Paulo Saab
Vou por um pouco de pimenta no debate que se criou em torno da questão das sacolas plásticas para transportar as compras de supermercado. Como cidadão comum, e com o prazer de paulistano, há mais de três décadas frequento supermercados para fazer as compras de minha família.
Vivi o tempo da inflação, da estabilização, e de algum modo sinto que de dois anos para cá as gôndolas (e o caixa) desses estabelecimentos se tornaram meu referencial de inflação – sempre acima dos índices oficiais.
Antes de prosseguir, é bom que se frise : sou a favor da preservação do meio ambiente e desde eras priscas aderi, em meu condomínio, à coleta seletiva de lixo.
É verdade que isso foi votado há muitos anos e só agora tive notícias de que será implementada a tal coleta.
Eu já separo material reciclável de orgânico.
Isso posto, para não deixar os ambientalistas amuados, e engajado nas campanhas ambientais, posso perguntar ao leitor (afirmar seria temerário) se ele (e ela, principalmente) entendem como o fato de os supermercados decidirem não mais adotar a tal sacolinha não-biodegradável vai de fato contribuir para algo que não seja o eventual aumento do faturamento – porquanto passou a vender sacolas, carrinhos e que tais?
Até disso eu duvido um pouco, leigamente, porque, tomando meu próprio exemplo, reduzi para menos da metade as compras que fazia, para ter condições de carregá-las. Ainda assim, a primeira caixa de papelão que tentei levar para o carro rompeu -se e minhas compras foram todas ao chão.
E chegando (como cheguei) cada morador do meu prédio e de todos os prédios cujos condôminos fazem compras em supermercados, com quantidade semelhante de caixas de papelão (que entupiram a lixeira do meu andar), como ficará a montanha de caixas pela cidade afora? Mais despesas para os condomínios…
Enquanto isso, os supermercados, além de não oferecer mais as sacolinhas, estão vendendo sacolas, carrinhos de feira e que tais, tudo a título de colaborar com o meio ambiente.
Mas pergunto de novo: e as sacolinhas plásticas em que embalamos os queijos, as carnes, as demais compras? Estas continuam existindo, ou vamos embrulhar o peixe e a carne no jornal velho?
Sou a favor da livre empresa, da economia de mercado, do lucro, da racionalidade, da criatividade, enfim, de tudo que faz girar a economia, o desenvolvimento na vida do País.
Como consumidor, porém, não gosto de me sentir regredindo, ou enganado. Sem considerar também
que se trata – a abolição das sacolinhas – de um acordo entre os supermercados, e não uma exigência legal. Acordo que beneficia quem vende e prejudica quem compra, em larga escala, e faz o faturamento do estabelecimento, me parece, ser algo da competência de aplicação do Código de Defesa do Consumidor.
Repito: sou a favor de medidas que ajudem a preservar o meio ambiente. Esta, a das sacolinhas, me parece muito mais uma esperta jogada de marketing, que poderia se aliar à preservação do planeta, não trouxesse tão ostensivo o desrespeito há décadas de hábito de consumo, sem alternativas adequadas.
Se sobra caixa de papelão agora, em casa, no supermercado logo será disputada a tapa ou abandonada pelo consumidir – como abandonarei, de hoje em diante, o programa quinzenal de ir ao supermercado e comprar parte das coisas por impulso, sem necessidade objetiva.
Não gosto de espertezas na vida pública. E nem na privada.
*Paulo Saab é jornalista e escritor
Publicado por: Diário do Comércio