leis do país onde está trabalhando.

Os políticos brasileiros corruptos, que teoricamente foram eleitos para legislar em benefício do povo ou para administrar bens públicos e deles se aproveitam em benefício próprio, não poderiam se utilizar de imunidade parlamentar ou de fórum privilegiado. A corrupção é um crime e os corruptos deveriam ser, além de condenados, obrigados a ressarcir os cofres públicos.

Alegações de diferenças culturais, desconhecimento legal, imunidades diversas ou fóruns privilegiados, não poderiam ser aceitos na defesa de nenhum tipo de crime.

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