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As lentes da vida

7 de maio de 2012

Humberto Pinho da Silva* 

Sem descortinar explicação, cismava há muito, porque os jovens, usam lentes de ver ao longe, e os idosos, os que muito viveram, de vista cansada ou de enxergar ao perto.

A experiência dizia-me que era assim, pois há muito verificara, que, ao dobrar o promontório dos cinquenta, sentia-se falta de óculos para ler; mas a razão plausível da deficiência, desconhecia.

Andando a matutar nessa esquisita enfermidade, saltou-me de súbito a solução, que era simples e facílima de explicar: na adolescência, os sonhos, os planos, os desejos, estendem-se para o futuro.

Anseia-se crescer, projectar, construir, realizar megalómanos empreendimentos, que, infelizmente, nunca ou quase nunca, passam de quimeras.

Nesse tempo da ilusão, precisa-se de lentes que permitam contemplar o futuro, já que o presente serve para o antever ou desejar.

Mas os anos correm, cada vez mais pressurosos. Inesperados estorvos surgem: tropeça-se, resvala-se, desequilibra-se, e quantas vezes, cai-se; e de novo, erguendo-se, prossegue-se a vereda, que parece não ter termo.

Os coloridos sonhos da puberdade, pintados a tons quentes e refulgentes, esfriam, esbatem-se, empalecem, e por vezes, desmoronam-se como castelos de cartas.

O casamento ansiosamente fantasiado, perde brilho; a profissão, elaborada com esmero, cai em desoladora rotina e inaudita sensaboria.

Os festejados sucessos, uma vez alcançados, só servem para alimentar novos desejos.

A viagem marcada, em data incerta, fica esquecida. Prestigio, fama, poder, dinheiro, já não se enxergam ao longe. O futuro tornou-se presente e real.

É então que os olhos cansados, requerem lentes de ver ao perto.

Na vida usam-se dois óculos: o de ver ao longe, na adolescência e idade adulta; e o de ver ao perto, quando os anos, a força, a enfermidade, recordam que o fim inicia-se

Verte-se, então, lágrimas de pesar, lembrando que a vida, que parecia longa e eterna, afinal é curta e enganadora.

Esta ideia, das duas lentes, que serviu para muita meditação, escutei-a, certa manhã de domingo, enquanto caminhava, com meu pai, para a romaria do Senhor do Matosinhos.

Publicado originalmente por: Blogue luso-brasileiro: “PAZ

*Humberto Pinho da Silva nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA, e foi redactor do jornal: “NG”.

Publicado por:  Debates Culturais

Os excessos na criação dos filhos

7 de maio de 2012

João Bosco Leal

Apesar de milhões de pessoas no mundo não possuírem acesso à alimentação, saúde e educação, outras são literalmente infelizes pelo simples fato de haverem nascido em lares que lhes proporcionam de tudo, até em excesso.

Elas normalmente se tornam duras, desacreditando de tudo e de todos, se seus amigos, namoradas ou esposas estão ao seu lado por elas ou por outros interesses. Tornam-se totalmente inseguras, não conseguindo acreditar quando recebem amor verdadeiro.

Apesar de possuírem os mais diversos bens materiais que o dinheiro pode comprar, como carros, motos, iates, aviões e frequentando os lugares mais luxuosos e caros do país e do exterior, percebe-se com muita facilidade a infelicidade de muitas dessas pessoas.

Normalmente isso se deve ao fato de seus pais terem permanecido durante tantos anos trabalhando em busca do aumento de suas fortunas, que não tiveram tempo de lhes fornecer algo que mais importaria na formação do ser humano e que, financeiramente, não custa absolutamente nada: afeto, carinho e amor dos pais. E para compensar seu afastamento, davam-lhes bens materiais.

Já no início de sua convivência social, frequentando os primeiros anos de escola e por possuírem cada vez mais coisas que seus amiguinhos, elas já começam a ser marginalizadas pela grande maioria que não possuem aqueles bens e, talvez até para compensar esse fato, cada dia mais tentem se sobressair e ganhar simpatia dos outros, ostentando objetos exclusivos ou de posse rara, agravando a situação e tornando-se ainda mais isoladas ou cercadas de interesseiros.

Essas crianças então vão percebendo que, apesar de possuírem muitos bens, são pouco queridas e isso vai provocando consequências na formação de sua personalidade e do ser humano em relação à sociedade.

Na juventude, seus desvios de caráter já podem ser notados com mais facilidade. Discussões desnecessárias, brigas, envolvimento em diversos tipos de escândalos, acidentes, bebedeiras e uso de drogas são, proporcionalmente, muito mais comuns entre os que materialmente têm em excesso, do que entre os que pouco ou nada possuem.

As crianças e os jovens sem limites de hoje, resultado desses tipos de comportamentos, certamente serão os adultos sem limites de amanhã, de convivência difícil em sociedade, pois acostumados a fazer só o que desejam, terão de respeitar as leis e os limites como todos.

Serão obrigados a se submeterem às leis do condomínio do prédio ou do residencial onde moram, as do trânsito e todas as outras que regem a convivência social. E mesmo utilizando seu avião ou jatinho particular, terão que obedecer às ordens das torres de comando dos aeroportos, autorizando a decolagem e o pouso destes.

Enfrentarão filas nos cinemas, teatros, lojas, restaurantes, postos de gasolina e aeroportos, como qualquer um. E no final de suas vidas, serão enterrados ou cremados no mesmo espaço destinado a outros cidadãos.

E necessitarão de suporte financeiro para manter esses excessos, mas não terão, pois os que sempre lhe deram tudo um dia faltarão, e deixarão aquele que sempre só recebeu sem saber buscar sequer o próprio sustento, o que é vergonhoso e humilhante para qualquer ser humano.

Aquele que materialmente pouco tem e consegue crescer financeiramente, sempre valorizará o que possui, mas dando aos seus em excesso, certamente comprometerá seu futuro.

Ao invés de excessivos presentes, nossos filhos precisam de amor, carinho e de serem preparados para administrar o patrimônio que receberão.

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Inteligente Vida

5 de maio de 2012

Wagner Moura*

“Quando estava saindo da cerimônia de entrega do prêmio APCA, há duas semanas em São Paulo, fui abordado por um rapaz meio abobalhado. Ele disse que me amava, chegou a me dar um beijo no rosto e pediu uma entrevista para seu programa de TV no interior. Mesmo estando com o táxi de porta aberta me esperando, achei que seria rude sair andando e negar a entrevista, que de alguma forma poderia ajudar o cara, sei lá, eu sou da época da gentileza, do muito obrigado e do por favor, acredito no ser humano e ainda sou canceriano e baiano, ou seja, um babaca total. Ele me perguntou uma ou duas bobagens, e eu respondi, quando, de repente, apareceu outro apresentador do programa com a mão melecada de gel, passou na minha cabeça e ficou olhando para a câmera rindo. Foi tão surreal que no começo eu não acreditei, depois fui percebendo que estava fazendo parte de um programa de TV, desses que sacaneiam as pessoas. Na hora eu pensei, como qualquer homem que sofre uma agressão, em enfiar a porrada no garoto, mas imediatamente entendi que era isso mesmo que ele queria, e aí bateu uma profunda tristeza com a condição humana, e tudo que consegui foi suspirar algo tipo “que coisa horrível” (o horror, o horror), virar as costas e entrar no carro. Mesmo assim fui perseguido por eles. Não satisfeito, o rapaz abriu a porta do táxi depois que eu entrei, eu tentei fechar de novo, e ele colocou a perna, uma coisa horrorosa, violenta mesmo. Tive vontade de dizer: cara, cê tá louco, me respeita, eu sou um pai de família! Mas fiquei quieto, tipo assalto, em que reagir é pior.

” O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice ”

O táxi foi embora. No caminho, eu pensava no fundo do poço em que chegamos. Meu Deus, será que alguém realmente acha que jogar meleca nos outros é engraçado? Qual será o próximo passo? Tacar cocô nas pessoas? Atingir os incautos com pedaços de pau para o deleite sorridente do telespectador? Compartilho minha indignação porque sei que ela diz respeito a muitos; pessoas públicas ou anônimas, que não compactuam com esse circo de horrores que faz, por exemplo, com que uma emissora de TV passe o dia INTEIRO mostrando imagens da menina Isabella. Estamos nos bestializando, nos idiotizando. O que vai na cabeça de um sujeito que tem como profissão jogar meleca nos outros? É a espetacularização da babaquice. Amigos, a mediocridade é amiga da barbárie! E a coisa tá feia.

” Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência ”

Digo isso com a consciência de quem nunca jogou o jogo bobo da celebridade. Não sou celebridade de nada, sou ator. Entendo que apareço na TV das pessoas e gosto quando alguém vem dizer que curte meu trabalho, assim como deve gostar o jornalista, o médico ou o carpinteiro que ouve um elogio. Gosto de ser conhecido pelo que faço, mas não suporto falta de educação. O preço da fama? Não engulo essa. Tive pai e mãe. Tinham pais esses paparazzi que mataram a princesa Diana? É jornalismo isso? Aliás, dá para ter respeito por um sujeito que fica escondido atrás de uma árvore para fotografar uma criança no parquinho? Dois deles perseguiram uma amiga atriz, grávida de oito meses, por dois quarteirões. Ela passou mal, e os caras continuaram fotografando. Perseguir uma grávida? Ah, mas tá reclamando de quê? Não é famoso? Então agüenta! O que que é isso, gente? Du Moscovis e Lázaro (Ramos) também já escreveram sobre o assunto, e eu acho que tem, sim, que haver alguma reação por parte dos que não estão a fim de alimentar essa palhaçada. Existe, sim, gente inteligente que não dá a mínima para as fofocas das revistas e as baixarias dos programas de TV. Existe, sim, gente que tem outros valores, como meus amigos do MHuD (Movimento Humanos Direitos), que estão preocupados é em combater o trabalho escravo, a prostituição infantil, a violência agrária, os grandes latifúndios, o aquecimento global e a corrupção. Fazer algo de útil com essa vida efêmera, sem nunca abrir mão do bom humor. Há, sim, gente que pensa diferente. E exigimos, no mínimo, não sermos melecados.

No dia seguinte, o rapaz do programa mandou um e-mail para o escritório que me agencia se desculpando por, segundo suas palavras, a “cagada” que havia feito. Isso naturalmente não o impediu de colocar a cagada no ar. Afinal de contas, vai dar mais audiência. E contra a audiência não há argumentos. Será?” 

*Carta aberta do ator Wagner Moura sobre o programa Pânico, divulgada em 2008, que voltou à tona depois do quadro em que a Panicat Babi Rossi teve de ficar careca ao vivo, em 2012.

Publicado por:  Globo.com

As células-tronco e a ilusão chinesa

4 de maio de 2012

Cristiane Segatto*

Uma investigação revela que nem o governo consegue acabar com esse engodo. Como os brasileiros podem se proteger.

É possível enxergar a realidade de várias formas, mas uma doença grave na família quase sempre canaliza os olhares para um foco único: o da esperança. A confiança em uma coisa boa é apenas uma das definições de esperança, segundo o Dicionário Houaiss. Há uma outra. Ela quase sempre escapa pela janela quando a moléstia avança pela porta: esperança é algo que não passa de uma ilusão.

Nos últimos anos, famílias de brasileiros que enfrentam graves doenças foram atraídos pelas promessas de cura feitas por empresas instaladas na China. As células-tronco chinesas viraram a panaceia do novo milênio. Em apenas um site da internet, é possível receber a oferta de soluções para problemas que nem as melhores cabeças do mundo, somadas, foram capazes de encontrar.

Autismo, ataxia, esclerose lateral amiotrófica (a doença do famoso físico britânico Stephen Hawking), paralisia cerebral, derrame, lesão medular, distrofia muscular, epilepsia, Parkinson, doença de Huntington. A lista é ainda maior.

Por milhares de dólares, as empresas oferecem injeções de células-tronco que ninguém sabe de onde vêm. Os cientistas mais respeitados do mundo nessa área não sabem se os chineses usam células-tronco embrionárias (aquelas que tem o potencial de gerar qualquer tecido do organismo) ou células de tecidos específicos extraídas de fetos abortados. Ninguém sabe o que os chineses fazem porque eles simplesmente não publicam seus “achados” em revistas científicas.

O que se sabe é que eles cobram caro para submeter os pacientes a experiências que, além de não curar, podem piorar a condição dos doentes. As empresas atraem novos clientes por meio de sites que exibem depoimentos de pessoas que receberam as injeções e dizem ter observado melhorias.

Pode ser efeito placebo. Pode ser um ganho momentâneo provocado por remédios ou fisioterapia. Pode ser qualquer coisa. Inclusive, não ser verdade. É impossível afirmar que essas injeções sejam seguras e eficazes sem acompanhar os pacientes por um longo período, com método científico, e publicar os achados (satisfatórios e insatisfatórios) em revistas científicas. É assim que a ciência caminha. Enquanto isso não é feito, o que os chineses estão fazendo tem nome: charlatanismo.

É compreensível que os brasileiros se comovam com a história de crianças e adultos que enxergam nas promessas chinesas uma única chance. Brasileiro, felizmente, tem coração grande. Mas o altruísmo não pode embotar o conhecimento e a capacidade de reflexão.

Campanhas são feitas em todo o Brasil por famílias que tentam arrecadar dinheiro para a viagem e o falso tratamento. Digo falso porque nas condições em que são oferecidas essas experiências jamais poderiam ser chamadas de tratamento. Carros são doados, municípios inteiros se mobilizam, comunicadores divulgam os apelos.

Melhor seria se a energia e o dinheiro reunidos fossem aplicados na assistência a esses pacientes aqui mesmo no Brasil. Com os recursos terapêuticos que já existem e que foram submetidos ao crivo da ciência. Eles não curam, eles melhoram a qualidade de vida do paciente de forma limitada…Tudo isso é verdade mas, infelizmente, é o que a ciência e a medicina podem oferecer no momento.

“Ir atrás desses tratamentos na China é uma temeridade”, diz Stevens Rehen, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Laboratório Nacional de Células-Tronco (Lance). “Não só pelo dinheiro desperdiçado, mas pelo risco envolvido. É difícil transmitir isso a uma família desesperada, mas o fato é que os doentes podem piorar em vez de melhorar.”

Para ficar em apenas dois exemplos, essas experiências podem provocar câncer e doenças autoimunes. Se as células-tronco embrionárias têm o potencial de se transformar em qualquer tecido, elas podem dar origem a um tumor em vez de corrigir o defeito que se pretende corrigir.

As injeções também podem confundir o sistema imune. “Temos uma biblioteca de anticorpos. A injeção de células estranhas pode fazer o organismo atacar aquelas novas células e também as do próprio paciente”, diz Rehen.

Na semana passada, a revista científica Nature publicou uma investigação sobre esse triste turismo médico na China. Segundo a publicação, o Ministério da Saúde chinês classificou essas experiências como altamente arriscadas e determinou uma auditoria nas empresas antes que elas pudessem oferecer esses serviços. Nenhuma delas recebeu aprovação das autoridades sanitárias da China para funcionar.

A medida não teve nenhum efeito prático.

“Em 2009, havia cerca de cem empresas oferecendo experiências com células-tronco na China”, disse à Nature Doug Sipp, pesquisador do Riken Center for Developmental Biology, em Kobe, no Japão. “Mesmo depois da reforma proposta pelo Ministério da Saúde, essa indústria continua crescendo.”

Em janeiro, o governo chinês anunciou um pacote para moralizar o setor. Qualquer organização que trabalhe com células-tronco deve registrar as pesquisas em andamento e possíveis atividades clínicas, declarar de onde vêm as células-tronco e quais são seus procedimentos em relação à ética em pesquisa.

O Ministério da Saúde chinês pediu às autoridades locais que interrompam qualquer uso clínico de células-tronco que não tenham recebido aprovação prévia. E lançou uma moratória nacional para barrar qualquer novo estudo clínico com células-tronco. Determinou também que não seja cobrado nenhum valor dos pacientes inscritos nessas experiências.

Cobrar milhares de dólares para submeter um paciente a uma experiência, sem nenhuma garantia de segurança e eficácia, é uma das mais sórdidas atividades econômicas desses novos tempos. É muito difícil fazer uma família perceber isso no momento em que se apega a toda e qualquer esperança. Alertar é a obrigação de quem tem distanciamento suficiente para enxergar a cena completa.

Como bem lembra o editorial da Nature, nas décadas de 30 e 40 do século passado, os médicos se convenceram de que o acesso à lobotomia (intervenção cirúrgica radical no cérebro para tratar esquizofrenia e outros males) era tão ugente que não seria possível aguardar o processo de comprovação de segurança e eficácia. Os cérebros de milhares de pacientes foram mutilados antes que os críticos conseguissem reunir argumentos e evidências suficientes para banir o uso da lobotomia.

É grande a semelhança com o que acontece hoje na China.

Infelizmente, a ciência não avança na velocidade esperada pela sociedade. Mas cautela é fundamental. Nesta semana, o Brasil deu mais um passo ao anunciar a liberação de R$ 15 milhões para estimular as pesquisas com células-tronco em oito centros de tecnologia celular.

Todo dinheiro é bem-vindo, mas é preciso ir além. Não é de hoje que os pesquisadores lutam contra a burocracia da Anvisa para conseguir importar reagentes e material biológico. As células não chegam ou chegam mortas aos laboratórios. São desperdiçados tempo, energia e dinheiro.

Os centros também precisam de novas regras para conseguir contratar pessoal com rapidez e com salários atraentes. No laboratório de Rehen, os profissionais são contratados por meio de bolsas. É difícil, quase impossível, reter um bom pesquisador com salários entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil.

“Acabei de perder um ótimo profissional. Vai trabalhar na L’Oréal, em Paris”, diz Rehen.

Sorte do garoto. Azar o nosso.

*Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 17 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais e internacionais de jornalismo. Entre em contato: Email: cristianes@edglobo.com.br Twitter: @crissegatto

Publicado por:  Época

A falta de tradição turística

4 de maio de 2012

João Bosco Leal

Todos sabem que quando ocorre um feriado prolongado como o de agora, quando o verdadeiro feriado foi numa terça feira, é muito comum as pessoas viajarem. Aliás, pensei que todos soubessem, mas parece que não é o que está ocorrendo com os responsáveis pela Secretaria de Turismo da cidade de Campo Grande, MS.

Recebendo uma visita vinda de outro estado e que não conhecia a cidade, resolvi dar uma volta mostrando-lhe o que tínhamos de diferente na cidade, antes de sair para algum outro ponto turístico no interior.

Passeando pelo Parque das Nações Indígenas, fui até o CRAS – Centro de Recuperação de Animais Silvestres, que é um local onde a Polícia Militar Ambiental trata de animais encontrados feridos nas estradas de MS ou apreendidos em cativeiros irregulares, antes de reconduzi-los a seu habitat natural.

Para quem não conhece Campo Grande, esse Parque possui centenas de hectares de preservação ambiental cercados, com a vegetação ainda intocada pelo homem, com muitas árvores nativas e por onde transitam muitos animais nativos como Quatis, Macacos, Araras, Papagaios e dentro do CRAS é possível ver uma quantidade bem variada de animais, o que imaginei ser interessante para um turista de um grande centro urbano sem acesso a esse tipo de visitação em sua cidade.

Para minha surpresa, o CRAS estava fechado, pois não funciona nas segundas feiras, e na portaria fui informado pelo policial de plantão que lá só se poderia entrar com horário previamente agendado. Incrédulo, estou até o momento sem entender qual o raciocínio desenvolvido pelos responsáveis na administração de uma atração turística como esta, que permitem que a mesma fique fechada ou necessitando de agendamento para visitação no meio de um feriado prolongado.

Com o turista frustrado, fui até outro ponto interessante, o Museu José Antonio Pereira, que é o museu instalado onde teoricamente foi construída a primeira casa da cidade, a de seu fundador, com a mesma ainda mantida com Monjolo, Moega de Cana movida pela tração animal, Carro de Boi etc., mostrando exatamente como se vivia há mais de um século.

Nova surpresa. O museu também estava fechado e com uma placa dizendo que só funciona de terça a sábado. Certo, pensei, mas em datas especiais como a de um feriado prolongado não se abrem exceções? Será que ninguém da Secretaria de Turismo do Município imagina a possibilidade de que em dias assim apareceriam turistas?

Essa possibilidade é tão real que imediatamente, enquanto admirávamos o fato do portão estar trancado, chegou outro veículo com turistas e logo em seguida um terceiro. Conversávamos e havia turistas de Salvador, São Paulo e Paraná distribuídos nos três veículos.

A decepção generalizada logo deu motivo para discussões sobre o despreparo de nossas autoridades, que ainda não se deram conta da importância do turismo como cultura e arrecadação de recursos, para o município, estado ou país. Isso é tão claro atualmente em todo o mundo que os Estados Unidos estão alterando até o prazo de validade do passaporte dos brasileiros e aqui abrindo novos postos de emissão de vistos de entrada naquele país, para atrair mais turistas brasileiros para lá gastarem seus dólares.

Cidades como Bonito, em MS, estados e até países tem sua principal fonte de arrecadação no turismo, mas em Campo Grande, MS, a administração pública ainda não entendeu a importância econômica e cultural do turismo.

Com todas as possibilidades existentes, o despreparo para melhor exploração turística em nosso país chega a ser irresponsável.

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Não troco meu oxente pelo ok de ninguém

3 de maio de 2012

Téta Barbosa*

Se alguém inventou o stand up comedy no Nordeste, esse cara foi Ariano Suassuna. Só ele para, de fato, conseguir entreter sozinho (sem fantasia, nem cenário) uma plateia por horas contando, não piadas, mas causos.

Claro que se o poeta, romancista e dramaturgo for ler esse texto e aceitar o cargo de inventor da comédia sertaneja, não vai fazê-lo em inglês. Vai chegar logo dizendo: “é comédia em pé, minha filha”.

Porque é assim que Ariano trata o americanês que a gente adora enfiar no meio do nosso bem dizido português. “Não troco meu oxente pelo ok de ninguém”! – diz o paraibano mais pernambucano do mundo.

Mas, vamos ao assunto da comédia em pé, já devidamente traduzida pra o brasileiro armorial.

Fico imaginando como deve ser difícil, ficar ali, em pé, contando história pro povo rir. Isso sem falar no medo de levar um processo. O politicamente correto dificultou a vida desses profissionais do riso que, além de ter que enfrentar uma plateia ansiosa por diversão, também está ansiosa por uma batalha judicial.

Soube até que pelas bandas do sul (leia-se São Paulo*) tem um espetáculo de stand up comedy onde o público tem que assinar um termo de responsabilidade, atestando não se ofender com o conteúdo.

Desviei de novo do assunto; já estou em processo e guerra judicial, quando o tema era piada. Piada simples, em português e sem ofender ninguém. Vendo assim, parece que o show de stand up do cara vai ficar parecendo uma palestra sobre o aquecimento global e a crise na Europa, mas na prática é possível sim contar uma história engraçada, com conteúdo liberado para menores de 16 anos e sem precisar xingar a mãe de ninguém.

E é isso que Ariano Suassuna faz em suas aulas-espetáculo. É verdade que é um sit down comedy porque o contador de histórias prefere ficar sentado mesmo. Mas nada que interfira na graça dos causos (que só tem graça mesmo quando ele conta). E o mais engraçado é que não são piadas. São histórias do dia a dia mesmo.

Conversas com o taxista, com a costureira, com os amigos. Conversas que ficam engraçadas pela maneira que são contadas, pelas ênfases nas palavras, e não necessariamente pelo conteúdo extravagante ou final surpreendente.

Então, pelo nosso direito de rir sem precisar preencher um formulário de imunidade jurídica, sugiro aos comediantes da nova geração beber um pouco da fonte armorial.

*Sei que São Paulo fica no Sudeste. Mas é que pra a gente do Nordeste, pra baixo da Bahia, tudo é sul. 

*Téta Barbosa é jornalista, publicitária, mora no Recife e vive antenada com tudo o que se passa ali e fora dali. Ela também tem um blog – Batida Salve Todos

Publicado por:  O Globo – Blogs

O poder dos introvertidos

2 de maio de 2012

José Renato Nalini* 

Pesquisas sugerem que as pessoas são mais criativas e eficientes quando fruem de certa privacidade. Mesmo com toda a conversa digital, escritórios sem divisórias, oficinas de trabalho compartilhado, redes sociais e aprendizado em grupo, a solidão é o caminho para a inovação, a conquista e a percepção profunda. Susan Cain escreveu um livro interessante: “Silêncio: o poder dos introvertidos em um mundo que não consegue parar de falar” (Quiet: The Power of Introverts in a World Tha Can´t Stop Talking). Ela diz que nossa cultura é tão adepta do gregarismo, que desprezamos a parte silenciosa do processo criativo.

Na verdade, somos encurralados em reuniões intermináveis ou ligações inoportunas. A falta de privacidade torna as pessoas hostis, inseguras e distraídas. As chances de sofrer pressão alta, estresse, gripe, exaustão e cometer mais erros aumentam. Há quem se recuse a aceitar isso. “Goste-se ou não, a criatividade humana torna-se cada vez mais um processo de grupo”, diz Jonah Lerer, adepto do “brainstorming”. Essa discussão catártica de ideias já é bastante utilizada no Brasil. Mas muito melhor do que o pensamento em grupo, é se afastar e recuar para dentro de si mesmo.

Um retiro silencioso e solitário, conhecido como “lerung”, parte de uma prática do budismo tibetano está em moda. Centros de meditação e retiro nos Estados Unidos oferecem refúgios isolados por 25 dólares a noite. É uma tendência norte-americana contemporânea, cultivada por quem acredita que a solidão se tornou mercadoria rara no mundo totalmente conectado. Olhando para dentro de si mesmo, o ser humano aprende o que é saudável para ele, o que se quer realmente na vida.

Aprende-se a distinguir o que se quer e o que se quer deixar. Pode ser que o cansaço venha desse excesso de gente ao redor da gente. Então, chega-se à conclusão de que o que atrapalha são os outros. Como fazer para deixar de lado, senão todas, ao menos grande parte das outras pessoas? Talvez não se precise chegar a tanto. Mas que um pouco de solidão, desde que escolhida, faz bem à alma. Quem não consegue se aguentar, como pretende que os outros o suportem?

Publicado originalmente por: Blogue luso-brasileiro: “PAZ

*José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Publicado por:  Debates Culturais

A verdadeira liberdade de imprensa

1 de maio de 2012

Carlos Henrique Abrão*

O que assistimos hoje no Brasil é um fator que se assemelha a uma posição de uma imprensa que pretende ser livre, mas, ao mesmo tempo, necessita de articulações políticas e no campo empresarial.

Ninguém ousa discutir, e a própria constituição assegura, a plena e total liberdade de imprensa, fonte primária de qualquer democracia.

No Brasil, nada obstante, a imprensa tem assumido posições antagônicas e o número de ações na justiça cresceu assustadoramente nos últimos anos.

Haveria um balizamento para o discernimento pontual de cada matéria, ou tudo se desenvolveu por causa da internet, gerando mais um clima de denuncismo do que propriamente de realidade?

Desde a discussão a respeito da necessidade de diplomação do profissional jornalista, até as matérias por eles tratadas, não se dúvida que houve um salto de qualidade na imprensa e em poucos segundos tudo que acontecer ao longo do planeta pode ser radiografado e postado nos meios digitais.

O desafio deste conciso trabalho está em ver e perceber sobre o papel imparcial da imprensa e sua função social no meio da população.

Notícias apressadas e desinformados causam espanto e reparações morais são insuficientes para um novo caminho, basta citar o caso emblemático da escola Base.

Ultimamente ocorre um pesado tiroteio e divisões entre a imprensa escrita, falada e televisada, cada um querendo assumir um determinado papel e lançando preocupações diuturnas.

Falou o Presidente do TRF da 3ª Região, o professor Newton de Lucca que seria preciso um habeas mídia para monitorar e acompanhar de perto aquilo destacado pela imprensa.

Embora seja respeitado o ponto de vista, acreditamos que a profissionalização e a expansão do jornalismo, ambas provocaram um aumento de notícias, muitas delas sequer suficientemente avaliada.

A responsabilidade profissional e do meio informativo somente é apurada bastante tempo depois e fica neste jogo do chove não molha.

Esta tática da imprensa, não construtiva, tem sido nociva e basta qualquer palavra mais aguda para que se transforme num mote para eliminar qualquer oportunidade de defesa ou explicação em torno dos fatos.

Não falo apenas de um poder, mas da instituição e do fortalecimento da república.

A autoridade da qual se reveste a informação é fonte fundamental para espalhar a boataria e destruir reputações, e se colocam em risco vidas e muitos trabalhos feitos ao longo de uma carreira.

O que assistimos hoje no Brasil é um fator que se assemelha a uma posição de uma imprensa que pretende ser livre, mas, ao mesmo tempo, necessita de articulações políticas e no campo empresarial.

São raros os meios de comunicação que podem explorar seus próprios negócios sem apoio financeiro ou ajuda institucional, e isso causa um frisson no próprio elemento de perfomance.

Precisamos, urgente e habilmente, reconstruir os padrões morais, éticos e sociais de uma imprensa livre, no sentido verdadeiro e, para tanto, é auspicioso que ela transmita os anseios da sociedade e as percepções que nos mostrem no caminho certo.

O que temos observado ultimamente é um latente senso de particularidades que refogem do senso público e do interesse social e, a partir desse pressuposto, a concessão de rádios e tevês deveria passar por um processo de redefinição e alargamento do ponto de vista informativo.

Não é aceitável que sejam exploradas, por meio século, pelos mesmos atores que compartilham interesses com o poder.

As poucas tentativas de rádios, jornais ou canais com conteúdo informativo, ético e cultural soçobraram por falta de investimentos e interesses mais agudos.

A imprensa brasileira, é preciso reconhecer, evoluiu muito desde a Constituição de 1988, mas precisa caminhar a passos firmes e decisivos para um perfil associado à sua verdadeira função.

Fustigar e malhar em ferro frio é apenas um conceito impreciso do que temos assistido e isso não leva absolutamente a nada.

Este caminhar passa necessariamente pelo sentido e o alcance de sua pretensão no meio social.

É inadiável protagonizar um papel que esteja em constante evolução e aumente o nível cultural e intelectual da população.

Quando programas sem conteúdo e totalmente absorvidos pelo baixo nível ingressam nos recintos dos lares, é um motivo de estarmos cobrando mais qualidade e eficiência.

Em toda a visão e na síntese do pensamento, devemos trabalhar por uma imprensa fortalecida, livre, mas, acima de tudo, que transmita responsabilidade e cultue valores permanentes para o próprio conforto da sociedade, sua destinatária única e final.

*Carlos Henrique Abrão é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo

Publicado por:  Brasil 247

Petralhas virtuais – estudo de caso

30 de abril de 2012

Rodrigo Constantino

Atentai para o nível dos petralhas virtuais! Eu recebo uma média de 10 mensagens (spam) por dia desses canalhas que “trabalham” no bunker do PT na tentativa de jogar fumaça no julgamento do mensalão. Atacam a grande imprensa com a fúria de um stalinista. Sempre respondo a mesma coisa: A “profissão” mais degradante do mundo é petralha virtual. De vez em quando, do outro lado, não é que respondem? Segue uma dessas respostas, de um tal de Indira Demeterco (indirademe@gmail.com), para vocês terem uma noção do nível dessa gente (peço desculpas pelos termos chulos que eu normalmente não usaria aqui) e do que eles pretendem fazer com o Brasil:

“É você é o quê? Um privilegiado, herdeiro dos donatários das capítanias hereditárias? Um membro da elite que suga o trabalho do povo? Um classe média preconceituoso e babaca, que se acha o mais ético do mundo, mas fura o sinal, não respeita faixa de pedestre e corrompe guardas e outros servidores públicos se puder? Me engana, que eu gosto. Quais os valores que você ensina para seus filhos? Você diz pra eles que é legal e bonito mudar as regras do jogo com o jogo em andamento, como fez FHC ao aprovar a emenda da reeleição em proveito próprio? Você ensina para seus filhos, que é bonito comprar votos para aprovar uma emenda (a da reeleição) para continuar mais um tempo no poder? Você ensina para seus filhos que o Brasil sempre foi uma nação decente, justa e sem corrupção até 2002? Que a corrupção começou no país em 2002, com a chegada do PT ao poder? Ora, vai se foder seu FDP, direitista corrupto, preconceituoso, desonesto, falso, hipócrita. Se prepara, que o PT veio para mudar o país e acabar com parasitas como você. Ouça povo nas ruas e veja se ele está satisfeito ou não. Trouxa, babaca.”

Pois é. Eis aí um típico petralha virtual. Te manda spam e depois liga a metralhadora giratória de ofensas, provavelmente diante de um espelho, como tio Lênin ensinou. É triste um país que tem gente dessa laia recebendo verba do GOVERNO para espalhar mentiras e ódio autoritário pelas redes sociais e emails. Ou o Brasil se livra da corja petista, ou esta corja acaba de vez com o Brasil.

Publicado por:  Rodrigo Constantino

Parcerias: a química que faz a diferença

30 de abril de 2012

Antonio Luiz Amorim* 

“Ninguém transforma ninguém
Ninguém se transforma sozinho
Nós nos transformamos no encontro
Se houver encontro…” (Roberto Crema)

Esse “encontro” a que o Psicólogo Roberto Crema se refere pode ser uma “pista” para a identificação da “química” seja entre parceiros, equipes ou relações de uma forma geral.

É comum ouvirmos falar dessa “química” no cotidiano: “tem que ter química”, “deu uma química incrível”, mas o que a faz acontecer?

Quais são os fatores que contribuem de forma favorável para o surgimento dessa química? E que, se ausentes, contribuem para a inexistência da química?

Será que dá para identificar os seus componentes?

Os semelhantes se atraem ou são os opostos que se atraem?

Eu preciso do igual ou preciso do complementar? Então, como é que as pessoas constroem parcerias?

Que valores estão envolvidos na formação das parcerias? E o que é um valor na formação de um ser humano?

Como diz uma ótima propaganda em curso “são as perguntas que movem o mundo e não as respostas”.

Um ponto fundamental, a meu ver, é a relação de abertura e confiança entre os participantes.

Em seu trabalho junto à Marinha americana, o Psicólogo Will Schutz concluiu que a maior produtividade das equipes estava diretamente ligada às relações de abertura e flexibilidade entre os seus membros.

Abertura se dá quando eu digo a minha verdade para você e você diz a sua verdade para mim.

Abertura gera confiança e a confiança leva a mais abertura.

E a construção da confiança? Confiança existe quando nós podemos prever comportamentos e temos valores comuns.

Confiar é fiar com…

Diga sempre o que sente e faça o que pensa”, escreveu Gabriel Garcia Marquez aos amigos.

Quanto ao gostar, “a gente só gosta de quem a gente admira”, já advertiu o grande poeta Mario Quintana.

Até aqui, alguns ingredientes para arriscarmos uma composição da química que faz a diferença: abertura, confiança, valores e admiração…

Mas seria só isso?

Uma pausa importante para lembrarmos que os papéis não podem ser esquecidos.

Cada papel possui um complementar, no exato instante em que ele acontece.

Eu preciso estar consciente de qual é o meu papel naquele determinado momento para que a chamada “contaminação”, não ocorra.

Situações que dizem respeito a uma relação entre amigos precisam ser separadas nas relações profissionais, embora as necessidades humanas, tão comuns a todos, não devam ser esquecidas.

Costumo dizer que cumplicidade é a palavra mais bonita da língua portuguesa…

O Aurélio é econômico na definição de cúmplice “Pessoa que colabora em, ou participa com outrem de algum fato; parceiro, sócio”.

Ser cúmplice, a meu ver, é mais que colaborar ou ser sócio, sem dúvida.

Seguramente os nossos valores pessoais vão definir se queremos ou não estar próximos, entrarmos em um campo de cumplicidade e até de afinidade.

Ainda citando o Psicólogo Roberto Crema, ele diz “o olhar é estruturante”. E como é…

“A paisagem de fora, a vemos com os olhos de dentro. A paisagem é um estado de alma, na realidade, o que vemos está em nós”, confirma a tese, em outro pensamento, o escritor José Saramago.

Acrescento que ter um olhar para o outro(a) a partir do melhor das suas possibilidades faz toda a diferença para ambos e para o ambiente que os cerca.

E ter simpatia pelo outro é muito diferente de fazer empatia com a situação do outro.

Em uma belíssima reflexão, Eckchart Tolle amplia essa percepção do olhar e da escolha e nos mostra o que é fazer empatia: “Se o passado de uma pessoa fosse o seu passado, se a dor dessa pessoa fosse a sua dor, se o nível de consciência dela fosse o seu, você pensaria e agiria exatamente como ela. Ao compreender isso, fica mais fácil perdoar, desenvolver a compaixão e alcançar a paz. O ego não gosta de ouvir isso, porque sem poder reagir e julgar ele se torna enfraquecido”.

Nesse “mosaico da química” já temos então: abertura, confiança, valores, admiração, cumplicidade, olhar pelo melhor, escolhas…

Não há fórmulas para as questões do comportamento humano, mas existem maneiras de compreendê-lo melhor. Expandir o olhar, expor valores e inspirar confiança são meios de gerar químicas capazes de transformar o comportamento humano. Sempre que isso acontece conosco experimentamos uma grande ampliação de consciência e nos tornamos responsáveis pelas nossas escolhas.

E quanto à química das paixões e do amor?

Estariam os mesmos aspectos presentes?

Muito provavelmente que sim, embora “o coração tenha razões que a própria razão desconhece”.

*Antonio Luiz Amorim, economista, pós-graduado em Administração Financeira e Psicologia Organizacional. Experiência profissional de mais de 20 anos, nas áreas Financeira, Administrativa e de Recursos Humanos com liderança de equipes em grandes empresas. Atuando há mais de 10 anos como palestrante e consultor em temas ligados ao campo do Desenvolvimento Humano e Organizacional em vários estados do Brasil. Professor de Cursos de Pós-Graduação e MBA e coordenador de projetos da Fundação ADM (UFBA). Consultor Organizacional associado à Marcondes Consultoria, Trainer com formação na metodologia The Human Element®, pela Bcon WSA International. Foi diretor da ADVB-BA e Presidente do Conselho Deliberativo da ABRH-BA. Atualmente é diretor da Universidade Internacional da Paz- UNIPAZ- BA e presidente do conselho consultivo do Instituto do Conhecimento – ICON. Possui 09 livros publicados, entre artigos, Desenvolvimento de Carreira, poesia e contos. Autor de “Construindo Pontes: 10 passos do Aquário(emprego) para o Oceano(trabalho)”, Ed. Qualitymark, lançado em Agosto/08 no Conarh-SP. www.antonioamorim.com.br

Publicado por:  Debates Culturais